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Resenha: A Forma da Água

Por Vanessa Nagayoshi  – Fala!Cásper 

 

Uma estória sobre um príncipe, um monstro e uma princesa sem voz. É dessa forma que o narrador descreve o romance entre Elisa (Sally Hawkins) e o homem anfíbio (Doug Jones). Como de praxe, o diretor mexicano Guillermo del Toro adota um estilo conto de fada que, logo no início do filme, se expressa através da presença de um narrador. O prelúdio se assimila à abertura de um livro.

Incapaz de se comunicar por meio da fala, Elisa se expressa através de libras e olhares – que, por sinal, Hawkins faz de forma impecável. Seus dois únicos amigos são seu vizinho e pintor Giles (Richard Jenkins) e Zelda (Octavia Spencer), com quem trabalha junto. Ela é zeladora de um laboratório experimental secreto do governo americano que passa a manter em cativeiro um homem anfíbio.

Elisa se apaixona pela criatura que, assim como ela, não consegue se comunicar, e ambos acabam estabelecendo uma relação linguística, afetiva e até sexual. Porém, como em todos os contos de fadas, existe um vilão. O Coronel Richard Strickland, interpretado pelo ator Michael Shannon, um homem fascista e chefe de segurança do laboratório, é o grande obstáculo para que Elisa consiga salvar o amor de sua vida.

Guillermo del Toro, conhecido pelos seus filmes de fantasia, já foi indicado ao oscar pelo famoso O Labirinto do Fauno (2006) e agora com A Forma da Água concorrerá a 13 indicações: Melhor filme, direção, atriz (Sally Hawkins), roteiro original, atriz coadjuvante (Octavia Spencer), ator coadjuvante (Richard Jenkins), direção de arte, fotografia, figurino, edição de som, mixagem de som, trilha sonora e edição.

Embora fantasioso, A Forma da Água não é um filme que deve ser visto de forma superficial, uma vez que, por ser uma fábula, transborda metáforas que se adequam a realidade. A começar pelo contexto histórico em que a trama está inserida. Sobre as tensões da Guerra Fria, na década de 60, os Estados Unidos e a União Soviética disputavam pelo domínio bélico e espacial. Em meio a esse cenário, o machismo, a homofobia, o racismo e a xenofobia são fortemente retratados no filme.

A nostalgia é bastante presente no longa-metragem. A trilha sonora, os programas de televisão que Elisa e Giles assistem, o cenário e o figurino em tons esverdeados são explorados em demasia com caráter pictórico. Alguns podem se incomodar com o maniqueísmo das personagens, os quais visivelmente se enquadram nos padrões de vilão, mocinha e herói.

As referências são perceptíveis, desde a direção artística até o enredo. A paleta de cores, o caráter singular de Elisa e a atenção aos detalhes lembram o Fabuloso Destino de Amélie Poulain; e a história claramente à Bela e a Fera. Mas a originalidade e a marca registrada de Guillermo del Toro permanecem na harmonia entre o poético e o grosseiro, entre o belo e o feio, como o diretor trabalhou em O Labirinto do Fauno. O fato de ser uma fábula cheio de encantos não faz com que a crueldade deixe de existir.

A Forma da Água não é um filme para crianças, é um filme adulto, cujas cenas de violência e sexo são mostradas sem hesitação. É preciso a todo momento estar atento para compreender o âmago da história. As metáforas percorrem desde as questões sociais até a subjetividade de cada personagem. O final é mágico, mas ao mesmo tempo intrigante, o que provoca um grande debate entre os espectadores e deixa uma mensagem belíssima que só quem assiste com veemência é capaz de compreender.

 

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2 Coment.

  1. Luciana Sousa

    Adorei como fizeram a historia por que não tem nenhuma cena entediante. Michael Shannon fez um ótimo trabalho no filme. Eu vi que seu próximo projeto, Fahrenheit 451 será lançado em breve. Acho que será ótimo! Adoro ler livros, cada um é diferente na narrativa e nos personagens, é bom que cada vez mais diretores e atores se aventurem a realizar filmes baseados em livros. Acho que Fahrenheit 451 sera excelente! Se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa. Acabo de ver o trailer da adaptação do livro, na verdade parece muito boa, li o livro faz um tempo, mas acho que terei que ler novamente, para não perder nenhum detalhe. Vi os horários de transmissão em: https://br.hbomax.tv/movie/TTL711416/Fahrenheit-451 deixo o link por se alguém se interessar. Acho que é uma boa idéia fazer este tipo de adaptações cinematográficas.

  2. Karla Ramirez

    Adorei. Definitivamente vale muito à pena, é um dos melhores do seu gênero. Filmes de Doug Jone é uma das azoes pelas quais o filme teve resumos positivos. Mais que filme de terror, é filme de suspense, todo o tempo tem a sua atenção e você fica preso no sofá. Além, tem pontos extras por ser uma historia original. A fotografia é impecável, ao igual que a edição. Sem dúvida voltaria a ver este filme!

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