Negação da gravidade do coronavírus influenciou as mortes no Brasil
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Negação da gravidade do coronavírus influenciou as mortes no Brasil

Negação da gravidade do coronavírus influenciou as mortes no Brasil

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No dia 26 de fevereiro, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de Covid-19 no Brasil. A comprovação da chegada do vírus colocou a população em estado de alerta nas semanas que seguiram a notícia, o que levou ao esvaziamento de prateleiras de mercados e um aumento vertiginoso nas buscas por álcool em gel, estipulado em 158% conforme levantamento do aplicativo Zoom.

A ansiedade evidenciada por essas atitudes, sobretudo, não se estendeu por muito tempo. Na mesma semana em que o país contabilizou 60 mil óbitos em função do novo coronavírus, registros de bares e praias lotados viralizaram na Internet, e, antes mesmo do início da reabertura, os flagras de festas em casas e desrespeito ao distanciamento tornaram-se comuns nas redes sociais. 

À vista disso, é possível observar uma guinada no comportamento coletivo em face à proliferação da Covid-19. Levando em conta que o confinamento é uma estratégia de comprovada eficácia em evitar com que mais pessoas adoeçam, atesta-se uma relação direta entre o número de mortos e o descumprimento da quarentena, estimulado pela decrescente seriedade atribuída à pandemia. 

De que forma, no entanto, esse cenário se articulou? 

Negacionismo científico em pauta

A janela de tempo entre a descoberta e a chegada do novo coronavírus ao Brasil foi de 57 dias. Muito se falava sobre como a experiência brasileira não seria limitadora como a da China ou da Itália, considerado o epicentro europeu da pandemia. Contudo, embates públicos entre as esferas governamentais minimizaram a eficácia das ações preventivas, transformando o vírus em debate político e abrindo caminho para a ascensão do negacionismo, que estimulou a resistência ao isolamento.

A relação tensa entre Jair Bolsonaro (sem partido) e o agora ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, dividiu o posicionamento para enfrentar a crise: de um lado, o chefe do executivo defendia o isolamento vertical – no qual apenas o grupo de risco permanece em casa – e o uso da hidroxicloroquina em casos brandos e graves da doença; do outro, Mandetta recomendava o isolamento social horizontal e expressou desaprovação pelo tratamento com o remédio. 

Bolsonaro e Mandetta coronavírus
O presidente e o ex-ministro da Saúde durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto, em março deste ano. | Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo.

Política e negacionismo do coronavírus

Na falta de um direcionamento sólido do escalão federal, em um primeiro momento, a adesão ao confinamento se deu devido às medidas impostas por governadores estaduais pró-paralisação.

Essas ações, no entanto, sofreram questionamentos ao passo em que a redução da gravidade da pandemia entrou na pauta dos produtores de desinformação. De acordo com uma pesquisa realizada pela Avaaz, sete em cada dez brasileiros acreditam em notícias falsas sobre a Covid-19. O estudo também revelou que o maior centro de propagação são as redes sociais.

Nessa conjuntura, ser contra ou a favor do isolamento tornou-se um ato político, em um cenário no qual o negacionismo foi o remédio mais imediato para o pânico.

Consoante a professora do Departamento de Antropologia da USP (Universidade de São Paulo), Lília Schwarcz, em entrevista para o Uol, o fenômeno negacionista ganha vida em cima da instabilidade causada por uma situação nunca antes presenciada. Somando à inconstância do momento, declarações polêmicas do presidente da República inflamaram o debate, como a referência ao vírus como uma “gripezinha”.

Uma matemática simples: mais gente na rua, mais infectados

Negar a gravidade do vírus ou, mais a fundo, sua existência, não significa uma mudança nos números brutos. O declínio das taxas de isolamento social acompanhou a ascensão exponencial dos índices de contaminação na maioria dos estados – média nacional de cerca de 40% na primeira quinzena de julho, segundo dados do site Inloco.

Em abril, o Brasil superou a marca de 1000 mortos em decorrência do novo coronavírus, 25 dias depois da confirmação do primeiro óbito. De acordo com o epidemiologista e infectologista Bruno Scarpellini, foi um número além do esperado pelas previsões. Em entrevista para a Veja, Scarpellini afirmou sobre o isolamento: 

Muitas pessoas alegam que não há prova científica que o isolamento funciona. Mas todos os países que optaram por não fazer um isolamento social rígido acabaram com um número alto de casos. Esses números, no Brasil, mostram que o isolamento que fizemos até agora não foi suficiente. 

Desde o período da declaração, as taxas nacionais de confinamento mantiveram-se em queda. Isso significa que, sob essa ótica, em nenhum momento o isolamento social alcançou níveis suficientes para obter algum êxito.

Em um gráfico divulgado pelo biólogo Átila Iamarino, em live no YouTube, registra-se que a onda inicial de isolamento surtia efeito e a curva de contágio poderia ter sido “achatada”, mas a desistência coletiva de cumprir as restrições impediu o progresso.  

coronavírus negacionismo
Rua movimentada no bairro do Catete, zona sul do Rio de Janeiro, em junho de 2020. | Foto: Ellan Lustosa/Código19/Estadão Conteúdo.

Motivos para o relaxamento da quarentena

Um dos motivos por trás do relaxamento voluntário da quarentena teria sido a disseminação do fato de que a mortalidade da Covid-19 é relativamente baixa. Em comparação com outras doenças, isso se confirma: chega a ser 50% menor do que o perigo mortal oferecido pelo ebola em níveis mundiais, segundo artigo publicado na revista The Lancet Infectious Diseases

Entretanto, esse raciocínio não se aplica tão facilmente à heterogênea população brasileira: aplicando a variável da questão socioeconômica no recorte das taxas de mortalidade, o cenário se transforma.

Paulo Lotufo, epidemiologista da USP, afirma que, na cidade de São Paulo, os níveis de mortalidade são inversamente proporcionais à riqueza concentrada na região. Sobre o assunto, o médico sanitarista Ivan França Jr. confirmou o peso da disparidade social nas estatísticas:

Vamos pagar o preço da nossa desigualdade. E quem vai pagar a maior parte dessa conta serão os mais pobres, que não têm condições de ficar em casa, não têm saneamento, não têm nem sequer como lavar as mãos porque a água não chega.

Objetivos do isolamento social

O isolamento social no Brasil previa impedir o colapso no Sistema Único de Saúde (SUS) e a rede de saúde complementar. A preocupação concentrou-se na quantidade insuficiente de leitos de unidade de terapia intensiva disponíveis, devido à necessidade do uso de respiradores artificiais em casos graves do novo vírus.

Ainda que o país disponha de 55 mil leitos, divididos igualmente entre o SUS e a rede privada, apenas 25% da população tem acesso à segunda opção. As consequências da defasagem numérica são expostas em fatos: conforme a Subsecretaria de Atenção Hospital Urgência e Emergência, até o final de maio, quase 1300 pessoas morreram na fila à espera de um leito para Covid-19 nas emergências de hospitais públicos do Rio de Janeiro.

Por isso, a importância de atender à responsabilidade civil de evitar o contato com outras pessoas e o cuidado exacerbado com a higiene. Em consequência da velocidade de propagação da Covid-19 – segundo o infectologista Paulo Peçanha, uma pessoa pode contaminar em média 2,7 pessoas, um índice significativo para a comunidade médica – o número de infectados tende a ser massivo.

Dessa forma, o contingente de óbitos cresce proporcionalmente, alavancado por condições desiguais na busca por tratamento.

Em números absolutos, no dia 17 de julho, o Brasil registrou, aproximadamente, 78 mil mortos para 2 milhões de casos confirmados. 

mortes por coronavírus
Em frente ao Congresso Nacional de Brasília, ato com cruzes presta homenagem às vítimas do coronavírus. | Foto: Adriano Machado/Reuters.

Psicologia explica, mas não justifica

Levando em consideração o tabu cultural que o conceito de morte carrega, encarar os números de forma superficial pode ser analisado como um mecanismo de defesa que visa a preservação da saúde mental.

Afinal, a velocidade com a qual o número de óbitos se multiplica acarretou mudanças tanto técnicas quanto sociais no protocolo do luto: o choque inicial em função das covas coletivas e velórios com caixões fechados como medida de proteção foi amenizado ao passo que tais cenas tornaram-se parte do cotidiano. 

A negação da situação está atrelada, em conjunto com os fatores supracitados, a essa adaptação às circunstâncias por meio da banalização. Interpreta-se como um comportamento que tem suas raízes na psicologia: raciocínio motivado é o fenômeno que descreve a facilidade do ser humano de aceitar o que é conveniente, sem analisar de maneira profunda aquilo cuja crença não é desejada – no caso, a magnitude da pandemia.

Contudo, essa estratégia de blindagem ofereceu relativa segurança na forma de encarar a situação, o que resultou no aumento do número de vítimas em decorrência do novo coronavírus.

Nesse caso, o distanciamento praticado foi o da realidade, afinal, poder escolher entre acreditar ou não na gravidade da doença tornou-se o maior privilégio do chamado “novo normal”.

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Por Fernanda Fialho – Fala! UERJ

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