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Quem disse que o Abaporu é a maior obra de arte do Brasil?

Quem disse que o Abaporu é a maior obra de arte do Brasil?


Século XXI. Aquela sexta-feira cansada, em que você corre pra pegar o vagão feminino, senta no chão e espera algum infeliz te denunciar no twitter. Essa sexta-feira. Que você quer ir pra casa, mas fica flertando com os bares que te conquistam aos poucos pelas janelas do ônibus. A sexta-feira que você desce em Irajá xingando o metrôrio porque toda dia é dia de reclamar da mobilidade urbana nesta cidade. Sexta-feira. Tá tocando Brota na Penha, e você olha o cara vendendo coxinha, dá tchauzinho pro moço da pizza e manda descer uma gelada. Ali mesmo, em Irajá, recanto dos meus sonhos. E quem já ouviu falar de Abaporu?

Sempre me pego pensando nas pessoas que falam aos meus ouvidos. Aqueles artistas que nos gritam a realidade e nos fazem parar de pensar nos trilhos que vão nos carregar no dia seguinte. São aqueles que tiram a poeira dos móveis do cotidiano e nos fazem balançar a cabeça, como quem diz silenciosamente “É isso!” Eles, que me fazem tirar os olhos do meu livro, que cantam nos vagões e que fazem poesia marginal.

O rapaz que chega com sua marionete Jezebel, pronto para arrancar nossos sorrisos mais sinceros. Todo dia é dia de rezar para vê-la passear com seu charme entre as pernas dos passageiros. É quase impossível se fazer entender o que é arte. Ainda mais difícil definir esse termo de tanto simbolismo em uma época de múltiplas vozes, de entendimentos conflitantes, de paixões que não parecem existir aos nossos olhos. O que fala pra mim faz sentido pra você? Ou melhor, aquilo que fala por mim, diz algo em seu nome?

Eu tenho tamanha certeza de que os contos de Geovani Martins não dizem muito para as minhas amigas que nunca saíram da caixinha Copacabana – Zona Sul. Assim como nem todas as sutilezas de “O sol na cabeça” serão captadas pelo meu intelecto, fruto de tudo aquilo que colore as paredes do meu existir. Arte é manifestação, é política, é um grito silencioso que ecoa na alma do outro. A arte é independente do que ela me fala, porque para querer falar de arte é preciso entender que o mundo é repleto de outros, de experiências ditas inexistentes pelos nossos olhos. É muito difícil perceber que a vida fala de lugares quase que literários.

Nada contra Tarsila do Amaral, que fique bem claro. O Abaporu representa parte do repertório cultural brasileiro, e existe todo um significado por trás da imagem aparentemente esquisita. Os braços longos e incomodativos simbolizam o trabalho braçal, que ergueu o país. “Homem que come gente”, em tupi, o quadro faz parte do movimento modernista brasileiro, e descreve a ideia de interpretar o Brasil a partir de valores realmente nossos. Aliás, o Abaporu está exposto. Mas em Buenos Aires. Porque além de política, arte também é mercadoria. Arte tem valor material. E muitas vezes isso se sobrepõe a sua própria alegoria criativa. O Abaporu, atualmente, vale 30 milhões de reais, e não dialoga com a galera que ainda ergue, dia após dia, o nosso país. Esse pessoal todo, que em essência, refletia na tinta disposta em tela. Irônico, não?

É extremamente assustador tentar delimitar a maior dentre nossas manifestações artísticas. Cada uma delas responde a um lugar, a um alguém que seria diferente hoje, que falaria para públicos que não existem mais, com palavras que há tempos nos abandonaram para entrar na história. Entender uma delas como mais significativa implica ressaltar todas as outras como menores, e é impossível escolher, dentre tantos brasileiros, um que será suficiente para falar sobre arte. Aquele que, mesmo contaminado de emoções e vivências, vai falar por todo um Brasil. Um Brasil de muitas artes ainda não entendidas como tal.

Um lugar de textos acolhedores, sensíveis, de músicas repletas de verdades e danças desconcertantes. Um país feito de suor, de distinções, de luta, que vai do samba ao axé, do funk até o rock e flerta com a música pop. Um Brasil refletido em notas musicais e em cores que ainda dizem respeito às suas próprias naturezas. São arte porque carregam afeto. E quer coisa mais poderosa que isso? Quem determina o poder desse carinho? Desse carinho que só eu sinto, que atravessa todos os transeuntes para chegar às minhas mãos nas barras do trem, mas te ignora na plataforma.

E tudo bem. Tudo bem você não achar que o mais novo CD de pagode não é arte, que Pabllo Vittar não canta nada, e que os tempos não são mais os mesmos. Você reclama da falta de bandas como Legião Urbana e de escritores que toquem o seu coração, tal como Clarice Lispector no conto “Amor”. Os dias se tornaram mais difíceis, os artistas mudam. E, de fato, isso tudo te incomoda. Porque você não consegue entender que no calor de um dia difícil ainda existe um momento em que você pode se deixar levar ao som daquele samba acolhedor, que fala do teu bairro e finalmente o faz relevante.

Daquele bairro que não existe nos noticiários. Certo dia desses, meu amigo disse que em dia de São Jorge, Quintino existe, e que ele estava animado por sua tão amada casa aparecer tantas vezes em uma mesma obra literária – ficam aqui os meus abraços calorosos para Luiz Antônio Simas. Além disso, eu ouvi durante quase todo o mês, uma Harumy mais que animada pelos sambas novos da Mangueira. Escrever sobre isso, escrever sobre esses detalhes que não são percebidos fala alto, afeta e corrói.

Mas vem me dizer que Lima Barreto não fez magia naqueles tempos. Fala, sim, que não é importante escrever aqueles contos românticos, ou todos aqueles dizeres no Medium sobre a sua passagem por aqui. Aquilo que só existe porque você criou. Porque não existe qualquer pessoa nesse mundo que vá entender o que é estar no seu corpo, na sua história. Arte é produzida a todo minuto, por estudantes, contadores, advogados, pais e mães, jovens, idosos, mulheres, crianças, engenheiros, psicólogos. Arte é humanidade e tem arte por aí sendo vista como nada. Arte popular, arte que brilha aos olhos de quem sabe muito mais sobre o que tá de fato acontecendo.

Acontece que é fácil demais criticar a arte, quando você não conhece sua linguagem interna e se posiciona em um lugar entendido como mais alto. Um lugar que te permite falar com uma propriedade farsante de uma vivência que não é sua. Esse mesmo lugar, que te faz se apropriar de uma obra pela sua importância histórica, pelo status carregado na moldura e pelo seu valor material. Como se você sentisse na pele o contraste social que é expresso naquelas pinceladas carregadas de ideologia, acrescentando valores a objetos que você não entende. Por vezes, objetos produzidos para gente como você. Por gente como você.

Então, eu me deixo de lado. Vou embora das rodas que abarcam essa discussão, feitas por pessoas maiores, de títulos diversos, de uma visão restrita. Porque o meu coração é de Machado, é de Tarsila, é de Lispector e Lima Barreto. Mas é, também, de Raphael Montes, da Valentine, dos Poetas Vivos. Maria Rezende. Caetano, Chiquinho e Aleijadinho. Marília Mendonça, Simone e Simaria. FP do Trem Bala, Elisa Lucinda e Anitta. Meu coração é verdadeiramente brasileiro e arte que é feita aqui, é arte que inunda.

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Ana Flávia Pilar – Fala! UFRJ

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