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Opinião: Suzano e o ciclo vicioso da espiral do silêncio

Opinião: Suzano e o ciclo vicioso da espiral do silêncio

Por Gabriela Henrique – Fala!Anhembi

Nesta quarta-feira (13), a escola estadual Professor Raul Brasil, que fica em Suzano localizada na região metropolitana de São Paulo, sofreu um atentado. Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, e Guilherme Taucci Monteiro, de 17, entraram na escola por volta das 9h da manhã e começaram os disparos contra os alunos e funcionários do local. O ataque deixou cerca de 10 mortos, incluindo alunos, funcionários e os próprios atiradores, que se suicidaram antes da polícia chegar até o local, além de 12 pessoas feridas.

Essa não é a primeira vez que o Brasil sofre com ataques desse tipo. Em 2017, um adolescente de 14 anos entrou no Colégio Goyases, em Goiás, e matou duas pessoas ferindo outras quatro. Em 2011 tivemos outro caso, quando o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, entrou na escola Municipal Tasso de Oliveira, que fica em Realengo no Rio de Janeiro, e disparou contra alunos, deixando 12 crianças mortas e outras 17 feridas. Esses dois casos acabaram por chocar toda a população brasileira, e o mais recente foi o de Suzano.

A grande coincidência desses três casos e de muitos outros que já passaram pelo território brasileiro é que seus causadores, em sua maior parte, guardam sentimentos reprimidos de ataques de ódio, não compreensão e até mesmo de não aceitação. Isso acontece na escola, dentro da família e do círculo de amigos. Na maioria dos casos, após as investigações, é comum os policiais descobrirem que essas pessoas já haviam sofrido bullying ou qualquer outro tipo de ataque que, teoricamente, os fizessem agir de tal forma. É claro que isso não justifica o ato praticado por estes indivíduos, mas é um dos principais gatilhos para que eles aconteçam. E o que fazer para que isso pare?

Nos anos 60, a filósofa e política alemã Elisabeth Noelle-Neumann desenvolveu a teoria da Espiral do Silêncio, pois queria entender porque as pessoas ficam em silêncio perante a determinadas situações. A filósofa concluiu que os indivíduos deixam de lado sua opinião ou seus argumentos para serem aceitos em determinados grupos ou tribos, por medo da rejeição. Logo, foi concluído que a opinião do dominante sempre vai ser a mais importante e as outras serão silenciadas. A verdade é que estamos alimentando um ciclo vicioso. Na adolescência o jovem passa por inúmeros problemas como a não aceitação de si mesmo, pressão derivadas de múltiplas escolhas (faculdade, trabalho) e então, sem auxílio, ele explode. Essa explosão vai de pessoa para pessoa. Ele pode gritar com os seus pais, ou chorar até sentir que não aguenta mais ou montar um plano de entrar na escola e matar todos aqueles que um dia lhe machucaram.

A falta de um acompanhamento, seja ele profissional ou familiar, faz com que esses episódios continuem ocorrendo, como se fossem ciclos. O acompanhamento familiar começa a partir do momento que os pais notam algum comportamento incomum. Dessa forma eles devem incentivar que seus filhos se abram para eles ou buscar ajuda de um profissional.

Temos um grande preconceito com psicólogos ou profissionais que são voltados exatamente para os nossos pensamentos, pois ainda há a visão de que só devemos pedir ajuda para tais pessoas quando chegamos ao “nível de loucura”. Mas a questão é que a normalidade não é uma coisa atingível. Uma vez, num debate sobre Sócrates, durante uma aula de filosofia na minha escola, meu professor disse: “E se os loucos formos nós? E se eles são considerados loucos porque não pensam da mesma forma que a gente? E se a realidade deles for a certa e a nossa errada?”. É de se refletir que o louco é aquele que associamos ao ruim, mas todos nós precisamos desabafar às vezes, por mais abstratos que sejam nossos pensamentos, eles devem ser ouvidos. Talvez, se Dylan e Eric, os dois atiradores que ficaram famosos pelo Massacre de Columbine, em 1999, matando 13 pessoas e ferindo outras 24, tivessem sido ouvidos, talvez o ciclo vicioso citado acima pudesse ter sido controlado.

Em 2010, a banda Foster The People, lançou uma música se chamada “Pumped up Kicks”. A música fez um grande sucesso por conta da sua batida e ritmo dançante, mas foi censurada em alguns canais de TV, como a MTV, por causa da natureza da sua letra. A banda trouxe de volta o Massacre de Columbine em seus versos para retratar o que aconteceu nesse dia e o uso do ritmo mais dançante foi proposital, já que serviu de crítica para os tiroteios nas escolas americanas. A música foi escrita com o objetivo de dar voz não às vítimas, mas às crianças que provocaram esse atentado. O vocalista da banda, Mark Foster, disse que as pessoas estão se isolando cada vez mais e atos assim estão virando comuns entre adolescentes.

Outra questão debatida é a “romantização” desses personagens. Recentemente isso aconteceu com o Ted Bundy, depois que a Netflix lançou a série “Na Cabeça de um Serial Killer: Ted Bundy”, que conta a história de um dos maiores serial killers dos Estados Unidos. Nas suas redes sociais, a plataforma de streaming recebeu comentários positivos sobre o quanto ele era bonito e charmoso, e isso não aconteceu somente com ele. Existem contas, na rede social Tumblr, de fã clubes para pessoas como Ted e os dois garotos do massacre de 1999. No mesmo dia do massacre na escola em Suzano algumas pessoas comentaram na foto, publicada no Facebook horas antes do atentado, de um dos atiradores, sobre terem o mesmo sentimento que ele, e que talvez pudessem ter a mesma ideia.

Como controlar uma situação que passa pela cabeça de muito jovens nessa mesma faixa etária? A melhor solução não é armamento, como certo Major afirmou horas após o atentado. A melhor solução é você reeducar esses adolescentes. Coloquem profissionais nas escolas para atender alunos e ajudar a direcionar melhor os seus pensamento e sentimentos. Procure promover projetos para diminuir e conscientizar sobre os riscos que o bullying pode trazer a qualquer jovem que está começando a se desenvolver. De voz a eles, dê apoio psicológico e acima de tudo não os deixem entrar na espiral do silêncio.

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