"O afeto faz parte da sala de aula": o drama da volta às aulas
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“O afeto faz parte da sala de aula”: o drama da volta às aulas

“O afeto faz parte da sala de aula”: o drama da volta às aulas

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No início do mês de julho, o Ministério da Educação divulgou as novas diretrizes para a volta às aulas presenciais no segundo semestre de 2020. Com isso, vários estados brasileiros iniciaram o debate e a criação de protocolos para concretizar o retorno nas redes públicas nos próximos meses.

Porém, ainda é uma pauta que divide opiniões entre os profissionais da área, e que envolve a vida e segurança de milhares de professores e alunos por todo o país.

volta às aulas
Professores refletem sobre a volta às aulas presenciais. | Foto: Reprodução.

Volta às aulas presenciais em escolas públicas

Entre as diretrizes publicadas pelo MEC, estão o uso obrigatório de máscaras, distanciamento de 1,5m entre os alunos e o não compartilhamento de objetos.

Porém, de acordo com Luciana Andrade, professora de matemática na rede estadual do Rio de Janeiro, os protocolos fornecidos até então são impossíveis de serem aplicados nas escolas públicas do país:

O governo estadual elaborou um protocolo de retomada das aulas, e é completamente absurdo. Quando eu leio, tenho a sensação de que eles estão dizendo que não iremos retornar esse ano, mas que não podem assumir isso publicamente. O que é proposto dentro do protocolo é inviável demais, com exigências absurdas que não podem ser cumpridas dentro do cenário atual da educação pública brasileira. Em uma sala com 40, 50 alunos, como iremos colocar os alunos dentro do distanciamento pedido? É impossível.

Situação atual

Porém, ainda não foram divulgadas as datas precisas de quando voltarão as aulas presenciais. As escolas públicas estão se organizando, adquirindo material e resolvendo questões administrativas, mas ainda sem previsão de um retorno concreto às atividades.

No plano de retomada do governo, ninguém é obrigado a retornar. Eles deixaram muito claro isso. O professor precisa estar disponível e trabalhar no período das aulas remotamente, como já está sendo feito, mas o Estado não obrigará nenhum deles a retornar para a sala de aula.

Outra questão que ficou muito bem resolvida no protocolo é que só haverá a retomada quando houver recomendação e bandeira verde da OMS. Então, não existe nenhuma previsão para quando isso vai acontecer, pois só voltaremos quando for seguro para nós.

Conclui Luciana.

A professora ainda cita que o descaso do governo em relação ao planejamento se prolonga desde o início das aulas remotas, e que não foi desconstruído até agora:

A rede pública ignorou completamente a condição financeira, social e emocional dos alunos, e isso é imperdoável. Tenho alunos que estão sem conseguir se alimentar, pois dependiam dos refeitórios das escolas para isso, que os pais perderam o emprego durante a pandemia, e são situações que foram ignoradas na hora de planejar essas aulas remotas.

E as escolas particulares?

Segundo Rafael Stocco, professor de geografia da rede particular no estado do RJ, não foi definido nenhum protocolo específico para a volta das escolas particulares, e que estão no aguardo de uma resposta do governo:

As escolas particulares não querem assumir a responsabilidade. Elas estão aguardando um aval do governo estadual e municipal. Mas, já estão criando esses manuais e roteiros de retorno com todas essas possibilidades, e ainda iniciarão uma série de treinamentos com os professores sobre segurança e tecnologias digitais, todos esses procedimentos, para que possamos nos adequar. Ainda assim, acredito que fique até o final do ano dessa maneira porque elas não estão dispostas a assumir o risco da retomada.

Diferente do cenário das escolas públicas, em que os professores não serão obrigados a retornar, Rafael menciona a pressão que os professores estão sofrendo para voltar às atividades presenciais nas escolas particulares, agravada pelo medo de perder o emprego em um período de grave crise econômica:

Houve uma reunião onde eu trabalho, e a escola perguntou quem se sentiria à vontade e seguro para retornar, que não participasse também do grupo de risco do Covid-19. Mas a grande maioria afirmou que voltaria, pois não ficou claro o contrário: e quem não se sentir à vontade em voltar? O que vai acontecer? Todos nós precisamos trabalhar e essa pressão nos faz aceitar essa condição de risco. Muitos não podem perder o emprego nesse momento, não existe nenhum tipo de suporte.

O que existe é uma pressão, por parte da escola e até mesmo interna. Eu não posso perder o emprego, vou precisar voltar. E como isso não fica claro, vou precisar voltar, mas estou morrendo de medo e tendo crises recorrentes de ansiedade. Com essa minha exposição, de 200 a 300 alunos por dia, o que posso trazer para casa? É uma questão complicada.

Relata Rafael.

Problemas

Os professores ainda sentem que, caso aconteça a retomada, haverá um acúmulo de trabalho muito grande entre os professores, que irão ministrar aulas presenciais e remotas simultaneamente, de acordo com o protocolo do estado de “retorno gradual das atividades em sala de aula, com uma porcentagem reduzida de alunos em sistema de alternância (presencial/remoto)”.

A pressão, o excesso de trabalho e o medo, somados, podem ser catalisadores de inúmeras doenças psicológicas entre os professores, como ansiedade e depressão.

Meu maior medo é que a gente não dê conta do excesso de trabalho. Teremos que seguir na aula a distância e na aula presencial, e isso pode refletir no surgimento e na piora de doenças psicológicas, o que já está acontecendo com muitos, inclusive comigo. Além disso, o medo constante de trazer o vírus para casa e infectar, além de nós mesmos, membros da nossa família, também é um fator que agrava esse quadro.

Afirma Stocco.

Consequências da volta às aulas

Ainda, durante um semestre completo, houve uma defasagem de conteúdo entre os alunos das redes públicas e privadas. Assim, com a retomada das aulas, os alunos que não conseguiram assistir, acompanhar e absorver o conteúdo ministrado pelos professores durante os seis meses estarão na mesma sala que aqueles que conseguiram e já possuem uma noção básica.

É uma problemática que pode prejudicar o andamento das aulas, além de desfavorecer uma parte dos alunos caso nenhuma medida de nivelamento seja tomada.

A maioria das escolas privadas não adaptaram as metodologias de ensino para as plataformas on-line. Ainda ficamos presos ao contrato assinado pelos responsáveis no início do ano, que dita a quantidade de módulos, provas e simulados que devem ser aplicados todas as semanas. Isso estrangulou todas as nossas novas metodologias, pois precisamos ficar correndo atrás de cumprir o conteúdo do contrato. Se for fazer o retorno, teremos que ter um novo entendimento sobre a educação, sabe?

Para mim, com a retomada, teremos que adotar a educação do afeto, do apoio e acolhimento, e abandonar por um tempo a educação baseada exclusivamente em conteúdo. Somente dessa forma conseguiremos ter uma retomada boa e saudável.

Diz Rafael.

Porém, a sala de aula não é construída apenas por livros, carteiras, alunos e professores. As relações que cercam o ensino são baseadas no afeto entre os alunos e professores, que muitas vezes passam mais tempos juntos do que com as próprias famílias, e constroem um vínculo afetivo entre si.

Com a retomada, os atos de carinho, como abraços, não poderão mais existir dentro da sala de aula, e todos terão que se policiar bastante em relação a isso.

O afeto faz parte da sala de aula, e todos têm sentido muita falta. É algo que nos traz muita tristeza estar perto dos alunos e não poder tocá-los, então teremos que nos policiar bastante.

Conclui.

Conclusão

Com todas essas alterações no âmbito da educação pública brasileira, Luciana Andrade manifesta sua preocupação sobre o futuro da educação no Brasil no pós-pandemia:

Vamos regredir um pouco no pós-pandemia. O Brasil não é um país que se preocupa com a educação, então levaremos tempo para recuperar esse tempo em que ficamos parados. Mas o que mais me preocupa é a base, os alunos que estão aprendendo as quatro operações básicas e sendo alfabetizados. Haverá de ter uma vontade política muito grande, além de uma retomada de conteúdo absurdo. Teremos uma base de como está a situação a partir das notas do Enem desse ano, de como elas serão.

Todos queremos que as aulas presenciais retornem. O sistema remoto é bom até um certo ponto, mas existem algumas limitações, como a perda do contato humano, que são irreparáveis.

Porém, em um país que já possui cerca de 90 mil fatalidades pelo Covid-19, há de ser muito cauteloso ao pensar estratégias que priorizem a saúde e a vida dos profissionais e dos alunos.

Eu quero muito que retorne, mas só acho que seja possível quando for seguro para todos, ao contrário, será uma injustiça enorme. Há vários professores que não sentem medo em retornar, pois são jovens ou moram sozinhos, mas como faço com os professores idosos? Mando retornar, e caso morra virá só mais um na estatística? Não tem como, é de uma irresponsabilidade imensa colocá-los nessa situação.

Afirma Rafael Stocco.

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Por Anna Casiraghi – Fala! Cásper

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