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Palestra no Mackenzie Debate o Jornalismo em Situações de Conflito

Palestra no Mackenzie Debate o Jornalismo em Situações de Conflito

Na manhã de terça-feira (26), a Universidade Presbiteriana Mackenzie recebeu os jornalistas Diogo Schelp (editor executivo da revista Veja) e Patrícia Campos Mello (repórter especial do jornal Folha de S.Paulo), para que esses realizassem um debate com o tema “Jornalismo em situações de conflito”. O fotojornalista André Liohn também iria fazer parte do debate, mas não pôde comparecer por estar trabalhando em outro país. O evento abordou as mais diversas experiências vivenciadas pelos jornalistas correspondentes de guerra, e foi o jornalista Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil/UOL) quem realizou a mediação.

Diogo Schelp começou falando um pouco sobre o livro “ Correspondentes de Guerra”, que ele publicou em 2016, em parceria com o fotógrafo André Liohn. Ele disse que teve a ideia de publicá-lo em 2014, quando enviou o jornalista internacional da revista Veja, Duda Teixeira, para realizar uma reportagem sobre o avanço do Estado Islâmico no Iraque.

Schelp relatou que enquanto Teixeira estava lá, o jornalista americano James Foley foi decapitado e disse ter ficado preocupado com o fato de ter mandado um jornalista para um local onde jornalistas estavam sendo mortos. Com isso, ele se questionou se hoje a profissão do jornalista de guerra é mais perigosa do que no passado. Ao pesquisar sobre o assunto, a vontade de fazer um livro surgiu.

Embora Liohn não estivesse presente, Diogo falou um pouco sobre o fotojornalista e o motivo de tê-lo escolhido para escrever tal livro. Essa escolha se deu pelo fato de que o fotojornalista foi um dos que permaneceu por mais tempo em zonas de guerra e de forma contínua. Schelp explicou que, normalmente, os jornalistas ficam uns dez dias em locais de conflito, enquanto Liohn chegou a ficar meses, e até passou quase o ano inteiro de 2011 visitando essas regiões.

Além disso, Liohn chegou a ficar na linha de frente de muitos conflitos, o que, segundo Schelp, é um caso raro e evitado pela maioria. Assim, vídeos e relatos das experiências do fotógrafo foram exibidos na palestra, mostrando um pouco do trabalho de um correspondente de guerra.

Diogo finalizou ponderando sobre a dificuldade de se encontrar dados de mortes de jornalistas no passado, e disse que os jornalistas se arriscavam da mesma forma que os soldados nas guerras. Ele ressaltou que os jornalistas não tinham o acesso à linha de frente, e que ficavam na retaguarda “colhendo” os relatos.

O jornalista também comparou, em números de morte de jornalistas, as guerras do Vietnã e do Iraque, chegando à conclusão que morreram muito mais jornalistas na guerra do Iraque do que na do Vietnã. Entretanto, ele salientou que a maioria dos jornalistas mortos na guerra do Iraque eram independentes, enquanto os da guerra do Vietnã eram inscritos junto às tropas.

Ele acrescentou que muitos jornalistas morrem ao serem sequestrados enquanto cobrem matérias nesses países onde há conflitos. Disse também que, no passado, os jornalistas eram necessários tanto para o exército, quanto para os grupos armados rebeldes, pois os combatentes os utilizavam para mostrar seu lado na guerra. Atualmente, porém, com a internet, os combatentes descobriram que eles podem produzir a própria mensagem e propaganda de guerra, e assim divulgá-las através das redes sociais. Então, o jornalista passou a não ser tão imprescindível.

Patrícia inicia falando sobre quando seu pai era fotógrafo e, junto com o jornalista William Waack, cobriu a Guerra do Golfo, em 1991. Ambos acabaram sendo sequestrados, ela conta. Patrícia disse que eles foram libertados depois de uma semana em uma troca de reféns, ressaltando que a chance de isso acontecer hoje em dia é muito pequena e que, provavelmente, se isso acontecesse atualmente eles teriam sido mortos.

A jornalista continua o debate com imagens impactantes e bem compostas, que mostravam uma de suas principais coberturas realizada no Oriente Médio e em Serra Leoa, quando ela cobriu o surto de Ebola.

“Mas nada disso aqui chega aos pés das imagens de André Liohn”.

Refere-se ao vídeo também mostrado na palestra sobre a experiência do fotógrafo em situações de guerra. No último ano ela esteve três vezes na Turquia, Síria e Iraque. Sua primeira viagem foi ao norte do Iraque, e lá fez uma reportagem sobre as mulheres Yazidi, que foram, e infelizmente, são escravas sexuais, e hoje já são mais de 2000. Na reportagem, ela conta que conseguiu entrevistar algumas dessas mulheres que fugiram ou que foram resgatadas (clique AQUI e confira).

Patrícia mostrou também algumas fotos de seu trabalho ao acompanhar os soldados iraquianos. Ao passar das imagens, a repórter falou algumas de suas experiências nas viagens, momentos impactantes e situações em que sua vida foi colocada em risco. Ela ressalta que, de 15 a 20 dias, é o máximo que um repórter consegue ficar nesses locais.

“E com certeza se desse para ficar mais tempo, seria muito melhor”.

Chegou a falar também sobre seu futuro livro a respeito de um casal que conheceu na Síria.

Além disso, ela citou a dificuldade de cobrir a guerra na Síria hoje:

“É muito difícil ter acesso aos lados. Para conseguir cobrir o Estado Islâmico, tem apenas duas possibilidades: ou você consegue relatos de quem está dentro de cidades dominadas, ou cobre o lado do governo sírio, o que não é tão fácil de conseguir”.

O material de seu trabalho encontra-se disponível em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo.

Confira agora a entrevista que fizemos com Patrícia Campos Mello e Diogo Schelp:

Fala!: Qual é o papel e desempenho da OMS no surto de Ebola?

Patrícia Mello: A OMS demorou muito para se dar conta da gravidade do surto de Ebola e declarar uma emergência. Os Médicos Sem Fronteiras já estavam alertando, há muito tempo, que era uma emergência e que precisava de um esforço conjunto. Finalmente, eles declararam emergência, mas a OMS, até hoje, faz uma meia culpa e isso é um dos motivos pelos quais eles declaram a emergência do Zika logo, porque eles fracassaram muito com o Ebola.

Fala!: A volta dos refugiados provenientes da decisão da União Europeia acarretará na intensificação dos conflitos?

Patrícia Mello: Eu não acho que intensifica o conflito. Eu acho que não resolve a situação, porque eles não estão voltando para a Síria, eles estão voltando para a Turquia. Então, eu acho que enquanto não for resolvido o conflito, não adianta a União Europeia ter planos mirabolantes para a Turquia, porque não vai resolver. Se as pessoas continuam tomando bomba na cabeça e sem ter comida, elas vão continuar saindo.

Fala!: Qual o papel da ONU nesses conflitos de guerra? A proposta deles realmente funciona?

Diogo Schelp: A ONU é super importante. A ONU não consegue resolver 100% os problemas dos conflitos. A ONU tem problemas de burocracia e legais que precisa obedecer para resolver [conflitos]. Então, acabam ficando com as mãos amarradas em algumas situações, mas se não fosse a ONU, seria muito pior, com certeza.

Confira algumas fotos do evento:

André Santoro, coordenador do curso de jornalismo, agradecendo a presença dos palestrantes
André Santoro, coordenador do curso de jornalismo, agradecendo a presença dos palestrantes.

 

Leonardo Sakamoto, mediador da palestra
Leonardo Sakamoto, mediador da palestra. Foto: Louise Diório.

 

Diogo Schelp respondendo perguntas da platéia
Diogo Schelp respondendo perguntas da plateia. Foto: Louise Diório.

 

Auditório
Auditório. Foto: Louise Diório.

 

Patrícia Campos e Digo Shelp
Patricia Campos e Digo Schelp. Foto: Louise Diório.

 

Patrícia Campos mostrando alguns de seus trabalhos 2
Patricia Campos mostrando alguns de seus trabalhos. Foto: Louise Diório.

 

Patrícia Campos mostrando alguns de seus trabalhos
Patricia Campos mostrando alguns de seus trabalhos. Foto: Louise Diório.

 

 

Por: Fernanda da Rosa, Beatriz Araujo e Louise Diório.

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