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A responsabilidade da mídia e o tabu em falar sobre o suicídio

A responsabilidade da mídia e o tabu em falar sobre o suicídio

Por Fernanda Antônia e Victória Theonila – Fala!M.A.C.K

 

No ano de 2017, com o lançamento da série “Os 13 porquês” (13 Reasons Why) na Netflix, e também com a repercussão dos casos de “Baleia Azul”, iniciou-se um importante debate midiático sobre o tema do suicídio, que é considerado um tabu.

As maiores preocupações em relação ao tema são o “contágio” que a mídia pode causar e a desinformação sobre o tema, além do sensacionalismo irresponsável.

Por essas razões, muitas vezes os meios de comunicação preferem não falar sobre o assunto. No entanto, essa não seria a melhor opção, como registra o documento Prevenção do Suicídio: Manual à imprensa, divulgado pelo Ministério da Saúde no último dia 21.

Segundo Karen Scavacini, psicóloga mestre em Saúde Pública na área de Promoção de Saúde Mental e Prevenção ao Suicídio pelo Karolinska Institutet, na Suécia, a mídia pode ajudar muito ao trazer o debate sobre o tema e mostrar onde as pessoas podem achar ajuda.

“As coisas não mudam se não falamos sobre elas” – argumenta Karen.

Estatísticas relevantes

Em 2016, durante o mês de setembro – mês da Prevenção ao Suicídio, também conhecido como Setembro Amarelo – a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou que esse problema de saúde pública causa uma morte a cada 40 segundos. São 800 mil casos por ano em todo o mundo, e para cada morte, há 26 tentativas.

Durante o Setembro Amarelo de 2017, o Ministério da Saúde divulgou a Agenda Estratégica de Prevenção ao Suicídio. Nela, se encontra o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil (Clique AQUI e acesse), que expõe que o suicídio é a quarta maior causa de mortes de brasileiros entre jovens de 15 a 29 anos.

Entendendo o tabu: O Efeito ‘Werther’

Durante o século XVIII, na Alemanha, Johann Wolfgand Goethe publicou o livro Os sofrimentos do jovem Werther, em que o personagem principal, Werther, tira a própria vida após uma frustração amorosa.

A publicação da obra precedeu uma onda de casos de suicídio no país. Muitas vítimas se vestiam da mesma forma que o personagem ou até portavam o livro durante o ato. Desde então, a psicanálise questiona até que ponto a repercussão do tema é positiva por meio do chamado Efeito Werther. Esse efeito trata-se do contágio que acredita-se que a mídia pode gerar ao pecar na cautela em suas falas sobre o assunto.

Exemplar do livro Os sofrimentos do jovem Werther, publicado em 1774.

O papel da mídia

Tiago Souza, professor de Marketing, afirma que nos dias de hoje a questão já não é se deve ou não discutir sobre o tema, mas como isso será feito.

Em maio de 2017, o profissional organizou o seminário “Comunicação e suicídio: 13 reasons why not”, na Universidade Belas Artes. Ele debateu sobre como uma mídia responsável pode ajudar a conscientizar sobre o assunto. Um dos tópicos expostos foi as campanhas publicitárias que, em diversos países, mobilizaram sobre a causa e de fato ajudaram quem sofre com o comportamento suicida.

Um exemplo aconteceu em 2013, na Coréia do Sul. A marca Samsung foi responsável pela campanha Ponte da Vida na ponte Mapo, localizada na capital Seul. Essa ponte era marcada pela frequência de casos que ali ocorriam, mas após a publicidade, a taxa diminuiu em 85%.

A proposta da marca, em conjunto com psicólogos e ativistas da prevenção ao suicídio, foi criar mensagens positivas como: “os melhores momentos da sua vida ainda estão por vir”, ou “como você gostaria de ser lembrado?”, fazendo com que as pessoas refletissem sobre o que estariam prestes a fazer.

 

Confira o vídeo oficial da campanha:

A série Os 13 porquês

A série lançada em 31 de março, pela Netflix, conta a história de Hannah Baker e os motivos que levaram a adolescente a tirar a própria vida. Após a exibição da série “Os 13 porquês”, aumentou em 445% o número de e-mails buscando por ajuda, destinados ao Centro de Valorização à Vida (CVV).

Souza interpreta esse dado explicando que mais pessoas sentiram-se estimuladas a procurar ajuda após consumirem o conteúdo midiático.

No entanto, Karen Scavacini, que também foi revisora do texto “Prevenção do suicídio, uma necessidade global”, da OMS, explica que é necessário cuidado e seguir as orientações da organização.

Uma de suas críticas à produção da Netflix é a romantização da personagem, ao deixar subentendido que ela não tinha outra saída.

“Para as pessoas na fase da ambivalência, quando estão na dúvida entre cometer ou não o suicídio, esta [a romantização] pode ser o desencadeador do ato”, afirma Karen.

Hannah Baker – personagem principal da trama “Os 13 porquês”.

Além disso, a psicóloga salienta que foi irresponsável mostrar o ato da maneira que ocorreu, pois uma das recomendações da OMS é justamente não expor o método utilizado. Ainda de acordo com a profissional, faltou mostrar quais alternativas a personagem tinha para cada situação que ela passou, o que poderia ter sido feito no fim de cada episódio.

Entretanto, a demanda da mídia pelas ficções romantizadas é um valor a se considerar. Como reforça Souza, se não romantizar, não há a venda do programa e, consequentemente, não há a ampliação do debate sobre o tema.

Apesar dos erros pontuados, a psicóloga sustenta que a intenção da série foi boa, já que conseguiu implantar a reflexão na sociedade sobre a importância de debater o assunto.

A grande maioria dos jovens viram a série, porém, acharam poucos locais para conversar abertamente sobre o assunto”, acrescenta Scavacini.

 

O crime Baleia Azul

No jornalismo, o foco desse debate ocorreu por causa do “jogo” Baleia Azul. Iniciado na Rússia, o “jogo” envolve uma série de etapas de torturas psicológicas e ameaças instruídas por “mentores”, sendo a última o suicídio.

De acordo com a psicóloga, o primeiro erro a ser considerado nas notícias foi a utilização do termo “jogo”.

“O que aconteceu foi crime”, reforça Karen.

Conforme as notícias sobre o crime repercutiam, mais casos aconteciam. Durante o mês de abril, auge da repercussão do caso, o Google Trends registrou um crescimento de 0 a 100 na popularidade do termo “Baleia Azul”, em pesquisas realizadas no Google, o que sugere a curiosidade perante o chamado “jogo” e o contágio da ideia.

Ainda assim, Scavacini entende que a divulgação era necessária:

“Não podemos nos esconder na questão do ‘Efeito Werther’ para não falarmos abertamente sobre o assunto”.

 

Sensacionalismo e desinformação

Além da série e do crime mencionado, em 2017 o tema suicídio foi substanciado pelos casos ocorridos entre as celebridades Chris Cornell, que era vocalista da banda Soundgarden, e Chester Bennington, do Linkin Park.

De acordo com o documento Prevenção ao suicídio: Manual à Imprensa, é mais responsável não repetir as notícias sobre pessoas influentes mortas por suicídio para evitar o efeito contágio. No entanto, o observado na mídia foi o contrário.

Outro erro apontado pelo manual é a “justificativa” que as notícias tendem a dar para o ato. Relacionar eventos específicos, como a perda de um emprego, divórcio ou notas baixas na escola/faculdade ao suicídio, é ignorar a complexidade da questão e fazer uma abordagem simplista das causas que podem levar alguém a tirar a própria vida.

Além disso, não notificar sinais de alerta ou que houve tentativas anteriores da vítima, é negligenciar o fato de que as pessoas pedem ajuda – ou seja – isso reforça o mito social de que aqueles que têm a intenção de tirar a própria vida, não avisam e não falam sobre isso.

De acordo com o material, profissionais da imprensa não devem divulgar fotos, métodos, cartas e bilhetes suicidas e nem o lugar em que o ato ocorreu. Também não se deve dar destaque em capas e primeiras páginas, nem mesmo usar a palavra “suicídio” no título da matéria. Informar telefones e lugares para procurar ajuda, atentar para a discrição, consultar especialistas em prevenção e respeitar o luto são algumas das atitudes que os jornalistas, dentre outros profissionais de comunicação, devem ter.

Souza afirma que a mídia é capaz de trazer a tona um debate que as pessoas têm medo de debater, e isso estimula os grupos de risco a procurarem ajuda. Segundo o profissional de comunicação, “saber que a chuva não cai só sobre você te ajuda a continuar”.

O Centro de Valorização a Vida (CVV – www.cvv.org.br) disponibiliza contato pelo número 141 por vinte quatro horas. Também é possível o contato por Skype, chat ou e-mail. Os contatos se encontram no próprio site.

O projeto Vita Alere (www.vitaalere.com.br) oferece apoio às vítimas e aos enlutados do suicídio. Para emergências, ligue SAMU 192.

 

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