A história da extrema-direita norte-americana
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A história da extrema-direita norte-americana

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No dia 6 de janeiro de 2021, apoiadores do ex-presidente norte-americano, Donald Trump invadiram o Congresso Nacional do país, em uma tentativa de interromper a confirmação da vitória da chapa formada por Joe Biden e pela vice-presidente, Kamala Harris. Entre os invasores, destacavam-se membros de organizações como os “Proud Boys”, e milícias como os “Boogaloo Bois”, os “Oathkeepers” e os “3 percenters”, além de seguidores da teoria da conspiração conhecida como QAnon. O evento levaria não apenas organizações como o Departamento de Justiça e o FBI, mas também o próprio Congresso norte-americano voltar suas atenções à extrema-direita do país, cujo crescimento mostra-se palpável.

Em um depoimento concedido ao Senado dos EUA, no início de março, o diretor do FBI, Cristopher Wray, chegou a dizer que o terrorismo de extrema-direita, assim como um câncer, estaria em estado de “metástase”, espalhando-se incontrolavelmente pelo país. 

A história dos Estados Unidos pode ajudar a explicar melhor as origens desses grupos e como eles ganharam tamanho poder, tornando-se uma das principais ameaças terroristas contra a maior potência militar do planeta.

O racismo no Sul dos Estados Unidos

Marcha da Ku Klux Klan
Marcha da Ku Klux Klan em Washington, 1924. | Foto: Reprodução.

As origens da extrema-direita moderna nos EUA encontram-se no Sul do país, após a Guerra Civil norte-americana (1861-1865), conflito que viu os estados escravagistas do Sul tentarem se separar do restante do país, a fim de não reconhecerem a vitória de Abraham Lincoln para a presidência, nas eleições de 1860, e impedir o avanço da causa abolicionista. Após a derrota do Sul, a região passou a ser ocupada por tropas do exército americano, as quais tinham a missão de garantir que a população afrodescendente (então recém-libertada da escravidão) teria garantido seu direito de participar, como eleitores e candidatos, das eleições locais.

A partir da década de 1870, em resposta a esse novo cenário, começaram a surgir organizações políticas de cunho racista e supremacista branco, cujo objetivo era aterrorizar a população negra, bem como militantes brancos favoráveis à ampliação dos direitos civis, através da violência, garantindo que tanto uns quanto os outros não teriam condições de votar ou participar de disputas eleitoras. Algumas dessas organizações detinham nomes como “Red shirts” (os “camisas vermelhas”, em referência ao uniforme utilizado por seus integrantes) e a “White Men’s League” (a liga dos homens brancos).

Porém, a mais famosa dentre elas foi a Ku Klux Klan, formada por ex-integrantes do exército confederado – que lutara pela secessão dos estados sulistas. O nome “Ku Klux Klan”, provavelmente, provinha de uma mescla da palavra grega “kyklos”, que quer dizer “círculo”, com a palavra “clã”. Valendo-se de uma estrutura inspirada em sociedades secretas, baseada em rituais de iniciação e vestimentas cerimoniais, a Klan tornou-se infame por incendiar casas e matar pessoas negras, além de pendurar os corpos de suas vítimas em estradas. 

Por conta de sua notoriedade, a Klan passaria a ser coibida pelo governo norte-americano, que já em 1870, decidiu defini-la como uma organização terrorista. Entrando nas décadas seguintes, a Klan viria a ter um ressurgimento a partir de 1915. Neste ano, o diretor D. W. Griffith lançou O Nascimento de uma Nação, filme mudo que viria a ser um imenso sucesso de bilheteria nos EUA. Famoso por ser um dos filmes que viria a definir a maneira moderna de edição cinematográfica, O Nascimento de uma Nação narrava a história da Ku Klux Klan de maneira heroica, mostrando seus membros como cavalheiros, interessados em defender o Sul contra a violência de homens negros. O uso disseminado de estereótipos racistas e de uma retórica violenta, tornaram o filme polêmico mesmo em seu lançamento, o que não evitou que o mesmo obtivesse grande sucesso de público.

A disseminação de imagens associadas à Ku Klux Klan fez com que a organização fosse refundada em diversas partes dos EUA, agora propondo um discurso não apenas contrário à população negra, mas também contra judeus, católicos, imigrantes, homossexuais e comunistas. A fim de demonstrar seu poder político, a Klan realizou uma marcha em Washington, capital dos EUA, em 8 de agosto de 1925, na qual reuniu 30.000 de seus apoiadores, todos trajando o tradicional uniforme da organização: um robe e capuz brancos. Veja a manifestação abaixo:

Na sua segunda fase de existência, a Klan adotaria a prática de queimar gigantescas cruzes de madeira, como uma tentativa de intimidar opositores e alvos da organização, além de marcar sua presença simbólica em determinados locais. A prática, que não estava presente na Klan original, foi adotada a partir de sua presença no filme de D. W. Griffith. Investigações conduzidas contra a Klan, a partir da segunda metade da década de 1920, fizeram com que a mesma declinasse em número de filiados, entrando novamente em ocaso. 

ku klux klan
Charge da revista Harper’s Weekly, de 1874, criticando a White League e a Ku Klux Klan. | Foto: Reprodução.

Um terceiro ressurgimento da organização, entretanto, ocorreria a partir da década de 1950, quando o governo federal norte-americano começou a dar passos consistentes na tentativa de derrubar leis de segregação racial nos estados do Sul dos EUA. A reação de membros das classes médias brancas locais, faria com que novos grupos locais surgissem. Estes adotariam o nome “Ku Klux Klan”, bem como suas vestimentas, rituais e discurso racista e xenofóbico.

Entre as décadas de 1950 e 1960, a Klan seria responsável pelo assassinato de militantes de direitos civis, bem como por ataques à bomba contra organizações antirracistas e igrejas de maioria negra – caso do atentado contra a Igreja Batista da 16ª Rua, em Birmingham, no estado do Alabama, que matou quatro garotas. Desde então, a Klan vem operando a partir de células, com foco sobretudo em ações terroristas.

Apesar disso, David Duke, o líder da organização intitulada os “Cavaleiros da Ku Klux Klan”, tentou fazer com que a Klan integrasse o mainstream político do país. Duke chegou a atuar como deputado estadual do estado da Louisiana, entre 1989 e 1992. Mais recentemente, Duke declarou apoio público a figuras políticas como o ex-presidente norte-americano Donald Trump e o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

O Nascimento de uma Nação
Pôster do filme The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação), no qual é mostrado um membro da Ku Klux Klan em postura heroica. | Foto: Reprodução.

Década de 1930: Antissemitismo e Nazismo nos EUA

Na década de 1930, a Klan teve de disputar espaço com novas organizações e figuras associadas à extrema-direita. Após a crise de 1929, que desencadeou a Grande Depressão – uma gigantesca retração econômica, que redundaria em desemprego massivo no país – várias forças políticas começariam a defender a ascensão de regimes inspirados no fascismo italiano e no nazismo alemão. Em 1926, por exemplo o padre católico Charles Coughlin, responsável pela Paróquia Nacional da Pequena Flor, localizada em Detroit, no estado de Michigan, passaria a transmitir um programa de rádio semanal. Após começar a abordar tópicos políticos em 1929, Coughlin tornaria-se uma das personalidades mais bem-sucedidas do rádio nos EUA, chegando a ter em torno de 30 milhões de ouvintes na década de 1930. Sua popularidade vinha em parte de seus reclamos a favor da justiça social e da distribuição de renda, em um período marcado pela escalada crescente da pobreza no país.

Coughlin chegou a fundar, em 1934, a organização conhecida como União Nacional pela Justiça Social, a qual foi acompanhada pela criação do jornal “Social Justice” (Justiça Social), em 1936. Porém, Coughlin, muitas vezes, mesclava suas demandas a favor da distribuição de renda com uma violenta retórica anticomunista e antissemítica, culpando a população judaica do país por grande parte das mazelas que recaíram sobre os EUA durante a Grande Depressão. Coughlin ainda elogiava o general Francisco Franco, que entre 1936-1939 liderou a facção ultraconservadora durante a Guerra Civil Espanhola, contando com o apoio de Hitler e Mussolini.

Coughlin ainda declarou apoio direto a políticas de Hiltler e Mussolini, usando seu jornal “Social Justice” para publicar teorias da conspiração, como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, um documento forjado no início do século XX, no qual era denunciada uma conspiração judaica de dominação mundial. Em 1939, pouco depois da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano conseguiu obter o cancelamento do programa radiofônico de Coughlin, bem como a proibição de distribuição do jornal “Social Justice”. 

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Padre Charles Coughlin. | Foto: Reprodução.

Juntamente com as emissões radiofônicas de Coughlin, simpatizantes do nazismo nos EUA podiam contar com uma outra plataforma política para a expressão de sua ideologia: a Associação Germano-Americana (“German American Bund”), fundada em 1936 e liderada pelo imigrante alemão Fritz Kuhn. A Associação era voltada exclusivamente para americanos de descendência alemã, advogando as ideias de Adolf Hitler no país. Porém, ainda que a Associação fosse mais restrita do que outros grupos de extrema-direita, ela conseguiu reunir 20.000 apoiadores no Madison Square Garden, de Nova Iorque, em um comício intitulado “Comício em favor do Americanismo”, no qual Kuhn, envolto em suásticas e bandeiras dos EUA, fez um discurso antissemítico e racista para os seguidores da organização.

O comício, que marcou a história da década de 1930, tendo sido instrumental para demonstrar a força da extrema-direita no país e consolidar a resistência contra o fascismo, foi tema do documentário curta-metragem A Night at the Garden (Uma noite no Garden), dirigido por Marshall Curry, e indicado ao Oscar em 2017. Após os EUA entrarem na Segunda Guerra Mundial, em decorrência do ataque aéreo à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, o país começou a reprimir duramente as organizações nazistas. Kuhn, que já estava preso desde 1939, após ser considerado culpado de evasão fiscal e desfalque, teve a sua cidadania norte-americana revogada, em 1943. 

Comício Nazista eua
Comício Nazista da Associação Germano-Americana no Madison Square Garden, 1939

Nesse período, os simpatizantes do nazismo nos EUA também tendiam a apoiar o grupo conhecido como Comitê “America First” (América Primeiro), liderado pelo aviador Charles Lindbergh, considerado um herói nacional por ter sido o primeiro piloto a atravessar o Atlântico em um avião, ainda na década de 1920. O Comitê defendia a total neutralidade norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, e em um discurso proferido em setembro de 1941, Lindbergh chegou a dizer que os judeus seriam os responsáveis por tentar fazer os EUA entrarem na guerra contra o nazifascismo.

A carreira política de Lindbergh – que chegara a ser visto por alguns membros do Partido Republicano como um potencial candidato à presidência do país – entrou em declínio após o discurso, tanto por conta da ferrenha condenação do mesmo, emitida por várias forças políticas, quanto pelo ataque japonês a Pear Harbor, em 7 de dezembro de 1941, e a subsequente declaração de guerra ao país feita pela Alemanha, poucos dias depois, a qual obrigou os EUA a entrarem na Segunda Guerra Mundial. Em 2020, a HBO lançou a minissérie indicada ao Emmy, Complô contra a América, uma adaptação do livro homônimo escrito por Philip Roth. Na trama, em uma realidade alternativa, Charles Lindbergh ganha as eleições para a presidência do país e, passo a passo, começa a aproximar os EUA da Alemanha nazista, implementando políticas antissemitas. 

Guerra Fria: Anticomunismo, Neonazismo e Teorias da Conspiração

Após a Segunda Guerra Mundial, a extrema-direita norte-americana iria expressar-se, sobretudo, por meio de organizações radicais anticomunistas, caso da John Birch Society, a qual se tornou conhecida por divulgar teorias da conspiração em que dizia que agentes comunistas estariam no controle do movimento a favor dos direitos civis. O nome da organização era uma homenagem a um agente da OSS (precursora da CIA), que veio a ser morto por combatentes comunistas na China em 1945, poucos dias após o fim da Segunda Guerra Mundial, e que o fundador do grupo, Robert W. Welch Jr., considerava ser a primeira vítima americana da Guerra Fria. O grupo ainda se tornaria infame, na década de 1950, depois que o fundador Robert Welch, sugeriu que o então presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, ex-general comandante das tropas aliadas na Europa, durante a Segunda Guerra, e membro do Partido Republicano, seria um cúmplice ou agente comunista.

Por mais que a John Birch Society se encontrasse dentro do espectro da extrema-direita, movimentos ainda mais radicais passariam a surgir até fins da década de 1950, em parte alimentados pela paranoia anticomunista que definiu aqueles anos, e exemplificada pelo período da chamada “caça às bruxas” (quando o Congresso começou a perseguir esquerdistas em diversas esferas da política e da sociedade norte-americana). Esse processo de crescimento do extremismo de direita redundaria, em 1959, na fundação do Partido Nazista Americano, criado pelo ex-oficial naval George Lincoln Rockwell.

O Partido Nazista Americano, a primeira organização oficial neonazista do país viria a receber atenção pública ao realizar manifestações nas quais seus membros exibiam uniformes nazistas e braçadeiras com suásticas. Rockwell também passaria a ter crescente presença midiática no curso da década de 1960 – tendo chegado a conceder uma entrevista para a revista Playboy, em 1965 – por realizar discursos inflamatórios defendendo posições racistas e antissemíticas. Rockwell veio a ser morto por um ex-membro do Partido Nazista, em 1967, o qual havia sido expulsado da organização.

George Lincoln Rockwell
George Lincoln Rockwell (ao centro), fundador do Partido Nazista Americano. | Foto: Reprodução.

Ainda que o Partido Nazista Americano de Rockwell não tenha ganhado um número de adeptos semelhante ao da Ku Klux Klan, o mesmo teria exercido forte influência sobre a extrema-direita e os movimentos de supremacia branca no país, através das ações de um de seus membros, William Luther Pierce. Tendo sido membro do Partido e um associado de seu fundador, Pierce deixaria a organização após o assassinato de Rockwell, vindo a constituir seu próprio movimento: a Aliança Nacional, na qual defendia a derrubada do governo norte-americano e a implementação, em seu lugar, de um regime político que defendesse a supremacia branca.

Em 1978, Pierce escreveria o livro The Turner Diaries, no qual descrevia uma guerra racial nos Estados Unidos, em um futuro distante, com militantes neonazistas – retratados de forma heroica – executando pessoas negras, judeus, homossexuais e casais inter-raciais. O livro viria a inspirar o surgimento de um grupo de guerrilha neonazista, chamado de “Silent Brotherhood” (a Irmandade Silenciosa) ou “A Ordem”, responsável por executar assaltos a banco na década de 1980.

A descrição no livro de uma tomada de poder por neonazistas a partir de uma série de ataques terroristas contra o governo norte-americano, iniciados com um ataque à bomba contra um prédio do FBI, viria a inspirar o veterano da Guerra do Golfo, Timothy McVeigh, que em 1995 explodiu um carro-bomba em frente ao prédio do governo federal norte-americano em Oklahoma City, que causaria a morte de 168 pessoas. As ações de McVeigh chamariam a atenção para um novo fenômeno da extrema-direita norte-americana: as milícias.

O fenômeno das milícias: década de 1990

história da extrema-direita
Atentado à bomba contra o prédio do governo federal dos EUA, Oklahoma City, 1995. | Foto: Reprodução.

Muito diferentes dos grupos de crime organizado de mesmo nome atuantes no Brasil, as milícias norte-americanas, também são identificadas como o “militia movement”. As milícias norte-americanas são similares a clubes de tiro, os quais reúnem portadores de armas de fogo, muitos dos quais realizam treinos de sobrevivência e exercícios militares. Esses grupos advogam ideias de teor libertário, sendo contrários àquilo que eles veem como o aumento exacerbado de poderes do governo central norte-americano.

As milícias, em geral, propagam teorias da conspiração que giram em torno de um suposto desejo do governo federal norte-americano de retirar as armas dos cidadãos privados do país e instituir uma espécie de regime opressivo. O aumento das milícias ocorreu, sobretudo, após confrontos policiais na localidade de Ruby Ridge, na cidade de Naples, localizada no estado de Iowa, e em Waco, no Texas. Em 1992, após se recusar a comparecer perante o tribunal, onde estava sendo julgado por acusações referentes ao uso de armas de fogo, o ex-engenheiro do exército e separatista branco, Randy Weaver, teve sua casa cercada por delegados federais, e agentes do FBI e do Departamento de Repressão ao Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (ATF), em Ruby Ridge (Iowa), levando a um cerco que durou 11 dias. A operação redundaria na morte da esposa de Weaver, Vicki, de seu filho Sammy, de 14 anos, e do delegado federal William Degan.

Poucos meses após os eventos de Ruby Ridge, na cidade de Waco, no Texas, um complexo de moradias mantido pelo grupo religioso, denominado Ramo Davidiano (Davidian Branch), viria a ser palco de mais um confronto, dessa vez, envolvendo os membros da organização religiosa e agentes do FBI e da ATF, que visavam cumprir um mandato de busca no local, onde se encontrava um arsenal de armas. Após uma tentativa de invasão fracassada, em que morreram quatro agentes e seis seguidores do grupo, liderado por David Koresh, iniciou-se mais um cerco policial que, dessa vez, durou 51 dias, e envolveu tropas da Guarda Nacional norte-americana. Em 19 de abril, uma nova tentativa de invasão por parte das forças de segurança acabou resultando no incêndio acidental do complexo, no qual morreram 76 pessoas. Entre as vítimas, havia 20 crianças e duas mulheres grávidas, além de David Koresh.

incêndio
Incêndio no complexo do Ramo Davidiano, Waco, Texas, 1993. | Foto: Reprodução.

Para muitas milícias nos EUA, Waco e Ruby Ridge pareciam comprovar as teorias conspiratórias de que o governo do país pretendia declarar uma espécie de ditadura, e estes grupos vieram a experimentar um considerável crescimento nos anos seguintes. Timothy McVeigh, o autor do atentado de Oklahoma City, em 1995, visitou Waco durante o cerco, e afirmava ter sido aquele evento o catalisador de sua decisão de realizar um ataque terrorista contra o governo federal do país. McVeigh contou com a ajuda do ex-militar Terry Nichols. Tanto Nichols quanto McVeigh participaram das reuniões iniciais que levariam à fundação da “Michigan Militia”, que na década de 1990 chegou a ter 10.000 membros, sendo, então, uma das maiores milícias dos EUA. Atualmente, porém, novas milícias vêm ganhando poder e influência junto à extrema-direita norte-americana.

O momento atual e a extrema-direita

Com a forte presença de uma retórica anti-imigratória, a Era Trump viu grupos de ódio defensores da supremacia branca crescerem em 55%, de acordo com o Souther Poverty Law Center (SPLC), organização jurídica sem fins lucrativos especializada em questões de direitos civis, e que realiza relatórios periódicos sobre a atuação de grupos de extrema-direita e racistas nos EUA. Em 2018, o SPLC chegou a apontar que o número de grupos de ódio nos EUA era o maior em duas décadas. Tal pôde ser atestado em 2017, quando grupos de extrema-direita e neonazistas convergiram para a cidade de Charlotsville, na Virgínia, protestar em favor da permanência de uma estátua em homenagem ao general confederado Robert E. Lee, em um comício que foi chamado de “Unite the Right” (Una a Direita). Na ocasião, um neonazista atirou seu carro contra manifestantes contrários à demonstração de extrema-direita, matando Heather Heyer, de 32 anos. O crescimento dos movimentos de extrema-direita e de supremacia branca também foi demonstrado por meio da disseminação de milícias como os “3 Percenters”, os “Oathkeepers”, os “Proud Boys” e os “Boogaloo Bois”.

Os Proud Boys (Garotos Orgulhosos) são um grupo de extrema-direita criado em 2016 pelo jornalista Gavin McInnes, um dos fundadores do grupo de mídia Vice. Originalmente, os Proud Boys apresentavam-se como um “clube masculino”, descrevendo a si próprios como “chauvinistas ocidentais” (FRENKEL & FEUER, 2021). A organização começou a atrair indivíduos que expressavam opiniões anti-islâmicas e antissemíticas. Os Proud Boys ganharam notoriedade durante governo Trump ao se envolverem em brigas de rua durante manifestações de movimentos de esquerda, e sobretudo durante e após as eleições presidenciais de 2020. Parte de sua marca envolvia utilizarem como uniforme camisas polo com traços amarelos na gola, em uma tentativa de transmitir uma imagem de normalidade, associada à classe média (vale frisar que, na década de 70, na Inglaterra, alguns skinheads também usavam camisas polo com o mesmo intuito).

Em um dos debates televisionados entre Trump e Joe Biden, o então presidente dos EUA recusou-se a denunciar os Proud Boys, preferindo emitir uma espécie de ordem aos seus integrantes, pedindo-lhes que “se afastassem e aguardassem” (“stand back and stand by”). Depois que a derrota de Trump foi anunciada, a organização passou a defender suas tentativas de alterar o resultado das urnas, ecoando teorias da conspiração que defendiam ter havido uma grande fraude eleitoral a favor dos democratas. Assim, pareciam engajados nas tentativas de Trump de reverter a decisão das urnas. Alguns dos integrantes do grupo vieram a ser presos após a invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021.

Proud Boys
Proud Boys reunidos, com camisas polo. | Foto: Reprodução.

Para além dos Proud Boys, a invasão do Congresso teve como participantes organizações de milícia nascidas em anos recentes. Entre elas, pode-se mencionar o movimento Boogaloo, conhecido por seus membros (chamados “Boogaloo Bois” – com “i”) realizarem demonstrações, vestindo camisas havaianas, enquanto portam armas de fogo automáticas. Os membros do movimento Boogaloo acreditam que uma segunda Guerra Civil norte-americana estaria prestes a eclodir, e alguns de seus integrantes foram presos, em 2020, após planejarem o sequestro e assassinato da governadora democrata do estado de Michigan, Gretchen Whitmer, que, durante o ano passado, notabilizou-se por decretar o lockdown de seu estado e tornar-se alvo das críticas do ex-presidente Donald Trump.

O nome “Boogaloo” é uma referência ao filme cult dos anos 80, Breakin 2: Electric Boogaloo (1984). Na trama, um grupo de dançarinos de break luta contra a corrupção em sua cidade. O filme, que representa uma grande homenagem ao break dancing, conta com um elenco capitaneado por atores negros e latinos. A referência ao seu título por parte dos Boogaloo Bois se daria apenas pelo fato da película ser uma continuação: ao usar a expressão “Boogaloo”, os membros estariam, de maneira cifrada, referindo-se à tese da Segunda Guerra Civil norte-americana, por eles defendida. Já as camisas havaianas, remeteriam-se à expressão “Big Luau” (“Grande Luau”), um código que faria referência ao próprio nome da organização: “Gig Luau”, nesse sentido, seria outra forma de dizer “Boogaloo”.

Boogaloo Bois
Boogaloo Bois com camisas havaianas. | Foto: Reprodução.

Outros movimentos de milícia presentes na invasão ao Capitólio foram os “Oath Keepers” (“Os mantenedores do juramento”) e os “3 Percenters” (“Os 3%”, em tradução livre). Criado em 2009, o movimento Oath Keepers carrega paralelos e semelhanças com milícias mais tradicionais do país, advogando as mesmas teorias da conspiração e visão de mundo de teor antigovernamental. A diferença está em sua estratégia de recrutamento concentrar-se em ex-integrantes das forças armadas e das forças policiais.

O grupo começou a figurar na mídia em 2014, quando alguns de seus integrantes passaram a aparecer armados, com uma postura de intimidação, em manifestações contra o racismo e a violência policial. O nome da organização remete-se ao juramento à Constituição do país, que os membros das forças armadas têm de fazer ao ingressarem nas mesmas. Desde a invasão do Capitólio, o FBI prendeu integrantes do grupo, alguns dos quais forneciam segurança ao lobista Roger Stone, conhecido por ser um influente apoiador e estrategista de campanha de Donald Trump e que, após as eleições de 2020, ajudou a propagar a teoria da conspiração de que a eleição havia sido roubada pelos democratas.

Já o movimento Three Percenters, fundado em 2008, consiste em um milícia de caráter mais tradicional. Com uma ideologia de tendência libertária de extrema-direita e de inspiração libertária, o movimento cunhou seu nome a partir da crença equivocada de que apenas 3% da população das colônias inglesas teriam pego em armas durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, entre 1776-1763. 

Oath Keepers
Membros da milícia Oath Keepers, durante a invasão ao Capitólio, em 6 de Janeiro de 2021. | Foto: Reprodução.

Para além destes grupos, muitas das pessoas que invadiram o Congresso do país em 2006, declaravam defender a teoria da conspiração QAnon. Surgida em fóruns de Internet em 2016, a teoria da conspiração, que passou a ser definida como uma demonstração de terrorismo doméstico pelo FBI, em 2019. Segundo a teoria, que evoluiu para algo como uma narrativa ficcional acerca da história recente da política norte-americana, uma sociedade secreta de satanistas e pedófilos, que reuniria os nomes mais importantes da política (nominalmente, do Partido Democrata), da economia e do entretenimento estariam envolvidos no sequestro sistemático de crianças, as quais seriam abusadas sexualmente, sacrificadas em rituais e devoradas, em atos de canibalismo.

Segundo os defensores da teoria da conspiração (que se vê expressa em canais de YouTube e podcasts), Donald Trump lideraria um movimento de resistência contra essa seita satanista, o qual culminaria em um evento de teor apocalíptico chamado de “the Storm” (a tempestade), quando os políticos democratas seriam presos e executados. Durante a invasão do Congresso, em 6 de janeiro de 2006, muitos dos apoiadores da teoria da conspiração pareciam acreditar que aquele era o início da anunciada “Tempestade”. A teoria da conspiração QAnon assemelha-se, em sua estrutura, a teorias semelhantes propagadas por organizações de extrema-direita do país em outros momentos históricos, caso da John Birch Society (que acreditava na infiltração comunista do governo norte-americano), bem como do Padre Coughlin e da Associação Germano-Americana (os quais propagavam a teoria de uma conspiração judaica para conquistar o mundo).

QAnon extrema-direita
Apoiador da teoria da conspiração QAnon durante invasão do Congresso dos EUA, em 6 de janeiro de 2021. | Foto: Reprodução.

Desde a invasão do dia 6 de janeiro, e em especial após a posse de Joe Biden, o governo norte-americano vem dando passos no sentido de coibir movimentos de extrema-direita, como não se fazia durante o governo de Donald Trump. Em parte, esses esforços estão sendo capitaneados por alguns membros da administração, como o Secretário de Defesa Lloyd Austin, que se comprometeu a enfrentar o problema do crescimento da extrema-direita nas fileiras das forças armadas norte-americanas. Além de ser um ex-general de 4 estrelas, Austin é também o primeiro afro-americano a assumir o cargo.

Além dele, o Procurador Geral do país (cargo que nos EUA também equivale ao de Ministro da Justiça) Merrick Garland, nomeado por Biden, também declarou que o combate aos movimentos de supremacia branca seria uma prioridade do Departamento de Justiça do país. Descendente de imigrantes judeus, que fugiram da perseguição e do antissemitismo na Rússia, Garland também foi o promotor-chefe do caso do atentado à bomba em Oklahoma City, em 1995, no qual Timothy McVeigh foi condenado à pena de morte, e seu cúmplice, Terry Nichols, à prisão perpétua. Cabe observar, nos próximos anos, como o governo norte-americano passará a combater a extrema-direita e os movimento racistas, que tiveram um considerável crescimentos nos últimos anos.

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Por Alexandre Enrique Leitão – Fala! UFRJ 

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