Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos!
Quero me cadastrar!
Menu & Busca
VAGANTE – Um TCC Sobre o Transporte Público e a Vida Que Existe Dentro Dele

VAGANTE – Um TCC Sobre o Transporte Público e a Vida Que Existe Dentro Dele

A aluna de design, Julia Sipereck, produziu um daqueles Trabalhos de Conclusão de Curso que dão gosto de ver.

Com a proposta de retratar a rotina da população no transporte público, Vagante traz a visão de diferentes sentimentos dentro do metrô – e tudo isso por meio da lente de uma câmera fotográfica.

13112977_10206009983239781_8132132077696678690_o

Clique AQUI e acesse o link para conferir o TCC completo.

 

Para compreendermos melhor este trabalho, batemos um papo com a Julia, responsável por esta grande obra de arte. Confira:

FALA!: Oi Julia! Obrigado pela sua atenção. Quanto tempo demorou pra você finalizar este trabalho? E o que te levou a fazê-lo?

J.S: Olá galera, obrigada vocês pelo convite. Esse trabalho começou a ser idealizado em 2015 e levou por volta de 1 ano para ser desenvolvido. O despertar dele eu tive em 2014, quando eu trabalhava em um local bastante longe de onde eu moro, e levava cerca de 2 horas para ir e 2 horas para voltar no transporte público, totalizando 4 horas por dia. Por ser muito tempo, e tomar uma boa parte do meu dia, eu comecei a perceber que essa ida-volta me desgastava mais que o trabalho em si. Era um desgaste físico e mental, então comecei a me perguntar “o que tanto me incomoda nesse lugar?”. Foi atrás de respostas que Vagante nasceu.

f8612e40792315-57e9e9446f24dFALA!: Depois de fotografar tanto o metrô e as pessoas que transitam por ele, a sua visão sobre o transporte público mudou?

J.S: Com certeza! Inclusive, eu percebi como minha visão era superficial antes do projeto. Estamos inseridos naquele contexto anestesiado, não querendo prestar atenção em nada. A minha visão mudou no sentido de entender o motivo das pessoas serem rudes umas com as outras, a serem intolerantes ao toque, a indiferença que tratam as pessoas ao redor. Só depois eu consegui entender que o coletivo é imerso a isso, e aí fica claro quando não se tem o assento para o idoso, quando não há atos de gentileza, e finalmente se cria aquela atmosfera pesada, que posteriormente, entendi que era o que tanto me fazia mal.

b2fc4440792315-57e9e9446e291FALA!: Qual foi a parte mais difícil do processo?

J.S: Uma das partes mais difíceis foi fotografar a série “Insólito”, que trazia momentos inusitados em meio ao caos e a monotonia. Foi difícil, pois eles quase não acontecem em comparação as outras situações. Mesmo sabendo que eles existem, são poucos os momentos de afeto, encontro e amor dentro dos transportes. Eu costumava encontrar mais aos finais de semana, quando as pessoas estavam indo passear com a família. No começo isso me parecia um problema, mas ao final do projeto eu adotei a ideia dessa série ter menos fotos como uma crítica critica negativa, e de que devemos procurar equilibrar esses momentos bons e ruins.

51046a40792315-57e9e94469c3cFALA!: No seu TCC você menciona a pós-modernidade. Você se considera pós moderna? Você acha que a pós modernidade é ruim, boa, ou um pouco dos dois?

J.S: Eu me enxergava o tempo todo nesse projeto, me sentia fazendo uma crítica para fora, para a sociedade, mas muito ditava de mim também. Por estar nesse momento eu me considero parte dele, mas não apenas “estando”. Acredito que não há problema algum em possuir características do tal sujeito pós-moderno, desde que você as reconheça e as questione, e isso foi o que os pensadores me ensinaram. Muitos desses pensadores, inclusive, são criticados por parecerem pessimistas ao colocarem suas percepções, ou seja acham–a ruim, mas eu prefiro enxergar como Bauman, que diz que são tempos interessantes, um momento de transição, e que muitos fenômenos vem a aparecer – alguns bons, outros ruins, merecendo todos eles um olhar crítico e uma discussão que nos permita alguma reflexão.

FALA!: Você poderia contar um dia marcante de quando foi fotografar no metrô? Tipo um dia específico que mexeu muito com você.

J.S: Sim, houve um dia que tinha acabado de chegar na plataforma para fotografar e uma pessoa foi atingida pelo trem, não soube ao certo se foi um ato de suicídio ou um acidente. De qualquer forma, foi um momento muito atordoante em que o caos se formou, pois todos os trens param e as pessoas começaram a ter que esperar. Foi nesse momento que percebi como as pessoas lidam com a morte nesses locais públicos – haviam muitos rostos angustiados, mas principalmente curiosos, os celulares começaram a aparecer, e quando uma pessoa o pegava a outra já se sentia no direito de fotografar e filmar também. Esse dia me fez refletir até que ponto as pessoas consideram uma tragédia como forma de entretenimento.

71eb6040792315-57eb015ecc749FALA!: Você se deparou com cenas alegres, tristes, solitárias e também cheias de gente dentro do metrô. Como foi descobrir essas 4 atmosferas ?

J.S: Foi muito interessante distinguir essas 4 séries. A princípio esse projeto só falaria sobre individualismo, o sozinho, mas com o tempo percebi que essa característica é originada de vários outros pontos. Assim, eu comecei a adotar horários específicos para as saídas fotográficas, então ia às 4:40h da manhã, quando o metrô e os ônibus começam a circular. Haviam muitas pessoas sonolentas e locais vazios, esse contexto me fez compreender questões trazidas por Marc Auge, sobre não-lugares, em que ele fala que passamos por lugares que não criamos vínculo afetivo algum e muito menos sugerem que você fique nele. Também encontrei o outro extremo às 18:00h, no horário de pico – nele percebi a angústia das pessoas aos estarem muito juntas, criando um bloqueio ao toque físico.

FALA!: As pessoas te olhavam de um jeito estranho por estar fotografando no metrô, ou a maioria nem percebia?

J.S: No início sim, sentia muito as pessoas observando e inclusive tive alguns problemas com seguranças, que ao saberem que era um trabalho acadêmico tinham maior tolerância. Eu cheguei a bater um papo com algumas pessoas que ficavam curiosas e a conhecer algumas histórias, isso foi deixando esse processo mais fácil. Ao final descobri que não devia me preocupar tanto com os olhares, afinal, as pessoas esqueceriam logo depois. Um fato interessante nessa questão, foi que para tentar evitar olhares eu testei diversos tamanhos e modelos de câmeras, desde as de filmes, esporte, até as DSLRs (câmeras profissionais). As pequenas chamavam menos atenção e me ajudou a se adaptar no começo, mas depois acabei adotando as câmeras grandes pela estabilidade e a dar menos importância aos olhares curiosos.

FALA!: Para finalizar, você pode citar um aprendizado (de preferência o mais marcante), que você adquiriu depois de concluir este trabalho?

J.S: O que levo de aprendizado com Vagante, é dar valor a sensibilidade que sinto ao meu redor, a inquietação que tive naquele momento de fadiga e desânimo, que parecia coisa da minha cabeça. Este trabalho me fez descobrir um novo universo de conhecimento, compreendendo o motivo de um incômodo.

Aprendi que acomodação e conformismo são aspectos que quero sempre fugir na vida. E finalmente, um dos mais importantes, não subestimar a capacidade que temos de mudar o mundo, de fazer nossa parte e causar mudanças significantes. Finalizo com um trecho de uma entrevista do Bauman que traduz muito bem isso:

“A nossa imaginação vai longe, além da nossa habilidade de fazer e arruinar coisas. Na nossa história humana, tivemos um número relevante de mulheres e de homens corajosos, que, como borboletas, mudaram a história de maneira radical e positiva. De verdade. O único conselho que posso dar, então: olhemos para as borboletas, são de várias cores, felizmente são muito numerosas. Ajudemo-las a bater as suas asas.”


Obrigada!

 

Por: Marcelo Gasperin – Fala! Universidades

0 Comentários

Tags mais acessadas