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Refugiados no Brasil

Refugiados no Brasil

Por Mariana Fonseca – Fala!MACK
Kokou nunca sofre preconceito no Brasil, pois acredita que o brasileiro é bom e humanizado – Foto por Celso Luix

 

Mones Lapaix tem 36 anos, nasceu em Tomassico no Haiti e há dois anos está no Brasil. “Eu passei lá na Argentina, saí da Argentina entrei na Foz do Iguaçu, de Foz do Iguaçu eu cheguei em Curitiba e eu fiquei três meses lá, depois eu cheguei aqui em São Paulo”, conta Lapaix sobre suas andanças. Depois do desastre que aconteceu em seu país em 2010 e que, segundo o próprio haitiano, matou 300 mil pessoas em oito segundos, a situação ficou mais difícil e ser refugiado no Brasil se tornou melhor.

De início veio sozinho, em seguida sua mulher chegou ao país, mas seus quatro filhos ficaram no Haiti, quando fala sobre eles sua entonação, que até então era descontraída, muda. “Passagem pra voltar pra lá é muito dinheiro (sic), R$3.000,00, é caro. Sabe como é, só trabalhar, salário é R$1.000,00, tem que pagar casa, pra mandar dinheiro pra lá é um pouco difícil”, lamenta o haitiano a impossibilidade de trazer seus filhos e a pouca ajuda financeira que consegue enviar.

Lapaix mora em uma casa que abriga refugiados e paga uma contribuição de R$200,00 e tem trabalhado como jardineiro para a Prefeitura de São Paulo, apesar de ser marceneiro, profissão que não conseguiu exercer por aqui.

Lasilese gostaria que seus parentes que ficaram no Haiti pudessem vir para o Brasil – Foto por Celso Luix

Uma pesquisa da Missão Paz – iniciativa da Igreja Nossa Senhora da Paz, localizada no centro da cidade – revela que apenas 371 estrangeiros foram contratados na capital no ano passado, o que representa um quarto dos que estavam empregados em 2015.

Ela também veio do Haiti com seu marido. Com 38 anos, está há um pouco mais de um ano no país e, nesse intervalo, a família aumentou: no Brasil,  Lasilese Toussaint realizou seu grande sonho de ser mãe. “Eu gosto muito daqui, porque o meu primeiro filho nasceu e morreu lá (Haiti), eu perdi três quando tava grávida lá e quando eu vim pra cá nasceu o Samuel, prematuro, mas ele tá vivo. E por isso eu gosto muito daqui, muito, muito, muito”, conta com entusiasmo a mãe do bebê de 10 meses.

 

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Em seu país ela era cabeleireira, mas por cuidar do filho e não ter espaço e nem recursos para montar um salão, está desempregada. Não recebe ajuda financeira de ninguém: “eu vim aqui com meu dinheiro, pra pagar aluguel, não tem pessoa ajudando, não tem isso, só eu e meu marido. Não tem ajuda do governo”.

Segundo ela, o país não é necessariamente melhor que o Haiti, mas a segurança aqui é maior. Isso considerando que um ranking mundial da ONU realizado em 2016, que aponta que das 50 cidades mais violentas do mundo, 19 estão no Brasil.

Lasilese chegou sem saber falar nada em português, mas quando ainda estava grávida frequentou por um mês uma escola que ensinava o idioma. Hoje, apesar de algumas palavras em francês – sua língua materna – aparecerem durante suas conversas, já consegue se comunicar com mais desenvoltura.

A língua foi uma barreira também para Leonard Kokou, o jovem de 29 anos nasceu em Lomé, capital do Togo, e há um ano está em terras brasileiras. O africano faz aulas de português na ONG Educafro (organização que oferta cursos e bolsas de estudos para inclusão da população negra no ambiente educacional), além de aprender ouvindo as pessoas falando nas ruas e traduzindo as palavras pela internet.

É técnico de enfermagem, mas está refazendo o curso pela Cruz Vermelha, pois aprendeu as técnicas em francês e, portanto, não está capacitado para praticar a profissão no Brasil. Já trabalha no Hospital Sírio Libanês (considerado o melhor hospital do país em termos de custo-benefício), ainda que seja na área de limpeza, mas assim que concluir seus estudos terá uma oportunidade para exercer sua profissão. “Mas agora meu objetivo é avançar. Cheguei aqui no Brasil, estou fazendo meu curso, vou trabalhar aqui, vou voltar pra África, porque é meu continente”, fala Kokou sobre suas perspectivas.

Quando questionado se teve medo de vir sozinho para um país desconhecido afirma que não, porque “aqui é homem” e que o Brasil não era tão estranho assim, já que o mundo todo conhece por causa do futebol. Na viagem que demorou sete horas veio quase toda dormindo – exceto pelos momentos em que sentia frio por causa do ar condicionado do avião – e quando acordou estava no aeroporto de Guarulhos.

“Você pode me perguntar: ‘ por que não viaja para os Estados Unidos, pra França e vem pra cá? ’, porque gosto daqui, porque o Brasil é um país que traz paz, tem democracia, tem respeito humano, não tem problema de guerra, não tem racismo, bom, tem racismo, mas escondido”, revela o togolês, que também acredita que a África vive uma ditadura por causa da colonização francesa e de todos os interesses nas riquezas naturais.

A Lei Brasileira de Refúgio ( 9.474/1997) considera como um refugiado todo indivíduo que sai do seu país de origem devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas imputadas, ou devido a uma situação de grave e generalizada violação de direitos humanos no seu país de origem.

Foto por Celso Luix

“África é a África e a América é a América. Primeira diferença é a condição da vida, porque aqui da Angola é muito diferente. Branco, negro é muito diferente, lá não tem muito branco, porque tem pouco estrangeiro”, enxerga Patricio Loma, angolano de 24 anos, sobre as diferenças raciais entre os dois continentes.

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