O que é preconceito linguístico?
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O que é preconceito linguístico?

O que é preconceito linguístico?

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O preconceito linguístico se baseia na ideia de que existe apenas um jeito “certo” de se falar e escrever a língua, desconsiderando e menosprezando as diversas variações linguísticas existentes.

preconceito linguístico
Quadrinho do Chico Bento. | Foto: Mauricio de Sousa Produções.

Como o preconceito linguístico é propagado?

Há diversas ideias enraizadas em nossa sociedade:

A ideia de que a língua portuguesa falada no Brasil deveria apresentar uma unidade

Ao reproduzir essa ideia, os sistemas de ensino tentam impor a norma linguística culta como a única maneira aceitável de se falar português, excluindo diversos dialetos, sotaque e gírias produzidas pelos mais diversos brasileiros.

Não existe uma unidade linguística no Brasil porque a língua foi adaptada às diferentes regiões, idades, situações socioeconômicas e graus de escolarização. Apesar de se falar português no Brasil, esse português apresentou um alto grau de diversidade e variabilidade devido à vasta extensão territorial e, principalmente, à injustiça social de nosso país.

A pronúncia das palavras deve ser de acordo como se escreve

Como representado na charge do Chico Bento, existe uma tendência nas escolas de obrigar o aluno a pronunciar as palavras “do jeito que se escreve” – novamente, como se houvesse apenas uma maneira de falar português, desprezando os fenômenos linguísticos da língua oral e impondo apenas uma pronúncia e sotaque legítimos.

Apenas em Portugal se fala português corretamente

Nosso português é, de fato, diferente do português falado em Portugal: temos novos sotaques, vocabulários, e até gramáticas. Mas isso não exclui o fato de que falamos português, o nosso português. Então de onde saiu a ideia de que o brasileiro não sabe falar português? No ensino da língua portuguesa nas escolas.

As regras gramaticais ensinadas na escola são as regras usadas em Portugal, não no Brasil. Aprendemos a falar português nas escolas como se fala em Portugal, mas a realidade brasileira é que no dia a dia ninguém fala do jeito que é ensinado. Como consequência, o brasileiro enxerga sua própria língua materna como difícil, pensando não saber falar a língua que fala diariamente – contraditório, não é? 

Apenas os conhecedores da gramática sabem falar bem

Essa é a ideia de que o que não está na gramática normativa, não é português. Mas, no Brasil, por motivos culturais, a maioria das pessoas plenamente alfabetizadas não desenvolve o conhecimento linguístico no nível da forma culta. Ora, crianças falam perfeitamente sua língua materna e conseguem se comunicar sem nenhuma dificuldade – mesmo sem conhecimento gramatical.

Suponho que esse preconceito apenas sustenta a desigualdade social: apenas os conhecedores da norma culta (os privilegiados com acesso à educação) sabem falar corretamente. Se não há dúvidas, dificuldades e ambiguidades na comunicação, por que desqualificá-la?

Quem nunca viu alguém desqualificar o argumento do outro por erros de português? Segue alguns exemplos onde erros gramaticais são usados para menosprezo:

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Preconceito linguístico ou preconceito social?

O preconceito linguístico não está necessariamente relacionado à maneira de como se fala, mas de quem fala de uma determinada maneira. Podemos perceber uma tendência de preconceito contra a variação do português de determinadas regiões.

De forma geral, há uma normalidade quando escutam o paulista falar, mas o sotaque nordestino vira piada entre a galera. Do ponto de vista linguístico, o fenômeno da variação dessas duas regiões é a mesma, mas por que apenas um vira piada? Porque a questão não é a língua em si, mas o preconceito em torno da pessoa que fala essa língua e a região onde essa pessoa vive.

Se o Nordeste é visto como atrasado e pobre pelo resto do Brasil – preconceito social – então sua língua também será atrasada e a pessoa que a fala não terá credibilidade.

Preconceito como forma da manutenção da desigualdade social

A educação de qualidade é um privilégio no Brasil. Segundo dados do IBGE de 2019, apenas 27,4% da população de 25 anos ou mais têm o ensino médio completo e 17,4% o superior completo. Por isso, inúmeros brasileiros pertencem à margem do domínio da norma culta do português e acabam deixando de usufruir serviços simplesmente por não compreenderem a língua representada – como é o caso do acesso à livros didáticos.

O uso da gramática normativa nos livros didáticos faz com que seu acesso seja restringido apenas pelos detentores de conhecimento culto, os privilegiados de educação de qualidade, mantendo, assim, a desigualdade social em que apenas uma pequena parcela da população usufrui de acesso ao conhecimento intelectual. 

Como não o reproduzir

Devemos ter consciência de que não existe uma maneira certa de se falar português e, então, não impor à sua maneira de falar como a única legítima.

Também não desqualifique a ideia e argumento proposto por uma pessoa apenas porque ela apresentou um erro gramatical – nem todos tiveram a oportunidade de acesso à educação de qualidade.

Mude de atitude, não aceite mais as velhas afirmações e estereótipos preconceituosos. Reflita, estude, entenda, conscientize-se e desprenda-se dos preconceitos que passam despercebidos.

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Por Gabriela Caloni Rampazzo – Fala! PUC

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