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JOVENS ESTÃO CADA VEZ MAIS DEPRIMIDOS POR FALTA DE EMPREGO E PELAS MÁS CONDIÇÕES TRABALHISTAS

JOVENS ESTÃO CADA VEZ MAIS DEPRIMIDOS POR FALTA DE EMPREGO E PELAS MÁS CONDIÇÕES TRABALHISTAS


Por Gabriela Neves – Fala!PUC

“São pessoas isoladas, sozinhas, sem capacidade de comunicação, vivem com base em remédios e pensam em suicídio” – é assim que Clemente Ganz Lúcio define quem está em busca de emprego hoje. Ele é Diretor Técnico do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), onde são feitos estudos e pesquisas de apoio à classe trabalhadora e dos seus sindicatos. Pesquisas parecidas como as feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), porém com mais indicadores na análise de emprego e desemprego, que depois foram incorporados nas tabelas do IBGE.

Clemente Ganz Lúcio falando sobre emprego e desemprego no Brasil (27/04/2019) – Gabriela Neves

Esses novos elementos passaram a contar quem estava desempregado por desalento – quem desistiu de procurar emprego – e com que estão em uma situação de precariedade – trabalham com jornadas menores do que gostariam e ainda estão à procura de outro emprego – foram responsáveis por uma enorme mudança nos  gráficos e mostraram que o número de desempregados era maior do que o que era contado antes.

Como dito por Clemente, hoje o número de pessoas que sofrem em decorrência da procura do emprego é grande, e a população mais atingida pelo desemprego na região metropolitana de São Paulo são os jovens de 16 a 24 anos. Júlia Rocha é uma dessas jovens: tem 19 anos, terminou o ensino médio em 2017 e desde então tenta se estabelecer no mercado de trabalho.

Em 2018 trabalhou em uma loja de roupa na região do Brás, mas o emprego não durou muito tempo, e em março deste ano já estava há quase 7 meses desempregada enquanto continuava a procura por um novo emprego pela região em que já havia trabalhado. Já estava cansada do descaso dos lojistas na hora que entregava seu currículo, quando recebeu pelo Facebook uma propaganda da contratação, por uma empresa terceirizada do Banco Safra, de pessoas para trabalhar com vendas de empréstimos consignados. O trabalho ficaria próximo a casa de Júlia, na Vila Antonieta, zona leste de São Paulo. Lá, Júlia foi bem recebida na entrega do currículo e, em apenas um dia, foi chamada para fazer um treinamento no local.

No início, Júlia achou que o trabalho seria de carteira assinada, mas depois que já havia iniciado as atividades, descobriu que receberia apenas uma ajuda de custo de 800 reais, e que a cada 250 mil reais que tivesse vendido, ganharia 1% dos lucros. Júlia também foi informada que, se não conseguisse fazer todo o trabalho das 9 às 18 horas, um regime de 8 horas de trabalho, teria que estender o expediente sem receber mais por isso. Em poucos dias de trabalho começou a sentir dores e tontura, e em uma tarde passou mal, saiu de lá direto para o médico e, ao fazer alguns exames, constatou-se que Júlia estava com início de depressão e crise de síndrome do pânico.

Júlia recebeu os medicamentos necessários, foi para casa e se sentiu melhor. No outro dia, ao ir trabalhar logo pela manhã, teve outra crise, percebeu que não aguentaria o serviço e decidiu pedir demissão. Como ficou pouco tempo no local, não chegou a receber nada, e a empresa disse que pagaria o equivalente ao que trabalhou em 10 dias úteis. Júlia está esperando desde o dia 8 de abril (ainda não tinha recebido até o dia
dia 29 de abril).

A jovem ainda está tendo que tomar medicamentos, e também contou que 
mais pessoas se sentiam mal no antigo trabalho, chegando a usarem drogas, como a maconha, para aguentar a pressão. Júlia confessa que não gostaria de chegar a esse ponto. Segundo o diretor do DIEESE, casos de trabalho informal e empresas terceirizadas estão cada vez mais comuns no mercado de trabalho. Segundo ele, as pessoas se tornam meros colaboradores, e “colaborador não tem direitos, colaborador colabora”. Assim, desmontam-se todos os direitos que foram conquistados ao longo dos anos. Essas conquistas da classe trabalhadora também estariam sofrendo com o novo governo e com a reforma da Previdência.

Os sindicatos têm um importante papel para ajudar quem sofreu problemas em seu emprego, tanto de abusos morais quanto com valores que não foram pagos. O Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo oferece ajuda em seu próprio site, além de fazer campanhas para que denunciem abusos emocionais e por pressão e condições ruins de trabalho. Os sindicatos também são responsáveis por reunir informações sobre as reformas que estão sendo feitas e passá-las aos trabalhadores, propondo greves e intervenções. De acordo com Clemente, os mais jovens não aderem tanto aos sindicatos porque é comum que queiram colocar em discussão pautas que não são plenamente compreendidas pelos mais velhos. O diretor diz que está na hora de ter uma abertura maior para esses jovens, para que as lutas não morram.

Indo além dos sindicatos, a universidade também é um lugar de aprendizado e luta, tanto quanto de ajuda na entrada do mercado de trabalho, mas a maioria dos jovens ainda continua fora dela. Júlia pretende entrar na universidade, porém precisa de um emprego para poder arcar com os custos, já que sua família não tem condições de ajudá-la. Ainda assim, mesmo estando em uma universidade, muitos jovens continuam desempregados: de acordo com o NUBE (Núcleo brasileiro de Estágio), apenas 9% dos universitários estagiam, e isso faz com que muitos estudantes fiquem frustrados, já que estão investindo e não recebem retornos imediatos.

Ao questionarmos Clemente sobre o papel da universidade para com esses jovens que sofrem com a falta de emprego, ele diz que o curso deve preparar bons profissionais, bem qualificados, e estimulá-los a fazer investimentos em sua formação e quanto às questões emocionais: “A universidade deveria trabalhar a dimensão emocional também, de modo que o jovem perceba que não é responsabilidade dele fracassar na entrada no mercado de trabalho”. Isso é uma lógica de mercado: alguns anos atrás existia muitos empregos para essa população hoje diminuíram. O poder público ainda não sabe o que fazer para resolver o problema, e isso gera ansiedade e stress em quem está na busca de um trabalho.

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