Motorista de aplicativo relata realidade na pandemia
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Motorista de aplicativo relata realidade na pandemia

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Motorista de aplicativo conta dificuldades de trabalho em meio à pandemia

“Não tenho expectativa de vacina e não tenho expectativa de ajuda do governo. Nada.” Rodrigo Chagas ficou desempregado em meio a maior crise sanitária do Brasil e, com aluguel e faculdade para pagar, se viu obrigado a aceitar condições de trabalho inferiores como ele nos conta.

motorista de aplicativo
Motorista de aplicativo relata realidade na pandemia. | Foto: Mobilitas.

Ninguém espera que uma pandemia chegue sorrateiramente e acabe com seus planos de forma avassaladora, sem explicação aparente. Rodrigo, de 22 anos, morador de Duque de Caxias, teve que persistir como pôde em meio ao novo coronavírus e tentar manter, de alguma forma, o sonho de se tornar advogado.

Sem ajuda, ou planejamento do governo, precisou encontrar alternativas, como trabalhar com aplicativos de entregas após perder seu emprego de CLT em um posto de gasolina, para não sucumbir ao momento que todos estamos vivendo, encarando o trabalho sem muitas garantias e sem nenhuma segurança ou retorno justo. Encarando a rotina de entregas, estágio e faculdade, Rodrigo Chagas faz parte da crescente onda dos desamparados no Brasil.

Motorista de aplicativo relata realidade na pandemia

Como você chegou a essa escolha de trabalhar como entregador?

Trabalhava num posto de gasolina em Duque de Caxias, onde moro, e sempre via uns entregadores passando com a mochila do iFood e Uber Eats, e eu já sabia que seria demitido do posto antes de iniciar meu estágio, e também precisava continuar pagando a minha faculdade de algum jeito, então pensei nessa “saída”. Uma semana depois, quando fui demitido de fato, soube que pra trabalhar como entregador não era necessário ter CNH e poderia entregar de bicicleta. Então consegui a mochila e a bicicleta emprestadas e um celular simples, dessa forma, consegui continuar pagando a faculdade.

No emprego de entregador, o dinheiro que você recebe é suficiente para manter a casa e pagar o aluguel também?

Só com o trabalho de entregador não, pelo menos se eu quiser continuar na faculdade, porque os horários com mais pedidos são sempre à noite, que é quando estou tendo aula. E também não consigo fazer entregas todos os dias, então não consigo nem pensar em investir numa moto, o que seria melhor para as entregas e melhor em questão de conseguir mais tempo. Hoje só consigo manter a faculdade, pagar o aluguel e comprar alguns mantimentos básicos.

Como você faz para conciliar trabalho, faculdade e estágio?

Pra conciliar é um pouco complicado, porque eu trabalho como estagiário na justiça itinerante, por isso não tenho dia fixo. Basicamente, chego em casa, corro para almoçar, pego a bicicleta e já vou para a rua tentar fazer o máximo de entregas que consigo, mesmo que seja num horário ruim, que é das 14h às 18h. Nesse período de tempo, já percorri, de bicicleta, 16 quilômetros pra ganhar seis reais apenas.

As condições de trabalho fornecidas pelo app são boas?

Não. Já sofri acidentes na rua, me feri, quebrei o telefone e não tive a quem recorrer nessas situações. Também já fui fazer entregas em favela e traficantes me abordaram, fiquei com armas apontadas pra mim enquanto esperava o cliente vir buscar o pedido. O máximo que oferecem é o entregador poder cancelar o pedido quando for em área de risco, como nesse caso, mas mesmo assim, se tiverem muitos pedidos cancelados pelo entregador, o app vai parar de mandar os clientes, então acabo aceitando entrar nessas áreas de risco para não perder outras possíveis entregas.

Qual foi o sentimento durante essa pandemia? Algum sentimento de esperança ou até mesmo de desamparo?

Sendo bem sincero, sentimento total de desamparo. Até tento manter a esperança, mas, observando tudo o que acontece, o sentimento real é de desespero. Está muito difícil onde moro; está difícil arrumar emprego; sustentar a casa; está difícil de manter a faculdade. Não tenho nenhuma expectativa de melhora, não tenho expectativa de vacina, não tenho expectativa de ajuda do governo. Nada.

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Por Márcio Mendes – Fala! UFRJ 

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