Opinião - Eu sou UFSC: retratos da Balbúrdia
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Opinião – Eu sou UFSC: retratos da Balbúrdia

Opinião – Eu sou UFSC: retratos da Balbúrdia

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“Porque os aventureiros são assim mesmo”

Um filósofo surfista. Uma senhora que, após anos, resolve aprender a ler para escrever seu livro. Um garoto que tenta simplificar conceitos da economia para a compreensão de todos. Um baixista que coordena um projeto de música gratuito para a comunidade. As histórias dessas pessoas se entrelaçam e seus projetos se tornam possíveis por conta de uma mesma instituição, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ali, é o local onde aprendem e colocam em prática seus conhecimentos, na busca de inovar e trazer benefícios para a comunidade na qual estão inseridos.

ufsc
Retratos da UFSC.

O esforço e os projetos que eles constroem, muitas vezes, não são reconhecidos — às vezes, nem mesmo conhecidos. Há quem defenda que universidades federais, como a UFSC, são apenas um espaço de balbúrdia e desperdício de dinheiro público, desconsiderando o que realmente acontece ali dentro. Esse discurso está muito presente nas redes sociais, local onde as pessoas parecem se sentir encorajadas para defender seu ponto vista de qualquer forma — não se importando em usar uma linguagem grosseira e agressiva, e nem em considerar o ponto de vista dos outros.

A Internet é como um conjunto de estradas que se entrecruzam. Nas ruas, em geral, encontramos pessoas diferentes, trocamos olhares, palavras e conhecimentos. É nesse espaço público que, muitas vezes, formamos nossas opiniões sobre diversos assuntos e tomamos decisões coletivas. Atualmente, é impossível pensar esse espaço sem considerar o que acontece nas redes virtuais. “O espaço público é um híbrido do que acontece no espaço virtual e na rua”, afirma Isabel Colucci Coelho, jornalista, doutoranda e mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Como em qualquer cidade, cada rua tem suas especificidades, demandas e crenças. “Quando a gente tá falando de internet nós estamos falando de um ambiente de comunicação e ambientes de comunicação são áreas de disputa”.

As disputas, em geral, buscam sempre afirmar uma perspectiva. “Majoritariamente nas redes sociais a gente percebe o comportamento padrão de colocar mensagens que reforçam a minha perspectiva. E eu me junto com quem concorda comigo, e vou buscar pessoas que a reforçam”. Assim como na rua, o conflito pode partir de palavras para agressões físicas e morais. “Há um vínculo direto entre a agressividade nas redes com a colocada na rede, porque ele [espaço público] é produto entre a interação entre o que acontece na esfera virtual e na camada física”.

Isabel chegou a essas conclusões em 2015, quando fazia mestrado na linha de pesquisa de Educação e Comunicação no Centro de Educação da UFSC. Na dissertação de título “Internet e Educação: Aproximações inspiradas pelos movimentos sociais articulados em rede para a formação crítica de sujeitos”, ela analisou tweets que falavam sobre o Movimento Passe Livre — movimento social brasileiro que defende a tarifa zero no transporte coletivo que ganhou notoriedade com os protestos de 2013. Para isso, ela impôs filtros, buscando aqueles com palavras-chave — eu acho, acredito… — que abrissem espaço para um diálogo. Concluiu que 80% deles apenas reforçavam um ponto de vista, e desses, 50% continham violência, menosprezo e ironia.

UFSC e os retratos da “Balbúrdia”

De 2015 para cá, parece que esse cenário continua a se repetir nessas ruas virtuais. Um discurso que qualifica Universidade Federal de Santa Catarina como um local de balbúrdia ganha força. No Twitter, encontram-se internautas que questionam: “Os alunos vagabundos da UFSC só sabem fazer festa?”. Ou ainda mais violentos: “Borracha nos vagabundos”, citando uma notícia que falava da greve estudantil que ocorreu durante 37 dias na universidade em 2019, contra o corte que o governo federal aplicou nas verbas para a educação.

Toda essa situação provoca a insegurança de alguns alunos, professores e servidores. “Toda vez que eu atravesso a rua perto da UFSC, eu tenho medo de ser atropelado por alguém pensando ‘eu vou matar esse maconheiro, vagabundo, desgraçado’”, conta outro usuário.

Dentro dessas ruas — ou melhor dizendo, bolhas — esse discurso é aceito e naturalizado. “Em alguns ambientes, a imagem da UFSC é pejorativa, preconceituosa, que não representa toda a universidade. Mas dentro daquele espaço de pessoas que concordam com aquilo, esse discurso vai colar, porque não vai haver espaço para contraponto”. Entretanto, quem são as pessoas que ocupam as ruas da UFSC? O que produzem aqui dentro?

Segundo dados da Secretaria de Planejamento e Orçamento (SEPLAN), a universidade tinha, em 2018, 41.290 alunos, 2.649 docentes e 3.165 técnicos administrativos em seus 5 campi. Eles produziam 21.850 ações de extensão, 2.785 projetos de pesquisa e participavam de 624 grupos de pesquisa. De todo esse universo, vamos conhecer quatro histórias de pessoas que são UFSC.

Pessoas UFSC

Bruno Duarte e o quilo de tomate

aluno UFSC
Bruno Duarte.

Quanto você pagaria por um quilo de tomate hoje para não perder a sua saúde daqui a dez anos?

Esta pergunta se repete em diversas ruas de Florianópolis e Chapecó. Ela faz parte de uma pesquisa de economia comportamental de um projeto do curso de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina em parceria com a Universidade de Chapecó. A iniciativa é do Observatório Regional de Energia e Economia do Meio Ambiente (ROEEE-UFSC). Nele, trabalha o jovem Bruno Duarte, de apenas 18 anos, estudante de economia da UFSC.

“É uma pesquisa que mistura consumo de alimentos orgânicos e economia, e a gente escolheu o tomate como representante”. Para isso, o estudante de economia e outras duas voluntárias do projeto colocam-se no lugar de entrevistadores, em uma atividade que seria executada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que desenvolvem censos que eles estudam em suas aulas. “Agora a gente está sentindo na pele como é entrevistar e ser entrevistado”.

Conforme o Panorama do Consumo de Orgânicos no Brasil, elaborado pelo Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), o consumo de alimentos sem adição de agrotóxicos aumentou nos últimos anos: passou de 15%, em 2017, para 19%, em 2019. O levantamento questiona a ingestão de produtos como estes nos últimos 30 dias. Mesmo assim, nas ruas, Bruno e outros estudantes encontraram uma realidade diferente. “A gente consegue ver o desconhecimento das pessoas sobre produtos orgânicos”.

Essa pesquisa está longe de ser a única atividade desenvolvida pelo ROEEE. “A principal atividade do ROEEE, hoje, são os boletins semanais que monitoram o preço dos combustíveis em Santa Catarina e nos estados brasileiros”. Com uma câmera de celular, a sala com parede branca de tijolinhos se torna um estúdio improvisado para Bruno e as colegas darem vida aos boletins em vídeo. “É uma nota clara, objetiva, para que pessoas que não estudam isso possam entender”.

Segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 53% dos estudantes brasileiros de 15 anos não têm conhecimentos básicos financeiros. A desinformação sobre os temas econômicos são prejudiciais até mesmo para o funcionamento de sociedades democráticas. “Os cidadãos precisam desde a pré-escola compreender como funcionam as organizações do Estado, onde eu obtenho essas informações (taxa de juros, preço da gasolina, contingenciamentos), se nós queremos uma sociedade mais democrática”, afirma Carlos Augusto Locatelli, jornalista, mestre em Economia pela UFSC e doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Bruno não se conformava com esse desconhecimento sobre o funcionamento da economia brasileira e mundial. “Eu sempre tive um interesse sobre o dinheiro. Por que o dinheiro? O que a gente faz com ele? As relações mais políticas, o que está por trás dessa acumulação de capital, no que se pautam as relações entre países? Qual a função de um governo?”.

A escolha era óbvia, decidiu cursar Economia. Para vir estudar na UFSC, o gaúcho de Erechim teve que deixar a casa dos pais. “Tem que bater as asas, não é?”. Desde 2018 na Ilha de Santa Catarina, muita coisa já mudou na vida dele. “A minha fala é um ‘bah’, um ‘tchê’, mas também um ‘trem’, um dialeto mais puxando o ‘R’. É uma mistura. E o ‘manézinho’ às vezes puxa sem saber, sem querer”.

Algumas coisas permanecem as mesmas. O escotismo é uma constante na vida do estudante de economia desde 2008. “Acho que meu envolvimento com a comunidade, minha percepção de meio ambiente e ecologia, e o pensar no próximo vêm tudo do movimento escoteiro”. Quando se mudou para Florianópolis, Bruno logo correu atrás de encontrar um novo grupo. Por sorte, um amigo lhe apresentou o Grupo Escoteiro Desterro (GDE) que fica na UFSC, e existe desde 1980. “Ele [GDE] tem uma pegada mais comunidade, e isso casa com projeto de extensão, para fazer links e trazer coisas que a gente aprendeu na faculdade”. Por isso, Bruno nem pensa em deixar o movimento de lado.

A rotina de Bruno é bem corrida. “Eu tenho aula todas as manhãs e duas noites. Às vezes, acaba se tornando meio puxado, mas nada do que uma meia noite às seis a gente não consiga resolver”. As tardes são dedicadas ao trabalho no ROEEE, e, no sábado, divide o dia entre aulas de francês e encontros do grupo de escoteiros.

Mesmo com um dia a dia intenso, o estudante mantém o sorriso e o bom-humor. “Conforme a água vem chegando, a gente vai nadando na direção”. A suavidade e positividade de Bruno ficam claras no vídeo abaixo:

Marco Antônio Vieira Valente: o rolo compressor

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Print screen do pen drive de músicas de Marco.

Esta imagem contempla algumas das músicas que Marco Antônio Vieira Valente escuta quando está indo trabalhar. A identidade musical define muito bem quem é ele, alguém que viveu sua adolescência nos anos 70, época do classic rock — revista britânica que divulgava bandas de rock em ascensão. “Eu tinha um vizinho que um dia chegou com um disco para mim. Era o Black Sabbath volume quatro. Eu comecei a sentir que tinha linhas melódicas diferentes e eu comecei a gostar daquilo”.

Daí para frente, o carioca foi cada dia mais ligando-se à música, principalmente ao rock fusion — uma mistura de jazzrock e música erudita. O jovem começou a desejar fazer o que antes só admirava e apreciava, ganhou seu primeiro baixo da avó. “Eu me apaixonei. É como namoro, começou devagar e tal. Comecei a ter aula de baixo no Rio. Comecei a descobrir os instrumentos. Desde que eu botei o meu primeiro baixo na mão ele se tornou um sacerdócio para mim, ele é sagrado”.

Em 1977, a família deixou o litoral do Rio de Janeiro para ir morar em Santa Catarina, mais especificamente Florianópolis. “Eu tinha 16 anos e eu sei que fiquei sem chão, porque não existia professor para me dar aula naquela época”. Mesmo assim, continuou a estudar o instrumento por conta própria.

Cinco anos depois, Marco viu a necessidade em se profissionalizar, entrou para o curso de Educação Artística habilitação em Música na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Entretanto, na época, essa graduação na UDESC privilegiava instrumentos como flauta e baixo acústico, por exemplo. “Quando eu cheguei com um baixo elétrico, eu era um E.T.”.

Até 1983, viveu o sonho de se sustentar pela música, mas a falta de regulamentação e a incerteza fizeram-no buscar uma fonte de renda fixa como servidor público federal. Ele começou a trabalhar no Departamento Nacional de Produção Mineral.

Mesmo em outro ramo, Marco jamais largou o baixo ou a música. Inconformado com a falta de regulamentação trabalhista para os músicos, buscou em grupos de apoio construir uma legislação que os assegurasse. “Eu participei de várias tentativas de criar um sindicato dos músicos, associação e por aí afora”. Esse ideal também o fez pedir remoção do cargo que tinha para um de onde pudesse ajudar os colegas, por isso chegou até o Departamento Artístico Cultural da UFSC em 1997. Em seus primeiros meses ali, ajudou no Coral da UFSC, grupo que, em 2019, comemorou 50 anos de existência, proporcionando a perpetuação da música coral.

Marco também estava disposto a inovar. No final da década de 90, surgia o “Projeto Acústico às 12:30”. Semelhante ao Projeto 12:30, mas adaptado às necessidades do som acústico. “O projeto passou por vários espaços: o Auditório Ovelha do Centro de Convivência, o Centro Ecumênico e, por fim, o Teatro da UFSC”. Pela falta de verba, as apresentações pararam de acontecer em 2012. Em meio a tudo isso, o músico parecia a pessoa certa para coordenar o palco e as apresentações do 12:30. O convite aconteceu em 2000, e ele não pestanejou em aceitar.

No comando desses projetos, ele finalmente viu seus ideais postos em prática. “Ver colegas meus se apresentando é muito bom. Principalmente com uma estrutura que normalmente eles não dispõem”. O Projeto 12:30 existe desde 1986, com o objetivo de dar oportunidades para artistas catarinenses, assim como promover o acesso à cultura para a comunidade tanto acadêmica, como da Grande Florianópolis. Hoje, o palco ganha vida quinzenalmente nas quartas-feiras, em frente ao Centro de Cultura e Eventos.

Ao longo dos seus 33 anos de existência, ali passaram muitos músicos, atores, poetas e dançarinos. Até mesmo Marco teve oportunidade de se apresentar nele. “Toquei algumas vezes com algumas bandas que participava. E fiz participações em alguns shows”.

Ao longo de quase duas décadas à frente do projeto, Marco ficou iconizado. “Eu acabei virando um Avatar”. Em vias de se aposentar, o músico temia pelo fim do projeto, uma vez que trabalhava, praticamente, sozinho. Por sorte, em 2018, Bianca Kaiser chegou ao DAC, trazendo com ela sua paixão pela música. Em conversas de corredor, ele foi sondando a nova colega de trabalho até decidir convidá-la para assumir seu cargo em 2019, e ela topou na hora.

“Por entendê-lo como um projeto importante para o cotidiano da UFSC, eu me senti na responsabilidade de dar continuidade. Ele é o principal projeto que dá sentido ao meu trabalho hoje, um norte para mim”, conta Bianca. A continuidade do 12:30 deixou assim de ser uma preocupação.

Outras indignações continuam latentes, relacionadas a quem Marco é. Deficiente físico, vítima da Talidomida — substância sedativa que causa problemas congênitos se consumida durante a gravidez. “O deficiente no Brasil é muito mal assistido”. Mesmo sua deficiência atingindo apenas as mãos e braços, ele não poderia fechar os olhos para o problema de mobilidade na UFSC, bem como em toda Florianópolis. “Na qualidade de deficiente físico, eu compro muito a briga. É incrível como numa instituição que gera e compartilha conhecimento isso aconteça [problemas na mobilidade]”.

As calçadas quebradas, declives formados pela ação do tempo, rua de tijolos são provas visíveis da falta de acessibilidade na universidade. Com o celular em mãos, fotografa as irregularidades e denuncia sempre que possível. “Ainda bem que a minha deficiência me deixa ser um rolo compressor. E eu vou passar por cima”.

Diego Ernesto Marcelo Arenaza: o filósofo surfista

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Diego Ernesto Marcelo Arenaza.

A tarde do dia 29 de outubro foi peculiar em Florianópolis, especialmente nos arredores da UFSC. Uma forte ventania causou danos no campus e assustou quem estava nele. Mas o dia terminou calmo, com um céu em tons de rosa claro e ao som de música ao vivo no Experimenta — semana de arte da universidade. Uma metáfora perfeita para mim naquele dia. Por volta de quatro e meia de tarde, mesmo com o medo do vento e de uma possível tempestade, dirigi-me a uma aula de yoga no Centro de Educação (CED). Minha mente estava tão barulhenta quanto a ventania que havia acontecido, mas duas horas depois, saindo dali, já estava tão calma quanto o horizonte rosado que havia lá fora

Com uma camiseta branca e um short preto, camuflado em meio aos alunos, estava o idealizador do Projeto Yoga na Educação, Diego Arenaza, com quem conversei mais tarde no gramado em frente ao Centro de Comunicação e Expressão. Com uma cuia de chimarrão em mãos me contava sua história. “Sou como dizem na fronteira ‘dupla chapa’: argentino e uruguaio. Nasci em Buenos Aires, mas por ser filho de uruguaio, sou considerado uruguaio ‘ius sanguinis’”. Vivendo entre os dois países, descobriu uma paixão: “O surf entrou na minha vida quando eu era criança. Foi em um bom dia na praia dos anos 60”.

O período entre os anos 60 e 90 foram marcados pelas fortes repressões autoritárias na América Latina. “Eu era surfista e amava rock n’ roll”. Em 1976, ele resolveu surfar nas praias norte-americanas, mudou-se para a Califórnia, e lá encontrou uma nova paixão. “Descobri a filosofia, e a filosofia me abriu a cabeça. Eu vi que ela respondia os meus questionamentos essenciais”. Com bolsa de estudos, formou-se em 1980 pela University of California Santa Cruz.

Depois de formado, Diego voltou para o Uruguai, mas não conseguiu emprego. O verão do Caribe francês – mais especificamente a ilha Guadeloupe – o chamou para dar aulas de WindSurf. Mas em um verão de 86, conheceu um novo amor: Florianópolis. A convite do primo, ele veio passar alguns dias de suas férias na ilha, e o que era para ser um local passageiro se tornou sua casa. “Tem uma grande cidade, tem belas praias e surf, que é minha paixão primordial. Fiquei encantado”.

Para se manter na cidade, começou a trabalhar na Aliança Francesa. Como na Califórnia, a universidade parecia guardar algo para ele. Em 1988, entrou para o Mestrado em Inglês na UFSC. “Eu gosto muito de línguas estrangeiras”. O professor domina o inglês, espanhol, francês e português. “Dei muita aula pro extracurricular, francês, inglês, castelhano”. O que era para ser apenas um trabalho transformou-se em objeto de pesquisa. “Fiz um programa comunicativo para estudantes brasileiros adultos para o estudo de espanhol”.

Mas a história entre Diego e a UFSC não acabou na conclusão do Mestrado. Em 1993, começou a dar aulas no Departamento de Metodologia de Ensino. “Eu consegui relacionar a Filosofia com o ser professor e o ensinar”. Cerca de sete anos depois, ele deparou-se com uma metodologia baseada em uma filosofia que já lhe fascinava desde sua época de universitário, a Filosofia do Yoga.

No ano 2000, era professor aqui no CCE e praticante de yoga, um dia conheci uma linha de pesquisa oriunda da França, o RYE [Pesquisa sobre Yoga na Educação], que junta o yoga e educação, o yoga e a sala de aula.

Em contato com o RYE, Diego começou a se preocupar cada vez mais com os rumos do ensino brasileiro. “A gente consegue tornar essa coisa linda e nobre que é aprender em estresse. A UFSC mesmo é um oásis de neura e estresse”. Prova disso está dentro do Serviço de Atenção Psicológica (SAPSI) da universidade, instituição que presta acolhimentos, consultas psicoterápicas, terapia em grupos e um plantão psicológico para alunos, servidores e comunidade.

Em 2018, foram mais de 1700 pessoas atendidas e 3000 atendimentos. “O que leva muitas pessoas a procurar o plantão [psicológico] são crises de ansiedade”, relata Carla Schubert Sengl, psicóloga e técnica-administrativa do SAPSI.

A solução encontrada por Diego foi criar, em 2002, o projeto Yoga na Educação, que engloba desde um site até uma disciplina curricular. “É uma disciplina holística. Passa pelo corpo, emoções, concentração”. Durante seus 15 anos de existência, a disciplina “Yoga na Aprendizagem” formou mais de 400 alunos aptos a aplicar a metodologia em salas de aula de todos os níveis de ensino. Essa cadeira é única em todo o país, Diego tornou-se uma referência. “Eu comecei a ficar muito surpreso com a quantia de correspondência que eu recebo do Brasil inteiro e do exterior. Percebi que estava com algo valioso nas mãos, pois ajudava as pessoas”.

Enquanto a metodologia do RYE não chega às salas de aula brasileiras, Diego coordena — sempre que possível — projetos de extensão para ajudar a comunidade. Essa aula que eu frequentei faz parte dele, as sessões acontecem nas terças e quintas-feiras das 16:20 às 18 horas, de forma completamente gratuita. O filósofo surfista deixa um alerta para todos: “A nossa educação está falida, e a moçada tem sede de coisas novas”.

“Da enxada pro lápis”: a trajetória de Maria Moraes Andrade

“O primeiro passo da semente que eu plantei” — conta Maria Moraes, de 79 anos, quando pergunto sobre o que significa sua alfabetização.

A história começa muito antes dessa primeira semente. Dona Maria é natural de Criciúma e casou-se com José. A busca por terras levou-os para outros rumos. “Um sonho de um homem sonhador. Ele tinha certeza que a terra é a liberdade do homem”. Em 1977, o casal mudou-se, primeiramente, para Amazônia e, depois, para Rondônia, onde alicerçaram-se na cidade de Ariquemes, que fica a pouco mais de 200 quilômetros da capital Porto Velho. Em seu pedaço de terra, desenvolviam atividades agrícolas para sobreviver. O marido ainda não estava satisfeito, temia morrer antes que Maria se alfabetizasse.

“Tu me cobra que eu tenho que ler e escrever, mas se tu me conheceu assim, por que isso agora?”, dizia ela. “Nós somos em dois, mas não vamos ficar em dois, eu queria que tu ficasse alicerçada na leitura que te faz falta. Eu te dou todo o meu apoio.”, respondia o marido.

Os insumos para plantar a semente vieram da cidade. O marido dela trouxe para casa a notícia da abertura de um projeto para alfabetizar os idosos, o SESC Ler. Mesmo receosa, Maria aceitou o desafio, pois carregava com ela um sonho. “Tinha um sonho lindo: escrever poesia e cantar verso”. Antes de percorrer os 90 quilômetros até a cidade para sua primeira aula, olhou nos olhos do marido e falou rindo: “Eu tô largando a enxada para pegar no lápis”.

Além de enfrentar as dificuldades do aprender, Maria ainda sofreu o preconceito de ser uma pessoa idosa e ter que voltar à sala de aula. Ela não abaixou a cabeça e seguiu seu caminho sorrindo e cantando. “Tomo sol e tomo chuva, não reclamo a ninguém, sempre com o mesmo sorriso, que está é tudo bem”. Com essa energia, aos 62 anos, a estudante formou-se na quarta série. A realidade de Dona Maria está longe de ser um caso isolado. Segundo dados do IBGE, em 2018, havia 6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais que eram analfabetos.

Maria estava entusiasmada para seguir os estudos. Mas o sonho foi interrompido. “Meu marido adoeceu e nós tivemos que voltar para Santa Catarina”. Em 2005, em busca de melhor assistência médica, o casal mudou para Santa Catarina. “Mesmo doente ele se preocupava, falava ‘Como você vai perder suas aulas?’”. A doença venceu José, em maio de 2009.

“Em julho eu precisei sair para procurar fazer alguma coisa, porque a mente tem que ficar ocupada”. Encontrou a sede da Educação para Jovens e Adultos (EJA), no Centro da Florianópolis, mas não se adaptou à turma. “Dentro da sala de aula tinha muitos jovens. Umas crianças muito agitadas”. Os professores a aconselharam a procurar uma unidade específica para alunos com mais de 50 anos, polo que fica dentro da Universidade Federal de Santa Catarina, no Núcleo de Estudos da Terceira Idade (NETI).

“É uma educação mais popular”, afirma a professora e articuladora do EJA no NETI, Marilúcia dos Santos Marques. Desde 2009, a prefeitura selou um acordo com a UFSC, a fim de usar a estrutura do NETI para as aulas. O EJA supre os anos do ensino fundamental. Neste polo, em específico, o ensino é dividido em dois segmentos. O primeiro dedicado para alfabetização e o segundo dedicado às séries finais. “O nosso currículo é ‘pos factum’, quem escolhe é o aluno”. Ali, as disciplinas trabalham com a pesquisa como princípio educativo, em que o aluno traz um problema e a partir daí são dados os conteúdos.

Após anos de luta, Dona Maria concluiu o ensino fundamental e se alfabetizou. Mas aquilo ainda era pouco para ela; queria cursar o ensino médio. Como o CEJA não tinha uma unidade dentro do NETI, ela, seus colegas e professores resolveram batalhar pela causa. “Fizemos uma cartinha [abaixo-assinado] e levamos para a sede do CEJA, e no ano seguinte, eles mandaram os professores”. Em 2017, ela e mais sete colegas fecharam o ciclo do ensino básico.

Era hora de botar os conhecimentos adquiridos em prática. No mesmo ano, a estudante matriculou-se em disciplinas oferecidas pelo NETI. O núcleo é a primeira “universidade para idosos” do Brasil, criado em 1983. Nesse espaço são ofertados diversos cursos e oficinas para os estudantes, como dança, idiomas, nutrição, canto, arte, yoga.

Por semestre, a instituição atende 500 alunos que podem se inscrever em até 2 cursos. “O NETI tem como objetivo ressaltar o protagonismo da pessoa idosa, a gente não quer infantilizá-los de forma alguma”, ressalta Fernando Flemming Bohn, técnico administrativo do núcleo.

Foi dentro do NETI que Dona Maria encontrou apoio para concretizar o sonho de criança: escrever um livro de poesias. “Aquilo na minha cabeça já estava escrito há anos, mas escrever como se eu não sabia”. Agora, dominando a arte das palavras, só era preciso juntar o acervo que havia reunido ao longo da vida por conta de uma professora do SESC Ler. Isso porque a estudante sentia-se insegura sobre a qualidade da sua escrita. “Eu escrevia e pensava ‘Isso não vai dar em nada’ e ‘tuf’ jogava no cestinho de lixo”.

A professora, que assistia à cena, resgatava os versos de Maria do descarte. Na cerimônia de conclusão da quarta série, a educadora entregou a pasta com as poesias para aluna e fez um pedido: “Não rasgue e jogue fora as suas memórias”. Com a conclusão do período de edição, o livro foi lançado no dia 18 de outubro de 2019 com o título: “Da enxada pro lápis”.

Três dias antes do lançamento, eu me encontrei com Maria na sala de reuniões do NETI. Ela parecia não acreditar que aquilo era real. “Eu não acredito que estou sendo entrevistada sobre meu livro”. A alegria de ser entrevistada fica clara no vídeo abaixo:

Enquanto conversávamos, a mesa ia se enchendo com as amigas e professoras que participaram de sua jornada. Todas traziam palavras doces sobre a senhora. “Somos amigas até debaixo d’água”, afirma Cassilda Maria Nascimento, de 77 anos. Além de histórias, aquela mesa também estava repleta de sonhos e expectativas.

Entre sorrisos e risadas, Cassilda conta que quer cursar Biologia. “Não sei se é porque a professora era muito boa ou porque a matéria é muito boa”. Já Dona Maria, avisa que novos livros estão por vir. “Eu tenho uma bagagem grande de história, porque os aventureiros são assim mesmo”.

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Por Leon Ferrari – Fala! UFSC

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