Os recomeços e as continuidades através do isolamento social
Menu & Busca
Os recomeços e as continuidades através do isolamento social

Os recomeços e as continuidades através do isolamento social

Home > Lifestyle > Os recomeços e as continuidades através do isolamento social

Os dois extremos da pandemia: do enfrentamento na linha de frente ao enfrentamento no meio digital, através do home office. Perspectivas que se interceptam, revelando recomeços e continuidades.

Psicóloga do Instituto Estadual de Cardiologia, 53 anos, casada e mãe de dois filhos. Estudante de comunicação social na UFRJ, 19 anos, trabalha com gerenciamento de mídia social e posicionamento de marcas nas redes sociais. Alba Lyrio e Luiza Arruda foram entrevistadas em prol de destrinchar suas vivências nesse período de pandemia. 

recomeços
Os recomeços e as continuidades através do isolamento social. | Foto: Unsplash.

Recomeços e continuidades através do isolamento social

Luiza começou a trabalhar durante a pandemia, motivada pelo medo de que sua mãe, professora da rede privada, pudesse ficar desempregada. Segundo ela, o tempo livre proporcionado pela quarentena foi o fator decisivo para que começasse a ajudar em casa. “Sempre pensei que precisasse esperar terminar a faculdade para trabalhar com o que eu queria”, apontou a estudante de comunicação.

Sobre o seu ramo, Luiza revelou o crescimento ‘absurdo’ do meio digital, e os impactos provocados por ele. “As empresas estão começando a só vender com mídia social, eu esgotei o trabalho”, indicou. 

Além disso, ela ponderou que os negócios mais tradicionais foram pegos de surpresa pela necessidade das vendas on-line, o que fez com que eles recorressem com urgência aos profissionais dessa área. “Acho que foi um desespero por completo. Se agarraram às primeiras pessoas que eles viram pela frente, sabe?”, analisou a jovem.

A recém-social media, nesse sentido, abordou também o seu maior desafio no home office: administrar o tempo e estabelecer limites de trabalho. “Chego a trabalhar 12, às vezes, 15 horas por dia. O que eu sei que é algo errado e que me faz muito mal”, confessou. A quarentena, segundo ela, corrobora esse excesso: “Eu não tenho muito o que fazer em casa, e aí eu acabo trabalhando mais”.

Alba, por outro lado, trabalhava no consultório e no hospital quando a pandemia começou. A psicóloga expôs os desafios que permearam desde baixas em sua equipe ao atendimento dos pacientes, que não podem mais receber visitas e tiveram o tempo de espera para a cirurgia aumentado. Além disso, revelou como foi sua adequação ao atendimento on-line com os clientes do consultório.

“No início foi, pessoalmente, muito difícil”, indicou a profissional. Nos primeiros dias, sem protocolo, Alba precisou definir por conta própria como atenderia no hospital. Enquanto isso, os colegas de sua equipe reagiam de formas diversas à Covid: “Eu tive colegas psicólogas que pediram desligamento do estado, não suportaram trabalhar, ficaram com muito medo.”.

O tratamento do paciente, nesse contexto, também foi dificultado. Sem receber visitas, a ‘angústia’ deles no hospital aumentou muito, o que foi agravado, também, pelo tempo de espera das cirurgias: “Pode demorar 3 meses de espera, com a Covid demorou um pouco mais”, relatou a psicóloga.

Já quando questionada a respeito das alterações em sua rotina, Alba indicou que tem ido ao hospital no mínimo 3 vezes por semana de uber, o que encareceu seu ‘ir e vir’. Nesse sentido, ressalta também que o marido está impedido de trabalhar. “A minha responsabilidade com o trabalho fica dobrada”, apresentou, assim, a questão financeira.

Em relação aos clientes do consultório, a psicoterapeuta passou a realizar o atendimento on-line. Esse processo, segundo ela, demandou certa adequação devido à sua falta de familiaridade e, até, seu preconceito em torno da consulta virtual. 

Mesmo depois da adaptação, Alba ainda apontou que o atendimento on-line exige dela um esforço físico e emocional maior, como profissional: “É mais cansativo, tem uma série de detalhes que o presencial tem e no virtual você perde”. Além disso, ela ponderou que os clientes mais idosos e os jovens que não têm privacidade em casa optaram por interromper o processo terapêutico.

Mudanças impulsionadas pela pandemia

As duas entrevistadas, porém, concordaram neste aspecto: a relação entre comércio e internet foi revolucionada durante a quarentena. Tanto no ramo da psicologia, quanto no ramo da mídia social, as duas profissionais apontaram que os negócios físicos tendem a migrar para o digital. 

Luiza, que trabalha com vendas on-line e com mentorias, depôs: “Muita gente triplicou o número de vendas por causa do digital, pois foi possibilitado que eles vendessem para outros estados, coisa que nunca pensaram.”.

Já em outro viés, foi discutida a questão da saúde mental no período de pandemia. Apesar de fazer um tratamento para depressão e ansiedade, a estudante de comunicação revelou ter tido crises depressivas ‘severas’ durante os picos de óbitos em virtude da Covid-19. 

Por outro lado, Luiza disse considerar a quarentena um momento de ‘encarar’ suas situações. Isso porque, distanciada de suas válvulas de escape, esse período tem possibilitado reflexões que a permitem lidar melhor com a doença: “‘De onde vêm essas coisas? O que eu posso fazer para melhorar isso? Porque eu sinto isso?’ Eu sinto que eu não tive pra onde fugir”.

Ainda assim, a social media apontou que não se adaptou ao isolamento social. Segundo ela, suas atividades ‘normais’ do dia a dia foram substituídas por trabalho e excesso de cafeína: “Eu queria muito poder falar algo positivo para você, como ‘Olha, adorei, estou fazendo yoga…’ mas, não, estou trabalhando e tomando café, é isso.”.

Enquanto isso, Alba ponderou: “Eu sinto uma grande diferença entre mim e as outras pessoas, porque eu não sei o que é passar 4 meses em casa”. Entretanto, revelou a preocupação relativa à saúde mental de seus filhos.

“Vai ter que dar uma volta. ‘Bota máscara, bota luva, mas vamos circular’”, disse ela, temendo o adoecimento mental e físico dos jovens que não saíram de casa desde o início da pandemia. O filho mais novo é o alvo de maior preocupação. Segundo a psicóloga, ele tem muito medo de sair de casa e pegar Covid, está muito impactado.

Além disso, Alba pontuou também o negligenciamento de outras doenças nesse período, e disse que os índices de depressão e fobia social estão crescendo. Nesse sentido, observou que irão surgir novas patologias e novos comportamentos no contexto pós-pandêmico: “Vai aparecer uma porção de coisas, aspectos da gente que a gente não conhecia.”.

Já em relação à aquisição de habilidades durante a quarentena, Luiza citou ter aprendido a vender seu produto, usar ferramentas nas redes e a economizar seu dinheiro. Porém, ressaltou que nenhuma dessas foi a melhor habilidade que adquiriu.

Segundo a social media, esse também foi o momento em que aprendeu a se relacionar com as pessoas. “Eu ‘cancelava’ as pessoas da minha vida”, confessou. Foi um momento frutífero para o desenvolvimento de empatia e capacidade de diálogo, uma vez percebido que esse cancelamento não poderia ocorrer. 

No trabalho, Luiza percebeu esse movimento: “Eu tenho um contrato com um cliente. Se eu passei por um conflito com ele, eu não tenho como fugir. Foi a primeira vez que isso aconteceu na minha vida, antes eu trabalhava como freelancer”. Enfim, apontou esse aprendizado de ‘encarar’ as coisas como algo muito positivo para o futuro.

Sobre o âmbito das relações interpessoais, para Alba, esse período escancarou a necessidade de olharmos com empatia para o outro. O isolamento social requer, segundo ela, uma adaptação às limitações de cada indivíduo, e isso exige compreensão. 

“A pessoa fala que está enlouquecendo em casa e vai dar uma volta na praia. O que pode? O que não pode?”, ponderou a psicóloga, e continuou: “O isolamento social tem uma eficácia, mas tem um limite”. Segundo a profissional, a mudança de comportamento é um desafio enorme, o que pode significar outras ondas de coronavírus.

Para Luiza, as relações interpessoais mais íntimas se estreitaram na quarentena: “A pandemia fortaleceu muito a nossa amizade, porque foi algo de muito mais cuidado, a gente querer construir algo mesmo de longe…”. 

Entretanto, a estudante de comunicação também vivenciou surpresas negativas nesse aspecto: “Me fez perceber muito o quão líquidas podem ser as relações, pessoas que eu saía muito e hoje a gente nem se fala mais.”.

Em seguida, Luiza, como filha, ressaltou os novos desafios familiares impostos pelo trabalho remoto. A social media relata que sua mãe, no início, não acompanhou a nova rotina: “Houve muito atrito no sentido de ela querer invadir meu espaço de trabalho para que eu fizesse coisas aleatórias porque eu estava em casa”.

A partir de outro ângulo, a mãe da B. (17) e do T. (11) revelou outra perspectiva da dinâmica familiar: “Uma coisa de eu senti foi a necessidade das pessoas em casa terem uma rotina, tava caótico. A escola mandando uma porção de deveres, uma porção de videoaulas, estudo dirigido, os dois se perderam…”.

Além disso, a psicóloga apontou que percebeu uma alteração de humor muito grande dentro de casa. Segundo ela, o filho mais novo foi o que mais sofreu, apresentando também alterações de sono e apetite. Porém, ponderou: “É como se fosse um bode expiatório, é a pessoa que está falando sobre o que está acontecendo ali”.

Nessa perspectiva, Alba revelou que recorreu à homeopatia e à terapia familiar para enfrentar esses novos desafios. “Caiu minha ficha que tava difícil pra caramba em abril. Depois disso, eu chamei a minha família e disse: ‘olha só, se vocês ficarem eu vou ficar bem. Mas eu preciso que vocês fiquem bem’”, confessou.

Enfim, ambas entrevistadas apresentaram conflitos e resoluções que esse período tem proporcionado. Apesar de doloroso, esse é um momento de reflexões e reinvenções. Mas nem para todos.

Outro ponto em comum entre as duas entrevistadas é o olhar sob o aspecto social da pandemia. Foi constatado que se isolar é um privilégio, visto que uma parcela da população não pode parar de trabalhar. Não houve recomeço em relação às desigualdades sociais, como apontou Luiza, elas foram acentuadas. 

Alba também citou os trabalhadores informais que se tornaram ilícitos e, assim, cada vez mais excluídos, perderam dignidade, perderam ‘tudo’. O impacto econômico foi gritante. “Quando eu falo de pensar no outro é de uma forma mais ampla. Tem comunidades no Rio com 7 pessoas em dois cômodos”, ela completou. 

Ademais, a social media ponderou que os efeitos da tecnologia não são somente benéficos. Sem elementos cotidianos como a conversa de bar, o conteúdo extremamente segmentado consumido na Internet é letal para que não tenhamos acesso a outros pontos de vista, outras realidades. O que corrobora, também, o individualismo. 

Luiza ainda questionou sobre eleição municipal que ocorrerá em 2020. “Quais candidatos a gente vai conhecer? Porque não vão ser todos. Agora a gente só vai receber a reação segmentada, o patrocínio.”, criticou ela.

A pandemia, sem dúvidas, nos impôs um novo cotidiano. Por isso, esse período demanda um olhar amplo e profundo sobre as questões supracitadas, para que os recomeços sejam frutíferos e as prejudicialidades sejam percebidas e revertidas. 

_______________________________
Por Sophia Lyrio – Fala! UFRJ

Tags mais acessadas