Desemprego: As mulheres e os Nem Nem
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Desemprego: As mulheres e os Nem Nem

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O desemprego é hoje um dos principais problemas do Brasil, com uma taxa de 12, 4% de desempregados, que equivale a 13, 1 milhões de brasileiros desocupados segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) realizada no primeiro semestre de 2019.

Nem mesmo a região metropolitana de São Paulo (RMSP), a mais rica do país, escapa desse cenário de crise generalizada. A RMSP possui 17,3% da sua população desocupada e esse percentual representa 1,91 milhão de pessoas, segundo dados de setembro de 2018 divulgados pela Fundação Seade.

Os diversos fatores que incluem e aumentam as taxas de mulheres no grupo Nem Nem
Os diversos fatores que incluem e aumentam as taxas de mulheres no grupo Nem Nem

Em meio a todos esses números e percentuais há uma parte da população que enfrenta ainda mais dificuldades, as mulheres jovens, de 16 a 24 anos, que são parte dos Nem Nem, termo utilizado para descrever os jovens que nem trabalham e nem estudam.

Não se sabe ao certo quando o termo Nem Nem passou a ser utilizado no debate público nacional, há registros de pesquisas na internet que apontam reportagens utilizando esse conceito em 2009, mas o fato é que após quase uma década dessa palavra circulando no imaginário popular, ainda se sabe muito sobre ela.

A percepção sobre esse conceito mudou em diversas áreas da sociedade, sobretudo na produção estatística sindical, que encara Nem Nem como pejorativo, como ficou claro na fala de Clemente Ganz Lucio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que em entrevista coletiva realizada na Câmara Municipal de São Paulo taxou o termo como: “uma estatística estúpida”.

Clemente Ganz Lucio em palestra e coletiva de imprensa na Câmara Municipal de São Paulo

Segundo Clemente, é preciso tomar cuidado com o conceito de Nem Nem, pois transfere ao jovem desocupado toda responsabilidade por sua condição: “ é evidente que têm jovens que nem trabalham e nem estudam. O problema é que não perguntam para o jovem por que ele não trabalha e por que ele não estuda”, mas parte do que eles hoje dizem que são Nem Nem são meninas que trabalham cuidando de familiares na casa, o que não é considerado trabalho.

A fala de Clemente traduz uma realidade que é apresentada em diversos estudos do próprio DIEESE, com dados que expõe que dos 47, 4 milhões de jovens entre 15 e 24 anos em 2018, a estimativa é que 11 milhões (24%) estavam fora do trabalho e da escola.

Mas para as mulheres que vivem na região metropolitana de São Paulo esse número é ainda mais alarmante, em 2018, cerca de 42,1% das mulheres desempregadas na RMSP eram jovens de 16 a 24 anos.

Gabrielle Pereira Cardoso, 19 anos, é moradora do bairro do Ipiranga em São Paulo e faz parte do grupo dos chamados Nem Nem há 2 meses, ela deixou de estudar há cerca de um ano, está desemprega, o motivo do afastamento do trabalho foi a descoberta de sua gravidez.

Gabrielle explica que sua rotina consiste em se dedicar a aulas inglês, que não são atividades estudantis válidas para considerar alguém como um estudante na maioria dos estudos estatísticos realizados. Além das aulas, ela também realiza algumas atividades domésticas.

A jovem conta que não pretende voltar ao mercado de trabalho a curto prazo, pois está focando em sua gravidez, mas acredita que quando tentar retornar ao mercado terá dificuldades pelo fato de ser uma mãe jovem.

Foto: Tribuna do Ceará

Luana Lobo Lopes de Araújo, 20 anos, moradora de São Miguel Paulista na Zona Leste de São Paulo, está desemprega há mais de um ano e teve o ultimo contato com o estudo 4 anos atrás. A jovem acredita que o principal motivo para permanecer desempregada é o fato de não possuir experiência e do mercado de trabalho ser um ambiente machista.

Ela diz que a razão de ter ficado tanto tempo distante dos estudos é a falta de um emprego formal que viabilize o pagamento de cursos. Luana está prestes a sair do grupo dos Nem Nem, pois irá iniciar um curso de técnicas de recepção, com o intuito de retornar ao mercado de trabalho.

É por conta de realidades como a de Gabrielle Pereira, que o DIEESE criou a pesquisa PED (Pesquisa de emprego e desemprego), essa que diferente das pesquisas convencionais a respeito desse tema analisa os dados de forma heterogênea (sob diversos aspectos), enquanto as demais analisam os dados de forma homogênea (lidam com o desemprego sob uma única ótica).

A pesquisa do departamento intersindical coloca mais variáveis na equação do desemprego e passa a analisar o desemprego oculto  por precariedade, que corresponde a pessoas que realizam alguma ocupação mas de forma descontinua e irregular, e também há o desemprego oculto por desalento, que trata de pessoas que não possuem trabalho e nem procuraram nos últimos 30 dias.

Pesquisa PED – Mulheres desempregadas RMSP

A questão do desemprego, sobretudo entre as mulheres jovens e distantes das salas de aula é algo complexo, pois envolve fatores como machismo no mercado de trabalho, necessidade de trabalhar em atividades domesticas, variáveis socioeconômicas, entre outros fatores que atingem essas meninas e as tornam mais vulneráveis.

Por isso, a situação das jovens desalentadas é tão agravante, diferente dos homens a taxa de desemprego delas cresceu com o passar do tempo de 36,9% para 45% entre 1985 e 2013, enquanto os meninos desempregados passaram de 63,1% para 54,1% no mesmo período, segundo dados de 2015 da Fundação Seade.

A juventude é uma camada da população naturalmente mais vulnerável, porém dentro desse grupo há um subgrupo que é cada vez mais excluído por questões sociais e estruturais da sociedade.

Pois as mulheres são as mais desalentadas, mas ao mesmo tempo são as mais atraídas como mão de obra pela terceirização, que diversos estudos apontam como fonte de precarização, enquanto outros apontam como força vital para a geração de emprego.

Nesse sentido mais um fator entra em discussão, que é qual tipo de emprego será ofertado para essas garotas vulneráveis e desalentadas.

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Por Weslley Esdras Galzo – UNIP

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