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O mundo tá chato sim: é muito chato não ser respeitada

Beatriz Mazzei – Fala!Anhembi

Eu vi um homem encostado no muro de uma casa abandonada. Parecia jovem, estatura média, um capuz preto bem largo escondendo a face, que parecia olhar para baixo.

Enquanto andava só pela rua escura, avistei tal figura e me assustei. Ali, minha única companhia era a lua, que brilhava imponente: uma luz natural mais forte do que a dos postes da rua que piscavam a cada três segundos, como na ambientação de um filme de suspense clichê.

Pensei em dar a volta e seguir o caminho pela avenida, mas esse era o caminho mais curto, então na pressa, segui confiante, apesar do receio. Fui me aproximando e o cara continuava imóvel, até eu chegar bem perto. Foi nesse momento que eu me surpreendi.

O homem na verdade era um cesto de lixo, com diversos entulhos, que juntos, configuravam uma espécie de corpo pela perspectiva de quem via de longe.

Respirei aliviada, tão aliviada quanto se ao chegar perto percebesse que o tal homem era na verdade uma mulher. Quem é mulher sabe: a gente faz “ufa”, quando nos damos conta que o ser que se aproxima na rua escura é uma moça.

Ao fazer aquela confusão mental com o lixo, ri da minha própria imbecilidade, até perceber que a situação não era tão imbecil assim. Aquela figura foi fruto do meu medo, e por mais subjetivo que seja o conceito de “medo”, além da capacidade de ser um sentimento aliado ao zelo da nossa integridade, o ato de temer também pode ser um tipo de violência contra nós mesmos e à nossa liberdade.

Dessa forma, muitas vezes, o que nos faz sentir medo também é algo que nos violenta, um tipo de “terrorismo psicológico”.

Afinal, é um tipo de violência ao seu estado de tranquilidade ter que andar em uma rua mal iluminada e sem segurança por falta de investimento público.

É uma violência ao teu direito de ir e vir ter que fazer um caminho diferente para evitar àquela rua em que sua vizinha foi perseguida.

É uma violência quando um carro passa bem devagarinho ao seu lado e alguém sussurra “gostosa”, bem baixinho, e você nem sabe quem é, ou o que aquela pessoa é capaz de fazer.

É uma violência sentir que deve andar de pressa e deixar de aproveitar o ar fresco da noite, a luz do luar.

É uma violência se sentir invadida porque até o policial tá te olhando que nem carne, até o motorista do ônibus assobia pra você.

É uma violência se sentir culpada, achar que a calça tá muito justa, a blusa muito decotada. Eu não devia ter saído assim.

É uma violência ter que ouvir que tudo isso é porque você é muito bonita. Não dá pra não elogiar. Mulher bonita é assim mesmo.

É uma violência quando dizem que você é quem está facilitando pra que algo aconteça “você anda sozinha na rua à noite? tá maluca?” Mas e o meu direito à rua? ela não é pública, afinal?

É uma violência entrar em um metrô lotado e ficar atenta para que ninguém se aproveite da situação pra tocar em você, fantasiar com seu corpo.

É uma violência ser arrastada pelo estacionamento, ter os braços agarrados com força, gritar por socorro, sentir a vida esvaindo-se ao ter o corpo arremessado pelo quarto andar.

É uma violência quando dizem que “Fulana gosta de apanhar” ou que “gosta de ser corna”, mas também falam “ah, mas ele tava estressado” ou “perdoa, ele tem uma condição muito boa, você precisa de instabilidade”, “você também provocou né”, “você não deve estar comparecendo, eles só procuram na rua o que não tem em casa”, “vai mesmo separar? e as crianças?”

É uma violência maior ainda saber que um relato assim, como o meu e o seu, é chamado de frescura, de exagero, o mundo tá chato, coisa e tal. Sim, o mundo tá chato.

É bem chato não ser respeitada. Aliás, é mais que uma chatice, é uma violência.

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4 Coment.

  1. Não aguento mais esses mi mi mi. O que se tornou chato é esse discurso hipócrita feminista.

  2. Antes tudo era visto como frescura, como piadinha e como “mimimi”. Entretanto, muitos não vinham que mães , namoradas e filhas eram ( e ainda são) vítimas do machismo e do abuso. As mulheres sofriam( a ainda sofrem) com o silêncio e raramente algo era divulgado nas mídias. Hoje temos a Internet. Não vamos muito longe. Até 1950, se não me engano, quando um homem assassinava uma mulher após descobrir que foi traído a lei encarava como “defesa da honra”, ou seja, se fosse ao contrário, a mulher era a vagabunda, a puta e a sem vergonha. Eu tenho dois filhos e ensino ele desde cedo que as meninas devem ser tratadas com sutileza e acima de tudo respeito, nunca menosprezando por nada deste mundo apenas por elas serem meninas.

  3. Belas palavras Julien, faço votos a ela!

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