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Theresa May e o Brexit: Reino Unido em xeque

Theresa May e o Brexit: Reino Unido em xeque


Com a saída de Theresa May, mais uma importante peça do xadrez político britânico cai em meio ao próprio cerco.

No último dia 22, em breve pronunciamento em frente ao número 10 da Downing Street, em Londres – sede do governo britânico -,Theresa May renunciou ao cargo de Primeira-ministra após sucessivos insucessos ao conduzir as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia.

May disse ter feito tudo o que podia e após afirmar o orgulho de ter assumido o cargo, saiu emocionada após declarar o amor que sente por sua nação.

Foto: Toby Melville – Reuters.

Em meio às controvérsias e corrida contra a bomba-relógio implantada pela UE para que o país saia do bloco, May, mesmo tendo conseguido adiar o prazo proposto – inicialmente 29 de março – viu-se isolada e traída por não conseguir aprovar nenhum acordo amigável – ou qualquer acordo que a Grã-Bretanha pudesse ter – sequer pelos próprios aliados partidários.

Quem substituirá Theresa May?

O candidato favorito a sucedê-la é o atual ministro britânico do exterior e ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, que a partir desta quarta-feira 29 está sob a mira da Justiça após ser acusado de fazer “manobras políticas” e comprar influência para o referendo de 2016 – que encadeou ao atual e crítico impasse sobre a permanência do Reino Unido ou não no maior e mais importante bloco econômico mundial.

A denúncia foi apresentada pelos advogados de Marcus Ball, empresário inglês e Johnson terá que se explicar em julgamento ainda não marcado. O que torna ainda mais delicada a situação, visto que o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Junker já afirmou, após a renúncia de May, que não haverá renegociação à feita por ela anteriormente.

A origem do referendo proposto em 2016 se deu no governo conservador de David Cameron, até então primeiro ministro (2010-16), que havia se posicionado a favor da permanência da aliança e já alertado sobre o risco da saída do Reino Unido da União Europeia – questão que percorre as veias da coroa mesmo desde a sua adesão ao bloco (antiga Comunidade Econômica Europeia CEE, em 1973, sob liderança do primeiro-ministro Edward Heath).

O apoio, em contrapartida à sua candidatura no partido nacionalista, Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, em inglês), viabilizou sua reeleição. E após o resultado, devido a toda pressão exercida tanto pelos opositores partidários quanto pelos próprios conservadores e parcela populacional, Cameron acabou renunciando-se ao cargo.

É válido lembrar que a entrada do Império Britânico à Comunidade Europeia só ocorreu 16 anos após a formação do bloco, justamente devido aos receios de que, fazendo parte do bloco, o Estado inglês perdesse autonomia, poder e capital.

O UKIP então argumentou que a União Europeia retirava a soberania do Reino Unido em assuntos econômicos e imigração. Por isso, pressionou Cameron à realização da consulta sobre a permanência no bloco econômico.

O referendo, no entanto, foi uma das promessas de campanha do ex-primeiro-ministro nas eleições gerais de 2015, tendo liderado o processo por suas “negociações sólidas” na Europa, e foi o que o levou à vitória no parlamento, e também, sua renúncia.

Tratando-se das pressões popular e política, existem dois lados com características distintas que protagonizam esse embate, são eles: Remain e Leave; um que defende a permanência do Reino Unido na UE (progressistas), e o outro, sua saída (conservadores), respectivamente. Mas o que causa maior tensão entre os dois pontos de vista, contudo, é a falta de um posicionamento unânime.

Em algumas regiões do Reino Unido, houveram grandes parcelas que votaram a favor da manutenção dessa aliança com a União Europeia, como por exemplo, em Londres, capital da Inglaterra.

O grupo favorável à permanência, que de forma geral abrange uma população mais jovem, trazia questões como a livre circulação de pessoas e mercadorias, livre comércio, cooperação e padronização de questões tributárias e legislativas.

Já o grupo contrário, é formado por uma base nacionalista no parlamento, a parte conservadora. Correntes descontentes com as políticas econômicas neoliberais (geradas pelo livre comércio), concorrência de mão de obra estrangeira (mais barata), política migratória para restringir a entrada de imigrantes e também questões relacionadas à segurança militar e soberania do Reino Unido são seus principais argumentos.

A decorrência dos fatos vem com a posse de Theresa May como primeira-ministra, ainda em 2016. Mas sua política “passiva” de longe lhe proporcionaria ser chamada “Dama de Ferro” assim como Margaret Thatcher, a primeira mulher a ocupar o cargo máximo do governo.

May assumiu afirmando, em resposta aos pedidos de suspensão do resultado da consulta “Não haverá tentativas de permanecer na UE, não haverá tentativas de reintegrar-se pela porta dos fundos.”.

Seu governo travou uma batalha com membros do Parlamento pelo controle do processo de negociação do Brexit. Os parlamentares modificaram todas as direções do caminho traçado por May através de estratégias legislativas. Entre elas estavam a proposta de uma série de emendas ao projeto inicial e também novas medidas formuladas pelos parlamentares.          

Theresa, no entanto, teve o acordo de saída rejeitado três vezes pelo legislativo tendo mais sucesso ao negociar com os vizinhos continentais do que com os vizinhos de assento, e agora buscou até o último momento chegar a um acordo com o partido trabalhista, que faz parte da oposição. O governo buscava deixar a UE antes de 23 de maio, quando deveria participar das eleições do Parlamento Europeu.

Mas tal tema, altamente complexo por si, envolve diferentes nações em torno de um mesmo ideal; interesses geopolíticos e pessoas com todos os tipos de convicções são afetadas por quaisquer decisões do governo. Para Gillian East, massoterapeuta e hostmother, residente em Londres, o processo é bem mais complicado do que pode parecer.

Ela afirma que as pessoas simplesmente não o compreendem: “Eu pessoalmente não acho que foi dito a verdade, mesmo muitas pessoas não sabendo o que o Brexit quer dizer. As pessoas não formadas pensaram que teriam mais dinheiro, que teríamos saúde melhor e gratuita, o que era mentira.

É complicado”. Ao ser perguntada sobre quais perfis foram favoráveis à saída e se hoje prefeririam voltar atrás, ela disse: “Eu acredito que a maior parte das pessoas ficariam, mas é difícil dizer, como nem todo mundo é honesto. Temos os ricos e os pobres e a linha entre eles é distante, e os níveis de educação, extremos mesmo que mais e mais pessoas estejam estudando”.

Gillian disse ainda que estar por dentro de todos os acontecimentos a contraria e, portanto, ela prefere se abster de todos os detalhes. “Não estou certa do que um não acordo poderia causar. Sinceramente não estou por dentro disso, pois estou cansada e me deixa mal. Apenas rezo para tomarem a decisão certa”.

Sobre o poder que a família real tem, ela diz que a mesma pode advertir, debater e até interferir no processo, porém, é algo muito improvável. “Não acho que a família real possa mudar nada. Eles podem advertir e a rainha pode segurar, mas na verdade não acho que ela possa mudar nada e não acho que eles algum dia gostariam de tomar uma decisão majoritária”.

Você é favorável ou contrária ao Brexit?

“Sou contrária”. “O que precisamos é investir em nossas escolas e educação para ajudar os britânicos em nível de graduação para que possam fazer o que for preciso no trabalho. Dar mais oportunidades para aprender e crescer e sentir parte do Reino. Isso pode ser uma maneira de ajudar a mudar nosso Estado”.

“Aqueles que votaram para o Reino Unido continuar no bloco, sentem medo do acesso entre a Europa que é muito importante principalmente para os jovens. Nem todos querem morar na Inglaterra e gostariam de mudar para países mais ensolarados ou viajar a trabalho e isso pode ser afetado”.

Gillian ainda conclui: “A complexidade do assunto está além da minha capacidade e possibilidades de eu entender o que é melhor para meu país e sinto muito por May porque ela estava enfrentando as maiores dificuldades de todos os tempos, como você sabe, estamos em conflito com as mudanças climáticas.

O Reino Unido faz é responsável e o Brexit está sobrepondo outros problemas que afetam os britânicos. Nós estamos em uma crise e estamos todos preocupados com nossos países e isso não ajuda quando nosso governo continua a argumentar e ir contra o artigo 50” – que permite por livre arbítrio, um país decidir, de acordo com suas respectivas constituições, permanecer ou não no bloco.

A discordância entre opiniões sobre a saída do país do bloco se evidencia. O Reino Unido atualmente encontra-se em um grande conflito de ideologias e proposições, que afetam não só a Comunidade Europeia, mas todos as nações.

É uma problemática que, não resolvida, atinge os jovens e seus sonhos, as empresas e seus objetivos, e os próprios britânicos, que tomando como exemplo a nossa própria história, não sairão ilesos desse grande embate.

Consequências do Brexit para o Brasil e o mundo

O Brexit e/ou a saída de qualquer nação de um bloco econômico tão unificado quanto a UE, gera consequências no mínimo imprevisíveis e impactantes para o cenário mundial. No caso britânico em específico, as coisas possuem uma proporção singular e muito importante para as demais.

Os impactos atingem principalmente o comércio mundial e intensificam a polarização, a xenofobia, e outras tantas questões levantadas pelos partidos ultranacionalistas de direita quanto à globalização, que irracionalmente voltam a ganhar força em pleno século XXI.

No comércio, em especial, o principal impacto vem do fato do Reino Unido ter aproximadamente metade das suas exportações destinadas à União Europeia. Com sua saída, todos os acordos com os outros 27 países membros teriam de ser individualmente refeitos, e, também, com os 52 países que possuem acordos preferenciais de comércio diretamente com a UE, incluindo o Brasil.

Fato que virá a acontecer se o Reino Unido ficar de fora de importantes acordos estabelecidos anteriormente, como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio de Investimento com os Estados Unidos, ou como os Acordos de Parceria Econômica, que apoiam o desenvolvimento dos parceiros comerciais dos países da África, das Caraíbas e do Pacífico, sendo assim, obrigado a arcar com todos os prejuízos.

O Reino Unido, ainda, possui em Londres um eixo importante de acesso ao mercado europeu, fazendo com que as empresas (incluindo as brasileiras) optem preferencialmente por seu estabelecimento por lá. Com o Brexit tal apelo é perdido e uma das alternativas dadas pelos especialistas seria a migração dessas empresas para a Irlanda.

Outro agravante é o impasse a respeito da fronteira com a Irlanda do Norte que caso sejam implantados pontos de checagem e revistas em suas divisas, antigas tensões entre irlandeses e norte-irlandeses sanadas somente em 1998 com um acordo de paz, possa ser revivido.

Estimativas ainda dizem que a libra (moeda adotada pelo Reino Unido, em contrapartida aos outros que adotaram o euro) reduziria em até 20% do seu valor, pressionando a inflação e exigindo uma ação do banco central da Inglaterra.

Analistas também dizem que haveria uma conturbação no mercado financeiro porque os investidores realocariam seus recursos em ativos mais seguros, como nos EUA, por exemplo. Otto Nogami, do MBA da Insper, diz que como o país mais dá dinheiro para o bloco do que recebe, a pressão inflacionária cresce. Quase ninguém acredita que a saída do bloco não terá impacto em sua própria economia.

Já no Brasil, a separação traria consequências diretas aos acordos de livre comércio estabelecidos no Mercosul. O impacto teria um risco negativo, pois nenhum deles – entre Mercosul e Reino Unido – sobrepõe a incerteza sobre o projeto europeu, e no senso comum, esses cenários são inviáveis para os negócios e investimentos.

Uma vantagem seria o ganho de poder de barganha com o Reino Unido, mas em desvantagem, haveria competitividade deixando de ser uma negociação com o bloco, sem abertura às propostas.

O impeachment de Dilma Rousseff, portanto, não foi visto com bons olhos, tendo manchado consideravelmente boa parte dos acordos entre as duas nações. De acordo com o RU, seria preferível novas eleições diretas no Brasil, discordando assim, dos caminhos seguidos pelo governo brasileiro.

Tal fato não significa que os investimentos pararam de acontecer e que os investidores foram embora, mas que o país ficou razoavelmente “sem prestígio” e sem ocupar uma posição de relevância na estratégia do Reino Unido. O que existe no coração britânico é o ceticismo em relação à globalização e as fronteiras abertas, fator que poderá significar a falta de emprego e a miscigenação.

Raízes profundas do populismo existente atualmente na nação e no mundo, evidenciadas pelas últimas eleições brasileiras, estadunidenses e ao próprio referendo.

É muito provável que o Brasil passe por fortes turbulências visto que é o principal exportador de commodities ao RU e também à UE e, diante a possível (mas ainda incerta) concretização da separação entre os dois grandalhões europeus, as atuais mudanças ideológicas e políticas poderão deixar rastros por décadas posteriores.

Contudo, no dia 10 de abril, o parlamento europeu ainda concedeu novo prazo limite que “alivia” as tensões postas até então sobre May, e, agora, ao “sobrevivente” à corrida ao “trono” parlamentar. Esse foi o segundo prazo, dado dentro de um único mês, ao Reino Unido, para que este consiga estruturar e flexibilizar um novo acordo. O

limite estabelecido anteriormente era o dia 30 de junho. Suficiente ou não, é uma “brecha” para “acalmar os ânimos” britânicos. E o que resta é esperar o desenrolar dos fatos para saber qual o próximo piloto que irá conduzir o Jumbo europeu diante tamanha turbulência.

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Por Camilo Mota – Fala! PUC

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