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Um Ateliê Sob o Elevado. Conversamos Com o Morador de Rua Que Vive Embaixo da Praça Roosevelt.

“Estar em situação de rua não significa maldade” diz Giovani, cidadão em condição de rua, artesão e inquilino de uma pequena aresta sob o Elevado Presidente Costa e Silva.

Em meio ao ensurdecedor barulho de motores e buzinas dos carros, cerca de 15.905 moradores de rua encaram as dificuldades de uma realidade intangível. Giovani, com as roupas surradas e olhos cansados, confecciona utensílios decorativos domésticos, como cinzeiros feitos de latinhas de cerveja e portas-trecos elaborados com embalagens de refrigerante. Motivado a viver com a renda de seu esforço, ele nos conta sobre seus sacrifícios e seus objetivos.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA!: Bom, primeiramente, gostaria que você falasse um pouco sobre o seu trabalho. Você tem praticamente um ateliê embaixo do elevado!

G: Seria uma forma de sobreviver né, seria uma forma de sobreviver sem praticar nada errado, sem mexer com coisas ilícitas e se complicar. As pessoas vão me pedindo para fazer coisas e isso se torna um desafio. Para mim, a gratificação do trabalho vem quando surge um desafio, vem com o fato de eu fazer um trabalho e continuar mantendo-o. Aí surgem coisas novas que, aos poucos, vão rendendo. Tudo começa com uma peça simples e, agora, você vê, hoje eu faço réplicas de bateria com led. Enfim, tudo que eu tentei fazer até hoje eu fiz, e não vejo dificuldade em fazer. Cada um sente um grau de dificuldade em fazer esses trabalhos, mas eu não vejo nenhuma dificuldade, não acho nada impossível de se produzir. Acabam havendo coisas que não se dá pra finalizar, que não vão ficar iguais, mas eu tento aproximar a aparência o máximo possível.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA!: A gente consegue ver que seu trabalho é todo detalhado, recortado e montado perfeitamente.

G: Sim, muito! Sou muito perfeccionista.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA: E você vende bastante?

G: As vendas, no caso, seriam uma colaboração com meu trabalho, para que eu continue com ele. As pessoas que entendem e se interessam pela reciclagem e pelo meio ambiente em geral, pessoas que querem consertar as coisas para que não piorem, costumam incentivar. E é isso que vai me mantendo e rendendo; aos poucos vou promovendo novas ideias e novos artefatos. Vou melhorando.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA!: E com essas colaborações você consegue sobreviver?

G: Sim, consigo sobreviver e me virar. Há dias nos quais a dificuldade é grande, assim como na vida de pessoas que trabalham com a carteira registrada. A dificuldade sempre vem: tem dias piores, tem dias melhores, mas eu vou seguindo em frente, não paro por nada.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA!: Você parece ser uma pessoa muito bem equilibrada, com a cabeça no lugar.

G: Sim, graças a Deus. Faço meu trabalho e corro atrás do que preciso!

FALA!: Entendi. Será que, então, você poderia contar um pouco sobre como veio a se tornar uma pessoa em condição de rua?

G: (faz não com a cabeça) Dificuldade. Muita dificuldade.

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Foto: Marcelo Gasperin.

FALA!: Você tem família, Giovani?

G: Tenho. Moram há quase 300 quilômetros daqui.

FALA!: E eles sabem da sua condição de rua?

G: Bom, não sei, mas acredito que saibam. Pode ser que sim, pode ser que não, mas acredito que saibam. Essa é uma pergunta vaga, não tenho como saber porque não tive e nem tenho mais contato com eles.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

FALA!: E por que é que você não entra em contato com eles, ou busca auxílio?

G: Olha, porque eu também tenho uma vida. Independente da vida que eu levo, também tenho uma. Eu posso viver da forma que quero, desde que não faça mal a ninguém. Não vejo problema nenhum. Estar em situação de rua não significa maldade, não significa marginalidade. Assim como existem moradores de rua que que comentem delitos, também existem os políticos e todas as outras pessoas. Tudo tem seu lado bom e seu lado ruim, sempre será assim.

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Foto: Marcelo Gasperin.

 

Por: Mariana Grosche – Fala!M.A.C.K

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2 Coment.

  1. Simara Nuciteli

    Parabéns Mariana Grosche pela propicia entrevista com esse artista morador de rua… Que incentivo!

  2. Excelente matéria. Parabéns!

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