O Rap Pelo Rap - um TCC que virou documentário
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O Rap Pelo Rap – um TCC que virou documentário

O Rap Pelo Rap – um TCC que virou documentário

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Pedro Fávero é recém formado em Rádio e TV pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e nós fomos atrás dele por causa do seu TCC (trabalho de conclusão de curso). No final de 2012 a ideia para o seu último trabalho da faculdade foi a de registrar e mostrar a história e o cenário do Rap nacional, por meio dos depoimentos e opiniões de compositores, cantores e Mc’s.  O documentário conta com a participação de inúmeros rappers, desde RZO e Racionais, até os mais atuais, como Síntese ou Haikaiss. Pedro Fávero juntou relatos e fez um panorama entre os primórdios da cena e o rumo que ela segue na atualidade.

Em uma conversa via Whatsapp, Pedro trocou uma ideia com a gente. Confira o nosso bate-papo e entenda melhor sobre o que estamos falando:

01 – Cara, algumas pessoas falaram que o documentário Rap Pelo Rap imortalizou essa atual cena do Rap e do Hip Hop nacional. O que você tem a dizer sobre essa afirmação?

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P.F: Então, eu acho que qualquer registro já imortaliza a cena. Qualquer registro imortaliza aquilo que está sendo retratado, e quando eu tive a ideia de fazer o documentário eu senti a falta de um registro  do rap nacional, que fosse além dos videoclipes e das músicas em si, porque sem a ideia o Rap é apenas uma música, e acredito que ele vai muito além disso. Eu sentia falta de um registro que mostrasse as ideias de como os Dj’s e Mc’s pensam sobre o Rap. No momento da banca do TCC meus professores falaram “olha, você tem um filme em mãos, inscreva-se em festivais de documentários…” – e também pude ouvir pelos próprios Mc’s  que me diziam que esse material vai virar uma cartilha para as gerações futuras, uma grande referência – e foi aí que eu tive a real noção do que eu tinha feito.

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Pedro Fávero e Síntese. Foto: facebook RPR.

 

02 – Você se baseou em outros documentários, tanto internacionais quanto nacionais, para gravar o Rap pelo Rap?

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P.F: Eu tomei como base, principalmente, documentários independentes, que me mostravam que é possível fazer algo de qualidade com pouca grana e com uma pegada bem autoral. Levei como referência o Mr. Niterói, que fala sobre a história do Black Allien. Quando eu terminei de assistir apareceu nos créditos – direção, roteiro e edição: Ton Gadioli. Daí pensei que se eu dominasse todos esses processos, eu conseguiria fazer um filme. Outro filme que me inspirou foi o Mestre do Viaduto, que fala sobre a batalha de Mc’s que rolava em BH, e também o Freestyle, do Pedro Gomes.

Na questão da estética e da linguagem, os documentários gringos que me inspiraram foram basicamente três: The Art of 16 bars, Punk is Not Dead e American Hardcore. São documentários que de baseiam em um movimento, com temas como “o Rap e a Mídia”, “o punk e a mídia”, e aí as pessoas debatem sobre isso.

03 – Qual a sua opinião sobre o mercado audiovisual no Brasil?

P.F: O mercado audiovisual está longe de ser o ideal, né. Eu lembro uma vez que eu vi uma entrevista com algum documentarista, e foi perguntado pra ele “o que você acha dessa profissão?”, e ele respondeu “que profissão?”. No Brasil ninguém recebe por fazer documentário. No Brasil não existe uma indústria cinematográfica, uma grande quantidade de dinheiro que circula nesse meio. Os grandes filmes que são feitos aqui, que tem cachê justo pra toda a equipe, são feitos com edital de governo, com patrocínio, programas culturais da Ancine e etc. Então, na minha opinião, nunca passamos por uma época que tivesse tanto investimento na área audiovisual por parte do governo, mas ainda assim é triste que a gente fique preso e limitado por editais que são definidos por empresas e tal. Mas fora isso, cada vez mais eu vejo novas produções independentes, seja filme, série ou um videoclipe, com qualidade.

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KL Jay em entrevista para o documentário. Foto: facebook RPR.

 

04 – O que você pensa sobre as diferenças entre documentário e cinema?
P.F:
Acho que tudo é cinema. A diferença seria entre documentário e ficção. No final das contas, os dois são histórias, com a questão da narrativa, de prender o espectador, tem que ser interessante. Mas acho que vale ressaltar algumas diferenças. No documentário, por exemplo, é uma coisa que com pouco dinheiro você consegue fazer uma produção de qualidade, mas pra uma ficção existem gastos que não tem como fugir. Na ficção você meio que já tem a cara do filme a partir do roteiro, mas num documentário, que depende da entrevistas, você nunca sabe o que a pessoa vai responder, por isso você só vai ter a noção do resultado final somente após as gravações.

05 – Você acha que hoje nós sofremos uma crise da informação, mesmo com o imenso conteúdo disponível na internet?

P.F: Acho que a informação nunca esteve tão disponível, né. A informação tá aí, mas acho que o acesso a ela chegou muito rápido, muito repentino, e por mais que tenhamos infinitas fontes, a nossa cultura ainda vai demorar pra mudar. Por exemplo, hoje nós temos Netflix, sendo que qualquer televisão smart já vem com o Netflix embutido, e ali, de cara, nos deparamos com um acervo de mais de 100 documentários. Antes, ninguém tinha esse acervo. Acho que a longo prazo a galera vai mudar bastante a mentalidade e vai começar a pesquisar em lugares diferentes e não aceitar tudo que é imposto.

06 – Por que você decidiu gravar o Rap pelo Rap?

P.F: O vídeo literalmente saiu do meu TCC, e na época eu estava cada vez mais interessado pelo Rap, não só pela parte musical, mas também pela ideologia, todo o movimento que acontece por trás da música. Daí eu comecei a frequentar ainda mais os shows, rodas de rima e de improviso. Tudo isso em 2012, quando eu tinha que escolher algo para fazer no meu TCC, e por isso pensei que seria uma grande oportunidade de fazer algo do jeito que eu queria, com um tema que eu gosto e que estou interessado em saber mais. Mas como já falei antes, outro motivo que me incentivou foi a falta de referências, pois comecei a ver que o Rap é muito rico e pouca gente estava falando sobre ele com seriedade e profissionalismo. Não tinha muitas declarações do Rap falando sobre o próprio Rap, que é justamente o título do documentário.

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Sandrão em entrevita para o documentário. Foto: facebook RPR.

 

07 – Qual foi a maior dificuldade pra gravar e produzir esse documentário? Foi feito de forma totalmente independente?

P.F: Foi uma filmagem totalmente independente, sem nenhum patrocínio ou edital. Foi muito colaborativo, então no começo eu não tinha nem câmera, e aí consegui a ajuda de um veterano meu, o Diogo Yudi, que me emprestava a câmera e depois me passava as imagens, e depois um outro amigo me emprestava o gravador de áudio… Daí com o tempo eu fui comprando os equipamentos, mas sim, com certeza foi bem independente, foi cinema de guerrilha. Em algumas gravações somente eu comparecia, mas as gravações rolaram super bem, fui muito bem recebido pelos Mc´s, Dj´s e produtores. Eles estavam com muita vontade de falar sobre o Rap, até por que pouca gente vai atrás deles, então a gravação em si foi muito boa, muito satisfatória, aconteceu muito mais do que eu imaginava, eu entrevistei muita gente que eu nem imaginava conseguir. A parte mais difícil foi a edição, por que eu tinha 42 entrevistados, que renderam 6 horas de entrevista e tinha que transformar tudo isso em um filme que fosse legal de assistir. Foi quase um ano inteiro de edição, pra ver o que entrava e o que não entrava, com muita responsabilidade para manipular os depoimentos. A primeira versão do filme tinha 2 horas e eu não conseguia tirar nada, daí tive que pegar a opinião de várias pessoas e resolvi cortar 40 minutos e transformar numa série para a internet, e aí fui encontrando meios de sair com o filme dali. Agora, o filme tem 1 hora e 15 minutos, e tipo assim, 50% do processo de um filme é você produzir e finalizá-lo, os outros 50% é a divulgação, por que se você faz um filme e ninguém assiste, ele não existiu pra ninguém, então quanto mais gente ver o filme, mais ele vai se perpetuar e as ideias vão se imortalizar, como falamos anteriormente. Daí entra todo aquele processo de me inscrever em festivais de documentário, sendo reproduzido em São Paulo, Salvador, Goiânia, Amapá… Depois até o Sesc veio me procurar, e o documentário vai estrear dia 20 de novembro no Sesc TV. Era uma coisa muito nova pra mim, mas tudo rolou muito bem.

Assista ao primeiro episódio da série que saiu do documentário e foi para o YouTube:

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DVD físico. Foto: facebook RPR.

 

08 – O que é a Fitaria Filmes?

P.F: A fitaria filmes é minha produtora independente, e na real ela surgiu quando eu terminei o filme, e percebi que faltava uma vinheta no começo! Todo filme tem uma introdução, um suspense antes de começar, e aí eu imaginei uma produtora, coloquei esse nome, e na verdade só depois que o filme ficou pronto foi que eu abri a produtora, fiz um CNPJ e se tornou uma empresa que trabalha com audiovisual, focada em artes, música, e que conta com vários colaboradores.

09 – O Rap pelo Rap vai entrar em cartaz no cinema? Você pretende dar continuidade ao documentário, com novas edições?

P.F: Então, no ano de 2014 o filme passou em alguns cinemas por meio dos festivais, e este ano estamos fazendo exibições seguidas de debates em várias cidades do Brasil. Já fizemos em Minas Gerais, já temos planos pra fazer no Sul e em São Paulo mesmo. A ideia é rodar com o filme aonde a galera tiver interesse, e o filme está aberto para ir até qualquer lugar, muito mais para levantar questões, e não para dar respostas – o filme foi feito pra isso. Agora em novembro ele sai em DVD, vai sair em nosso canal oficial do YouTube também. A ideia é vender a preço popular também, de mão em mão, trazer isso pro cinema independente. O plano é esse, continuar divulgando o filme, vender o físico e viajar pra qualquer pico pra exibição.

E sobre o próximo filme, eu agora estou totalmente focado neste por que é o momento mais importante, que é o lançamento. Então eu tenho que estar totalmente focado agora nos DVD’s, nas publicações pela internet. Não falta vontade de fazer o segundo filme, não faltam Mc’s para um segundo filme… Só faltou aparecer mais a presença mulher no filme, por exemplo, mas agora eu estou me proibindo de pensar nisso pra não perder o foco. Agora é a hora mais importante para compartilhar e fazer com que o filme exista para muitas pessoas.

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Logo O Rap Pelo Rap. Foto: facebook RPR.

 

Queremos agradecer enormemente o tempo e a disposição do diretor Pedro Fávero pela entrevista. Vamos ressaltar que, esta sexta-feira (20/11), o documentário será exibido online por meio do link (http://goo.gl/SwhhpH). Pra quem mora em São Paulo, o documentário será exibido no Matilha Cultural, às 18:40h, na Rua Rêgo Freitas, 542 – República, e é de graça! Mas fica esperto por que a sala terá assentos limitados. Clique AQUI para acessar o evento oficial no Facebook.

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DVD. Foto: Facebook RPR.

 

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Por: Marcelo Gasperin – Fala!Universidades

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