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Resenha: Praça Paris

Resenha: Praça Paris

Por Daniel Benites – Fala!Cásper

 

Mal apagam-se as luzes do cinema e surge na tela uma paisagem litorânea e simples, por onde caminha uma mulher, ao som de um fado. Esta mesma mulher chega em um penhasco de vista para o mar, repleto de ondas.

É assim que começa Praça Paris, mais recente filme dirigido por Lúcia Murat em cartaz. Trata-se de um misto entre drama, suspense e thriller psicológico, estrelado pela aclamada Grace Passô e pela portuguesa Joana de Verona.

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O longa conta a mesma história sendo constantemente alternada por dois pontos de vista. A lusitana interpreta Camila, uma psicóloga estrangeira que trabalha na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que realiza sua pós-graduação na mesma. Grace protagoniza Glória, a ascensorista da universidade, a qual inicia uma terapia com a doutora. Em sua primeira sessão juntas, ao ser questionada pela psicóloga sobre seus problemas, Glória lhe responde que são muitos. A começar pelo fato de que era estuprada pelo pai quando pequena, ao fato de seu irmão ter se tornado um traficante e absolutamente vingativo (ainda que protetor em relação a Glória). Não bastasse isso, Glória também vive na periferia dos morros do Rio, onde o tráfico e a criminalidade não podem ser descritos como bem controlados.

Aos poucos, Glória vai expondo mais sobre sua vida para Camila, os problemas e a violência nos arredores de sua comunidade, os problemas com o irmão Jonas, preso, mas que ainda assim comanda ataques a policiais e a moradores da favela considerados “dignos de punição” por ele e demais traficantes. A psicóloga a princípio, trata a situação com distância e certa frieza, acreditando que a relação entre ambas deve sempre se manter no âmbito profissional. Todavia, conforme Glória se expõe, Camila passa a se sentir afetada pelas conversas com a ascensorista. Em um primeiro momento, a terapeuta se vê como alguém capaz de ajudá-la. Porém, a intensidade com que Glória descreve seu irmão e as situações pelas quais muitos se submetem ao viver nas periferias afetam em demasia o emocional de Camila, a qual se sente tanto ameaçada por Jonas como passa a se imaginar nas descrições da paciente.

Ao mesmo tempo que Camila se sente cada vez mais amedrontada e querer se ver distante de Gloria, esta pensa que está desenvolvendo uma amizade com a terapeuta. Deste modo, ainda que a portuguesa deseje a todo custo se afastar da ascensorista, imagina o que pode acontecer caso isso ocorra, possivelmente aguçando os instintos vingativos do irmão de Gloria, ou até mesmo da própria.

Cria-se assim um drama cujo objetivo é retratar a vida de diversos moradores atuais das periferias do Rio de Janeiro, bem como um mistério vivido pela psicóloga estrangeira: seria Gloria um risco assim como seu irmão.

A partir deste ponto e roteirizado a fim de gerar suspense em qualquer espectador, Camila passa a viver um desespero constante, acreditando que Glória ou alguém a está seguindo constantemente, com certeza, sem boas intenções.

Apesar de no início do longa a trama parecer um tanto confusa, com constantes alternâncias de cenas e vivencias das protagonistas, é com rapidez que o espectador consegue se contextualizar dos conflitos e entender o que acontece. E conforme a obra avança, o mistério tecido se torna cada vez mais envolvente, garantindo assim a plena atenção da plateia.

Entretanto, não há como negar que o filme se deixa levar muitas vezes por estereótipos, tais quais a frieza apresentada pela terapeuta gringa, o modo de agir dos moradores da favela onde Glória mora, e o próprio comportamento da mesma. Felizmente, o longa não permanece centrado nestas características dos personagens por muito tempo e a diretora conseguiu focar a trama para o drama psicológico de ambas as protagonistas, acompanhado por um crescente suspense.

Das muitas críticas sociais apontadas na obra, uma das quais vale a pena citar é a banalidade com a qual os moradores de comunidades no Rio (não devendo ser muito diferente em diversas outras localidades) aparentemente lidam com situações extremas como a criminalidade e a violência, exercida tanto pelos traficantes como pela polícia, incluindo também a violência doméstica vivenciada por Glória quando pequena. Ao mesmo tempo, o filme retrata também o constante medo vivenciado por qualquer um que não esteja próximo o suficiente de tais situações, mas que se sinta constantemente ameaçado para passar por algo similar, comparando deste modo a psicóloga Camila com a classe média da região urbana.

É ainda possível traçar um paralelo entre a carioca e a portuguesa como se ambas fossem, respectivamente, o brasileiro e o estrangeiro. Como não é difícil julgarmos com frequência os hábitos alheios, mas ao passar a compreender seus problemas, perceber como a situação vivenciada pelo outro é realmente complicada?

O título do filme também é enigmático. O que pode ser entendido é como se “Paris” representasse a visão estrangeira sobre o Rio, ou Brasil em geral. Uma visão de uma terra romântica, calorosa e agradável. Entretanto, tal estereótipo é logo quebrado a partir do ponto em que a estrangeira vivencia cara a cara o que ocorre de fato.

Retornando à cena inicial do longa, quando a protagonista lusitana se encontra diante de um penhasco à beira-mar, não se trata de uma sugestão de suicídio, mas sim mostra que ela (assim como os portugueses ao virem para o Brasil talvez?) buscava algo que não encontrava perto de si e desejava viajar pelo mundo para encontrar.

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