Opinião - Majur: uma promessa da MPB
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Opinião – Majur: uma promessa da MPB

Opinião – Majur: uma promessa da MPB

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“AGÔ” é uma palavra de origem Yorubá, comumente utilizada por praticantes de religiões de matriz africana no Brasil, cujo significado expressa um pedido para que se abra passagem a algo ou alguém. Não é à toa que Majur, cantora Soteropolitana de 25 anos, escolheu essa palavra para nomear a música que abre as portas do seu novo e primeiro álbum Ojunifé, lançado em 12 de maio de 2021. Majur chegou e por onde passa distribui representatividade queer e negra, entrelaçadas em suas letras que retornam às raízes Afro-Brasileiras.

A partir de sua participação na música AmarElo, do álbum homônimo do rapper Emicida, juntamente com a cantora e Drag Queen Pabllo Vittar, Majur ganha cada vez mais visibilidade no espectro musical brasileiro. Isso porque, em suas melodias, expõe sentimentos universais e inerentes a qualquer ser humano, como o ato de amar e estar no mundo, não deixando de lado, porém, suas origens que remontam o resistir para existir. Afinal, sua luta enquanto pessoa negra e não binária é diária e assídua. Situação ainda mais marcante em Ojunifé, que delineia o processo de maturidade e consolidação de sua carreira. Essas características presentes em sua arte a tornam uma promessa no cenário da nova MPB.

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Capa do álbum Ojunifé, de Majur. | Foto: Guilherme Nabhan.

​Artistas e personalidades públicas que impactam e dão voz​

Assim como Majur, outras figuras públicas, como a cantora Glória Groove, que se apresentou no reality show Big Brother Brasil 2021 (BBB21), e Gilberto Nogueira, ex-participante do mesmo programa, agora queridinho do “Braséel”, representam um ponto de inflexão no processo de construção de símbolos e heróis sociais, discutido pelo campo da sociologia, posto que subvertem esses conceitos. Em um passado não tão distante, exaltava-se, através da mídia e dos meios de comunicação, aqueles que destilavam os padrões normativos sociomorais e as narrativas das classes dominantes; agora, através da liberdade virtual, carisma, talento e muitas lutas, atores sociais relegados ganham voz e empoderam outras vozes marginalizadas que gritam diariamente pelos seus direitos, até então recebidos em ecos vazios por ouvidos surdos. 

Quem diria que um gay não heteronormativo, uma personalidade não binária e drag queens ganhariam espaço no país que mais mata transexuais no mundo inteiro, segundo relatórios da ONG Transgender Europe (TGEU). E mais, quem diria que, com sua visibilidade, conseguiriam se infiltrar em setores da sociedade extremamente conservadores ou que nunca nem mesmo ouviram falar em diversidade e lutas sociais, através da veiculação de suas imagens em meios de comunicação de massa como a Rede Globo de televisão. 

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Pabllo e Gil no BBB21. | Foto: Reprodução/TV Globo.

A arte toca tudo e todos​​

Macabéa, uma nordestina que migra para o Rio de Janeiro, sem escolaridade, em busca de emprego, vive uma vida simples sem muitas ambições, alimenta-se todos os dias de um cachorro-quente e uma Coca-Cola e vive reclamando de uma dor que não sabe muito bem onde é, talvez sendo apenas os sintomas doloridos de viver uma vida de pobreza e sem propósitos. Se não fosse a personagem eternizada por Clarice Lispector, a descrição caberia perfeitamente para iluminar uma grande parcela da população brasileira, preocupada apenas se haverá comida para alimentar os netos, ou se o filho vai chegar vivo para o jantar depois de um dia extenuante de trabalho: Macabéas conformadas da realidade.

Diametralmente oposta a essa literatura, temos a história criada por Machado de Assis, em que, durante o período imperial brasileiro, Bentinho Santiago, ou Dom Casmurro, homem branco, rico e totalmente privilegiado, deixa-se enlouquecer pelo ciúmes doentio diante da possibilidade fajuta de traição amorosa por sua esposa Capitu e seu melhor amigo Escobar. A descrição de um homem de quase 200 anos atrás que se encaixa perfeitamente em alguns homens contemporâneos, dotados de todos os privilégios sociais possíveis, mas intimidados com a mínima possibilidade de ter de encarar o outro social fora de sua bolha edênica de um conto de fadas: Dom Casmurros mimados da realidade.

Expostos dois setores da sociedade, cabe uma reflexão: como esquadrinhar temas e mazelas sociais sobre gênero, negritude ou ecologia, por exemplo, para pessoas que não estão dispostas a escutar, seja por viverem em um mundo fantasioso de pares iguais de privilégio; seja por terem problemas empíricos mais latentes a serem solucionados? 

É nesse sentido que a arte pode ser um caminho para se alcançar o suposto inalcançável. Uma vez que representa o território ilógico da emoção, ela tem o poder de quebrar a racionalidade dos argumentos contrários, comover e ensinar através da estética e do impacto nos sentidos visuais, sonoros e táteis de qualquer homem de carne e osso, já que, enquanto houver oxigênio para respirar, a ação de se expressar será intrínseca aos nossos genes e irá circular por todas as nossas veias livremente sem barreiras de preconceito. A arte não escolhe gênero, crença, orientação ou classe; ela apenas explode, e transcende, e se mistura, e borbulha a realidade de quem existe e é. 

Conjuntura convergente à trilogia de filmes Minha Mãe é uma Peça, em que se conta a história de Dona Hermínia, divorciada e mãe de dois filhos, sendo um deles homossexual. Personagem essa que fora interpretada por um homem: o falecido ator Paulo Gustavo, assassinado por uma doença que já havia cura em forma de seringa, mas que não chegou até ele a tempo, devido à ineficiência governamental. Em outras palavras, em um país que se esperava o linchamento de um filme em que o protagonista é um homem travestido de mulher, nota-se ironicamente o oposto: por meio da arte e do riso, Paulo conquistou o coração de Macabéas, Dom Casmurros e todos os brasileiros. Independentemente de qualquer status social, atingiu recorde na bilheteria nacional, figurando, assim, uma forma relevante de impacto social.

No dia em que Paulo Gustavo tombou, 4 de maio de 2021, vítima de complicações de Covid-19, diversos internautas se chocaram e relembraram a repercussão social que o ator ecoou em suas vidas. Confira o tweet de Luana Barros Lacerda, estudante de 20 anos do curso de psicologia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg): “Paulo Gustavo é um dos maiores atores brasileiros LGBT, ele fez parte do meu processo de me assumir, assim como no processo da minha mãe de aceitação”. Outro comentário semelhante foi feito pelo produtor da TV Univap, Rafael Ferreira Rosa, de 20 anos: “O Paulo Gustavo foi tão necessário e importante! Os filmes dele ajudaram muito no processo de aceitação aqui em casa, eu tinha uma admiração tão grande pela pessoa, pelo trabalho, por tudo”.

Mesmo que ainda seja preciso trilhar muitos labirintos para que o país atinja um estado de igualdade de direitos e aceitação à população marginalizada, saindo da lista dos países que mais matam transexuais, por exemplo, a arte pode ser a luz no fim do túnel. Através dela, vislumbram-se os problemas que acometem o território nacional e a possibilidade de contorná-los por meio do apelo da subjetividade. Além disso, personalidades, durante muito tempo consideradas desviantes da moralidade, ganham palco para serem precisamente o que são. A arte toca tudo e todos e certamente depois de mergulhar nela, nossa visão do mundo nunca é a mesma.

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Paulo Gustavo como Dona Hermínia. | Foto: Divulgação/Paris filmes.

Além de AGÔ e Majur: a arte e seus artistas resistem!​

Dessa maneira, como instrumento que reafirma nossa humanidade, é imprescindível artistas como Majur, Emicida, Pabllo, Glória, Paulo e tantos outros que escancaram a realidade como ela é através da beleza, do choque e da linguagem de suas perspectivas e vivências pessoais. Por meio disso, tornam combustível a reverberação de sua existência em um mecanismo de transformação social; causam impactos, negativos ou não, que ao menos representam a possibilidade de conhecer e refletir a diferença e sua presença há tanto encoberta. Agô! Agô! A todos os artistas que existem e resistem, as portas estão abertas e não vão mais fechar. “Flua e se deixa ser!

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Por Zyon Alcardi – Fala! UFMG

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