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Resenha: Olhos do Deserto

Resenha: Olhos do Deserto

Por Daniel Benites – Fala!Cásper

 

Em cartaz desde 24 de maio, o longa “Olhos do Deserto”, dirigido pelo canadense Kim Nguyen, aborda uma situação incomum: um romance similar a Romeu e Julieta sob o olhar de um drone, sendo este o protagonista da história.

O filme se passa em dois locais simultaneamente. Gordon, interpretado por Joe Cole, trabalha em uma organização de segurança e vigilância em Detroit, responsável por monitorar, dentre outros, um oleoduto em uma aldeia no norte da África. Ele trabalha no período noturno em Detroit, quando já é dia no oleoduto. Sua função é monitorar drones que fazem a vigilância do local, pequenos robôs que percorrem a área e detectam perigos ou possíveis invasores.

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Tendo terminado recentemente um relacionamento amoroso, Gordon acaba notando a presença constante de uma jovem nos limites da propriedade. Esta é Ayusha (Lina El Arabi), a outra protagonista da história, habitante da aldeia próxima à reserva e obrigada pela família a se casar com um homem bem mais velho, contra a sua vontade. Ayusha vive um romance com um operário, Karim, algo que Gordon descobre após observá-la por uns dias pelo drone (o qual capta imagens e vozes com perfeita qualidade). Os dois pretendem reunir uma certa quantia em dinheiro para fugir da África.

Ainda que se entristeça ao descobrir que Ayusha já esteja comprometida com outro homem, isso não é suficiente para que Gordon não resolva ajudá-la a fugir de sua aldeia e por isso, aproxima-se dela por meio do robô para lhe passar informações.

Apesar de se assemelhar ao romance de Romeu e Julieta, tendo inúmeras referências a esta história ao longo do filme, trata-se de uma história de amor a distância e idealizada. Em vários momentos, Gordon busca se relacionar com mulheres, frequentemente por meio de redes sociais, mas sempre sem sucesso. Ainda assim, nutre pela habitante da aldeia uma idealização amorosa bastante significativa, a qual o move a ajudá-la e a trazer enfim emoção ao seu trabalho.

Ao longo de toda a obra é notável como Gordon é mais um dos milhões de seres humanos desencantados com a própria vida, carreira e rotina monótona. Durante as noites ele se entende como um inútil ao vigiar o oleoduto, sentindo-se como parte de uma máquina e sem utilidade alguma na sociedade onde vive. Durante o dia, sua sensação de solidão não é muito diferente, ao envolver-se com mulheres que conheceu pela Internet, mas que nunca o aceitam como ele é de seu jeito.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que fracassa ao tentar se encontrar com pessoas por aplicativos digitais, possui uma paixão platônica por uma pessoa que vive a milhas de distância e a quem nunca se encontrou pessoalmente na vida real, apenas pelos olhos do robô. O próprio título da obra remete a isso, “Olhos do deserto” não se refere apenas ao deserto físico, mas também à solidão vivida por ambos os protagonistas, Gordon e Ayusha. Os dois vivem praticamente sem ajuda ou atenção devida de ninguém, tendo de enfrentar sozinhos seus próprios problemas, algo que pode ser metaforicamente compreendido como um deserto.

Há diversas metáforas presentes no filme, como por exemplo o fato de Gordon apelidar a jovem de Julieta ou então quando ajuda, por meio do robô, um cego a chegar ao seu destino sem que este perceba que não está acompanhado de um ser humano e sim de um drone. Entretanto, pelo fato de ser sim um ser humano, mesmo que por trás da máquina, pode-se concluir que o cego conseguiu ver nele o que muitas mulheres e colegas de trabalho não conseguiam, remetendo a um pensamento muito profundo: são necessários olhos para realmente ver a beleza das pessoas? Poderia aquele velho enxergar no deserto interior de Gordon?

A sequência de cenas do filme permite ao espectador uma experiência que mescla suspense, drama e sutis toques de comédia. Ainda que as atuações sejam convincentes, algo que falta na obra é a construção da relação da personagem Ayusha com sua família e seu noivo arranjado, relação esta pouco abordada.

Mesmo assim, em ambas as regiões na qual se passa o longa, é possível se reconhecer em um deserto, aquele em que praticamente todos os seres humanos se reconhecem: a solidão.

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