Opinião: As consequências do pronunciamento de Bolsonaro aos brasileiros
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Opinião: As consequências do pronunciamento de Bolsonaro aos brasileiros

Opinião: As consequências do pronunciamento de Bolsonaro aos brasileiros

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Uma semana atrás, na noite de terça-feira, dia 24 de março, Jair Bolsonaro fez um pronunciamento sobre a atual situação do Brasil em relação à pandemia de Covid-19 no Brasil.

Em seu discurso, o presidente contrariou órgãos de saúde, chamou a doença de “gripezinha” e demonstrou ser contra o isolamento social. Tais afirmações geraram diversas reações de políticos e de outros órgãos públicos e irá gerar diversos impactos negativos na sociedade brasileira.

Primeiramente, deve-se entender melhor a atual situação brasileira frente ao vírus. Atualmente, o Brasil conta com 4256 casos confirmados da doença e 136 mortes (acompanhe a contagem em tempo real no aqui).

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Estudos comprovam que o vírus está avançando no país mais rapidamente do que na Itália, que está enfrentando um estado caótico, com pessoas morrendo e as famílias sem conseguir organizar velórios e acompanhar os enterros. Em um mês, a Itália possuía 1694 infectados, já o Brasil bateu a marca de 2.555.

A rápida propagação do vírus, somada ao sucateamento do sistema de saúde pública brasileiro, pode gerar resultados devastadores. Por isso, diversos governadores e o próprio Ministério da Saúde optaram por adotar o sistema de isolamento social.

Sem as medidas de isolamento, todos ficariam doentes ao mesmo tempo e teria um pico de contaminação. Em casos graves, as pessoas necessitam do uso de respiradores e do auxílio hospitalar para conseguirem sobreviver, pois o vírus ataca principalmente o sistema respiratório do hospedeiro.

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Então, todos iriam para os hospitais públicos ao mesmo tempo, devido ao pico, e não haverá leitos e aparelhos para todos, gerando uma outra grave crise na saúde pública brasileira.

Porém, caso as medidas sejam adotadas corretamente, a contaminação aconteceria em um espaço de tempo maior. O número de casos seriam os mesmos, mas teria um intervalo de tempo maior, e o sistema de saúde vigente teria capacidade para atender todos de maneira eficiente.

Esse cenário pode ser melhor explicado a partir desse gráfico, publicado no jornal El País:

casos de coronavírus
Gráfico para explicar a situação do coronavírus. | Foto: Reprodução/El País.

Bom, depois de dar um panorama geral do contexto brasileiro, podemos voltar ao pronunciamento de Jair Bolsonaro.

O presidente já começa seu discurso atacando os meios de comunicação e os jornalistas brasileiros. Não é a primeira vez que ataques como esse ocorrem, mas, dessa vez, a acusação foi de que eles seriam responsáveis por espalhar e potencializar o sentimento de histeria e pânico entre a população, o que estaria agravando o problema.

Além disso, ele afirma que o cenário italiano é completamente diferente do nosso, por isso o grande número de vítimas, e que não pode ser aplicado para comparação com a situação do Brasil, afirmação que já foi analisada acima como sendo falsa, visto que a doença está se propagando muito mais rapidamente no Brasil e que, potencialmente, haverá muito mais vítimas em território nacional do que no italiano.

Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro chefe o anúncio de um grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso. Um cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalhasse pelo nosso país. 

Pronunciamento de Jair Bolsonaro

Mas, é preciso discutir que, em um momento de um país completamente polarizado politicamente, com ataques frequentes ao jornalismo e com a propagação de fake news, um discurso como esse, no qual se estabelece o papel de propagador de pânico aos meios de informação, tais meios perdem sua credibilidade frente à uma parcela da população e cria-se um cenário para a disseminação de novas desinformações distribuídas em canais não oficiais.

Logo após, ele manifesta seu descontentamento com a política de quarentena aplicada pelos governadores e prefeitos. Sem nenhuma base científica e repleto de informações errôneas, Bolsonaro baseia seu discurso na ideia de que só é fatal em pessoas acima dos 60 anos, que desde que esses não sejam contaminados, o Brasil pode continuar funcionando normalmente, com todos os setores da economia em pleno funcionamento. Bom, já foi visto acima a importância do isolamento social, independente da faixa etária dos indivíduos, mas o impacto dessa fala é muito mais ampla.

No cenário de perda de credibilidade da mídia, somada à divergência dos discursos entre as figuras políticas, a fala do presidente da República tem um peso muito maior em influenciar a ação dos cidadãos frente à crise.

Portanto, após o pronunciamento, começaram a organizar diversas carreatas por todo país pedindo a volta do comércio e da normalidade nas capitais do país. Tais medidas restritivas estão sofrendo severa oposição de uma parte significativa da sociedade, que a enxerga como falsa e desnecessária.

Após o pronunciamento, diversos políticos manifestaram oposição ao discurso do presidente. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) afirmou que:

Neste momento grave, o País precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população. Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19. Posição que está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Tal discurso demonstra um afastamento de personagens e partidos que antes eram favoráveis ao governo e, agora, começam a montar uma oposição aos seus posicionamentos, gerando um enfraquecimento de Jair Bolsonaro na esfera política.

Relacionamento esse que já estava enfraquecido depois dele convocar os cidadãos para uma manifestação, já em períodos de quarentena, em ataque ao Congresso Nacional. Também começou a circular uma petição, montada pelos partidos de esquerda e aderida por centenas de celebridades, pedindo o impeachment do atual presidente.

Todos esses pontos, somados à distorção do cenário da pandemia feita pelo presidente, fazem com que uma parcela da população que não possui um capital cultural tão grande, aceite tal pronunciamento como verdade absoluta e passe a desacreditar nas informações dadas pelo Ministério da Saúde, pela Organização Mundial da Saúde e pelos governadores e prefeitos em rede nacional também, que possuem dados mais precisos sobre todo o processo e sobre como controlar a situação da maneira adequada.

É preciso entender a importância do discurso de uma figura de liderança durante os períodos de crise. É papel deles restaurar a ordem e a calma, além de fazer com que as medidas sejam tomadas adequadamente e de maneira homogênea por toda a população, evitando o caos e o pânico exagerado.

Mas, deve ser baseado também em fatos científicos, comprovados por profissionais especializados, e que entre de acordo com os discursos de outras lideranças nacionais e internacionais, para que ele possa ser realmente efetivo e trazer apenas impactos positivos para a população. Como foi visto, tal cenário não se repetiu no caso de Jair Bolsonaro, e as consequências negativas já podem ser vistas entre os cidadãos brasileiros.

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Por Anna Casiraghi – Fala! Cásper

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