Pública X Privada: Como escolas de SP estão se organizando na pandemia
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Pública X Privada: Como escolas de SP estão se organizando na pandemia

Pública X Privada: Como escolas de SP estão se organizando na pandemia

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No dia 23 de março, o Governo do Estado de São Paulo decretou que escolas públicas e privadas seriam obrigatoriamente fechadas devido ao novo coronavírus. Inicialmente, a paralisação seria apenas um adiantamento das férias, mas, por conta do agravamento da pandemia no país, escolas teriam de voltar de maneira remota. Tecnologia e ensino a distância tornaram-se aliados para dar continuidade ao ano letivo, mas enfrentam barreiras como a falta de comprometimento dos alunos e problemas no acesso à Internet. Esta nova mudança provisória na educação escancarou, também, a desigualdade entre ensino público e privado.  

escolas
Veja como as escolas de São Paulo estão se organizando durante a pandemia. | Foto: Arthur Menicucci/G1.

Disparidades entre as escolas públicas e privadas na pandemia

Com o fechamento das instituições de ensino, toda a dinâmica de aulas, exercícios e avaliações teve de ser repassada ao ambiente virtual. Portanto, ocorreu uma digitalização da área de forma apressada e, em alguns locais, sem a estrutura adequada para que a educação a distância produzisse resultados de qualidade. Os efeitos foram sentidos em maior escala pelos estudantes e professores da educação pública, muitos dos quais não empregavam qualquer mecanismo digital antes da atual crise. 

Ensino público

Para Andréa Ramires, 49 anos, diretora de ensino da rede pública, o governo não deu um suporte correto para o uso das tecnologias, tanto aos alunos quanto aos professores. A principal dificuldade que está passando é devido a isso, os estudantes não possuem tecnologia para acompanhar as aulas e, na escola, “não tem nem computador com câmera”. “O secretário da educação faz muitas lives, mas nada concretiza na escola. Como dizem: o chão da escola é diferente do que do gabinete”, finaliza.  

A escassez de tecnologia na rede pública é sentida entre os alunos, diretores, coordenadores e, principalmente, os professores. Muitos nunca tinham ensinado de forma remota e, de repente, tiveram de se reinventar para trazer uma boa aula. Para Priscila Tadeu, 34 anos, professora da rede pública, a grande mudança, foi se colocar no lugar do próximo e principalmente se adaptar ao novo, como o uso de novas tecnologias antes desconhecidas. “Estamos sempre buscando novas estratégias para manter os alunos engajados com a aula, mas cada dia fica mais difícil (…) Para nós professores, isso tudo está sendo cada dia mais um aprendizado”, completa.  

A professora comentou também sobre a participação dos alunos durante as aulas. “Alguns não conseguem acompanhar, falam principalmente da falta de computador e Internet, pois a pandemia pegou todos sem nenhum preparo, infelizmente existe uma grande diferença de classe social”.  

As aulas estão sendo dadas por professores do próprio Governo do Estado, através do canal TV Univesp, na qual duram em torno de uma hora e meia por dia. Os professores das escolas, após essas aulas na televisão, fazem a interação com os alunos pelo próprio WhatsApp, passando atividades e tirando dúvidas, um dos únicos meios de comunicação que eles têm com os alunos.  

Infelizmente, a falta de compromisso dos alunos e dos pais agravam o aprendizado, assim como a falta de tecnologia. Para a diretora Andréa, os responsáveis não estimulam os filhos a assistirem às aulas. “Os alunos sofrem com a falta de paciência dos pais em ajudar nas atividades e também com a falta de escolaridade dos pais”, conclui.  

Como comentou a professora Priscila, existe uma grande desigualdade social e, de fato, podemos observá-la pelas diversas diferenças do ensino público para o privado. O ensino na rede particular também foi atingido pela pandemia de coronavírus, porém não de forma escancarada igual ao da rede pública. 

Ensino particular

A aluna do ensino médio, Giulia Teles, de 16 anos, relata que a escola particular onde estuda, conseguiu ao máximo deixar o ensino e o sistema mais parecido com o presencial. Conta, também, que o colégio ofereceu, ao longo do período de quarentena, plantões de retomada, repassando novamente o conteúdo de todas as matérias abordadas durante o ano. “Deram um grande suporte para a gente e isso acabou facilitando muito”, finalizou.   

O professor de matemática, Rodney Gasparini, 52 anos, falou sobre um tema que escolas privadas e públicas têm em comum: a falta de comprometimento e de interesse por parte de alguns alunos. “A participação é muito pequena. Eles estão conectados, mas dificilmente respondem uma pergunta, você acaba dando aula para uns 5,6 e olhe lá”, conta. “Às vezes, você tá falando e ninguém responde, tem aluno que responde por dó”.  

Na questão financeira, as redes privadas tiveram um grande déficit devido à compra de novos equipamentos para os professores darem suas aulas e, principalmente, pela falta de renda dos pais na qual levou a não conseguirem pagar as mensalidades. Robert Sacaloski, 67 anos, relatou que, na escola onde é vice-diretor, os problemas financeiros foram tão altos que tiveram de demitir funcionários da área administrativa.      

O governo do Estado de São Paulo autorizou a volta parcial das aulas dia no dia 7 de outubro, porém de forma opcional e apenas para alunos do ensino médio. Posteriormente, foi anunciado que, a partir do dia 3 de novembro, seria realizada a retomada das aulas do ensino fundamental. Tanto educadores da rede pública, quanto da rede privada, foram contrários à retomada neste período. O professor Rodney Gasparini disse que voltar em novembro para ter entre 15 e 30 dias de aulas foi um “risco desnecessário” e que, “se fosse pra voltar, deveria ter voltado antes”. Para a professora Priscila Tadeu, a volta precoce das aulas não valeu a pena devido à questão de saúde pública, onde alunos e professores ficaram expostos à doença. “A vida vale mais que um ano perdido. Aprendizagem recuperamos depois, vidas não”, conta.      

A pandemia mostrou como as pessoas da área da educação são importantes e, muitas das vezes, desvalorizadas. Educadores, independente da instituição em que atuam, se esforçaram ao máximo para trazer um bom conteúdo aos alunos a fim de que o ano não fosse ‘perdido’. “Quem sabe assim começam a entender a dificuldade que é educar e dão mais valor aos professores”, encerrou a diretora Andréa.  

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Por Lucas Ramires – Fala! Cásper

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