O pretoguês e o preconceito linguístico no Brasil
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O pretoguês e o preconceito linguístico no Brasil

O pretoguês e o preconceito linguístico no Brasil

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O Brasil, assim como o idioma aqui falado, é fruto de um encontro de povos diferentes e, consequentemente, de idiomas diversos, que ajudaram a moldar a língua portuguesa na forma como conhecemos hoje. 

Apesar da riqueza linguística proveniente desse encontro, é sabido que as relações entre portugueses, indígenas, africanos e demais povos está longe de ter sido amistosa, tendo suas raízes refletidas até hoje, principalmente quando se trata de preconceito linguístico.

A marginalização imposta aos povos africanos acompanhou o desenrolar da história e despertou, assim como ainda desperta, um sentimento de inferioridade relacionado às contribuições provenientes do continente vizinho. No entanto, a africanização está presente no dia a dia de milhões de brasileiros, materializado como o que a professora e antropóloga Lélia Gonzalez chamou de pretoguês.

Segundo a própria Lélia, pretoguês nada mais é do que a marca da africanização no português falado no Brasil. Ou seja, o termo abarca tudo aquilo que se fala no Brasil por causa da influência das línguas africanas.

O pretoguês e o preconceito linguístico

Em termos de vocabulário, não é difícil identificar uma palavra ou outra que tenha origem africana, mas a africanização do português vai muito além e está presente até mesmo na boca de quem se recusa a reconhecer e a respeitar o pretoguês. Afinal, até o ritmo com o qual falamos, e que é usado para diferenciar o português do Brasil do português de Portugal, é herança da África. 

A forma como flexionamos a frase de acordo com o sujeito, a ausência de pronomes reflexivos, a tendência de não marcar o plural dos substantivos, a dupla negação, a troca do “l” pelo “r” (conhecida como rotacismo), são todos casos que caracterizam o que Lélia Gonzalez chamou de pretoguês e que está inegavelmente presente em nossa língua. 

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Exemplo do pretoguês. | Foto: Reprodução.

Essas marcas não são vistas como uma herança positiva e, na maioria das vezes, são associadas a uma linguagem de menor prestígio, tendo seus falantes, a parcela da população majoritariamente preta e desfavorecida, como constantes alvos de chacota, preconceito e exclusão social. 

Falar pretoguês não é feio, muito menos errado. A variante, assim como qualquer outra, caracteriza o povo brasileiro e merece respeito. Falar assim é reconhecer, diariamente, a contribuição que a África deixou para o Brasil.

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Por Millena Paz – Fala! UFPE

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