Padrões de beleza: pressão estética, consequências e amor próprio
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Padrões de beleza: pressão estética, consequências e amor próprio

Padrões de beleza: pressão estética, consequências e amor próprio

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E se as musas do Renascimento tentassem uma carreira nas passarelas hoje? Provavelmente ficariam desoladas com as mudanças culturais. Apesar de já terem representado uma beleza desejável, essas mulheres perceberiam que os padrões de estética estão em constante mudança, disseminados com maior ênfase em tempos de redes sociais e publicidade em todas as plataformas. 

Desde os primórdios, as mulheres sofrem com uma vida empobrecida pelos imperativos inatingíveis do regime ditatorial da cultura da beleza, com suas exigências abstratas e projeções prejudiciais. É preciso que o feminino se autodefina, e não apenas se desenvolva a partir do padrões estéticos. 

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Os padrões de beleza tendem a diminuir a autoestima das mulheres. | Foto: Reprodução.

Por que ainda precisamos combater o culto às irrealidades?

Figuras públicas, celebridades e personagens fictícios sempre representados por pessoas brancas, com cabelos lisos e medidas corporais enquadradas numa tabela ditaram nos meios midiáticos uma forma de padronização que aprisionou – e aprisiona – milhares de mulheres, em uma constante busca por corpos e aparências irreais ou não naturais.  

Os padrões impostos na realidade comum produzem o empobrecimento do olhar ao fazer a sociedade glorificar apenas uma maneira de ser ser humano. Eles adoecem todas nós.

Coletivamente, devemos reeducar esse horizonte muito mais do que reprimir a nossa expressão. 

Cicatrizes sociais dos padrões estéticos e o problemático mercado da beleza 

Precisamos, urgentemente, discutir a relação entre o perfeccionismo físico, distúrbios alimentares, doenças psicológicas e ansiedade generalizada entre as mulheres. 

O mercado da beleza tem como pilares a submissão, rejeição e inconformidade com si mesma e com as outras. 

Seu objetivo é a produção de corpos modeláveis pela sociedade em uma lógica de fábrica. O capitalismo é a principal máquina de manutenção – e fomentação – dos padrões estéticos. Até porque fazer mulheres odiarem a si mesmas é extremamente lucrativo, é para isso que se existem cirurgias plásticas, cosméticos caros e fármacos para emagrecimento, por exemplo. Esse panorama é extremamente enfatizado pelo patriarcado em uma arquitetura de dominação selvagem para prender mulheres e evitar a emancipação feminina. 

As consequências desses modelos socialmente enraizados são as práticas estéticas desordenadas e, muitas vezes, banalizadas. 

Um dos mais problemáticos cenários decorrentes dessa toxicidade são os transtornos alimentares. Explicando essa questão, a psicóloga clínica, influenciadora digital e idealizadora do projeto “Você tem fome de que?”, Vanessa Tomasini, diz:

A gente tem como padrão de beleza corpos que são completamente irreais, não são só corpos magros, mas de extrema magreza. (…) Pressão estética é a gente acreditar que existe uma só forma de um corpo ser bonito, ele está sempre no lugar impossível para todos, temos questões genéticas, metabólicas. (…) O nosso peso corporal é ditado por muitas variáveis, temos corpos diferentes e está tudo bem”.

Completa.

Segundo a psicóloga, os transtornos alimentares são de causa multifatorial, doenças psiquiátricas graves que podem ter como um dos gatilhos essa busca pelo corpo ideal. “A nossa imagem corporal é formada por duas vertentes: atitudinal e perceptual. Perceptual é neural, nosso cérebro envia comandos para que saibamos onde está nosso joelho ou ombro, por exemplo. A parte que forma a imagem corporal, a atitudinal, tem relação com todas as nossas crenças, o que vamos incorporando ao longo de toda nossa vida do que é um corpo bonito (…) A distorção da imagem é muito comum em casos de transtornos alimentares, mas também a encontramos em pessoas não-doentes.’’.

O apreço estético apresenta uma importância maior que o peso clínico, logo, a vaidade é um valor que ultrapassa as fronteiras geográficas. Agora, e quanto àquelas que não se encaixam nesse padrão? Elas vivem um desconforto. “Quanto mais uma pessoa se distancia desse padrão considerado belo no seu tempo histórico, mais ela sofrerá olhares e condenações, mesmo que de formas muito sutis”, conta a psicóloga social, Andréa Siomara, fazendo referência à pressão dos círculos de socialização.

Diante dessa situação, meninas amadurecem precocemente para iniciar a caçada pelos atributos físicos desejáveis mais cedo, evitando a segregação na hierarquia da beleza, ou seja, as mulheres, e principalmente o grupo jovem, são extremamente vulneráveis a essa questão, mas por quê? Siomara explica:

Os estudos apontam que as pessoas jovens são mais afetadas por esses padrões irreais. Ter esse corpo ideal é o requisito para ser aceito. (…) O corpo feminino, historicamente, é mais olhado e tomado como objeto de consumo, como produto, serviços e intervenções.

Skin e Body Positive: os movimentos que vêm mudando o olhar global

Desatar os nós dos hábitos cruéis promovidos pela socialização não é uma tarefa fácil, mas, às vezes, as redes sociais podem ajudar nesse processo. Existem figuras mais do que especiais que auxiliam nessa missão de quebrar os padrões de beleza.  

Quando pessoas reais se apropriam desses espaços para serem elas mesmas, reforçamos as positividades desse ecossistema e é assim que as mudanças acontecem, dando visibilidade a causas antes suprimidas.

Precisamos normalizar peles e corpos normais, juntamente com tipos de cabelo, bocas e estilos, para fazer com que todos, finalmente, entendam que ser interessante é ser você mesmo. 

“Convivendo com acne e aprendendo a amar minha pele’’. Para a criadora de conteúdo digital, Nathália Simeão, amar a si mesma é um ato revolucionário:

É importante buscar um olhar mais carinhoso porque a sociedade já funciona de um jeito que não privilegia a gente (mulheres), que tenta complicar ao máximo nossa vida, além de problemas de violência de gênero. Gastar nosso tempo odiando nosso corpo e odiando as outras é um desperdício de tempo e de saúde psicológica.

Ela conheceu o perfil estrangeiro Free The Pimple, idealizado pela modelo Lou Northcote durante as férias. O canal em questão deu origem a todo um movimento que visa expor – e reverenciar – peles reais. A representatividade foi essencial para sua autoaceitação, e ela decidiu fazer o mesmo por outras meninas: “Pensei: Eu preciso fazer alguma coisa para outras pessoas verem que é normal ter acne, outras pessoas aqui no Brasil. A acne afetou alguns fatores da minha vida, não só na autoestima, mas até comecei a tomar anticoncepcional só por causa dela, por exemplo.’’.

“De gorda pra gorda’’. A influenciadora digital, Mari Lima, criou o seu perfil no Instagram, sem muita pretensão, para falar sobre seus looks há 5 anos, quando quase não se encontrava moda plus size por aqui. Depois de uma pausa de dois anos, voltou com mais afinco falando também sobre gestação, maternidade e acessibilidade, e o portal ganhou outra perspectiva. 

Mães gordas – e felizes – eram um terreno inexplorado que Mari decidiu adentrar com força total: “Independente do meu peso, do meu tamanho, do número que eu visto, dos números em geral, eu posso ser uma pessoa feliz, realizada, bem-sucedida, e mostrar que se eu consigo estar de bem comigo mesma, as pessoas também podem se sentir assim’’.

Em vista disso, vale ressaltar que o padrão de beleza é opressor por si só. Ele, como vimos acima, funciona por meio da opressão, e todas as mulheres são oprimidas por ele. Propagar a ideia de que trata-se de um retrato inalcançável do feminino por ser uma visão idealizada é o primeiro passo para a modificação efetiva, só assim conseguiremos, na esfera pública e privada, reverenciar a pluralidade de corpos que existem. 

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Por Vitória Prates – Fala! Cásper

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