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Resenha: O Som ao Redor

Resenha: O Som ao Redor


Por Layon Lazaro – Fala!USP

O melhor filme nacional que você não viu.

Som ao Redor é uma análise perturbadora sobre o coronelismo, ainda em vigor, no Recife e no Brasil inteiro. É um pertinente retrato da classe média assustada com o que a cerca. É uma escalada de insegurança e fobia. Lançado em agosto de 2012, o filme fez bilheteria modesta no País, mas colecionou prêmios e elogios ao redor do mundo. Para quem não viu, vale ver pela primeira vez essa obra prima da entusiasmante cena audiovisual nordestina. Para quem viu O Som ao Redor é um filme sutil, muito sutil, e inteligente – o melhor filme sobre o Brasil desde muito tempo.

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O filme se passa em um quarteirão de um bairro de classe média em Recife, mas poderia ser muito bem em qualquer outra capital do Brasil. A especulação imobiliária, a verticalização massiva e fatigada e a violência urbana – questões essenciais à compreensão de nosso tempo – não deixam de ser tratadas: enormes prédios com piscinas, reuniões de condomínio, celulares com câmera, guaritas na ruas, vendedores ambulantes, diaristas, todos os componentes de uma típica cidade grande, barulhenta e paranóica.

A narrativa se compõe com pequenos retratos dos moradores da tal rua de classe média do Recife. Ali re­sidem um  antigo senhor de engenho, que trocou a fortuna rural pela urbana e tornou-se o dono da rua, segundo a especulação imobiliária; um  fi­lho que olha para o passado com nostalgia e vive o presente com medo; e dois netos – João,  corretor de imóveis e Dinho, um universitário que arromba carros por diversão, protegido pelo poder do avô. Reside, na mesma rua, uma família rica marcada pela mãe estressa­da e entediada, nervosa por não suportar os latidos de um cão de guarda, e por um pai ausente na vida dos filhos e da esposa.

A base da pirâmide social está presente no filme na figura das domésticas, dos ambulantes, do vendedor de água que trafica maconha para a dona-de-casa insatisfeita, e na chegada dos vigias à rua. A princípio,os seguranças aparentam estar ali para cumprir o serviço para qual foram contratados, mas aos poucos se revelam ser a ameaça maior a essa elite assustada, as vítimas do coronelismo enfrentando o senhor do engenho.

Com uma estética belíssima e cenas que impressionam pela inteligência e honestidade – a garota que sonha com a casa sendo invadida; a reunião de condomínio marcada pela “escrotice” e pelas revistas Veja que chegam fora do plástico; o garoto negro e descamisado que apanha e foge dos seguranças (seus colegas de classe social) antes mesmo de mostrar seu rosto – o filme brilha na fotografia, no roteiro, na direção e no som. Kléber Mendonça Filho fez de O Som ao Redor mais que um filme sobre o Brasil – um filme sobre os brasileiros.

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