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Imprensa Livre e Alternativa no Brasil

Lais Costa – Fala!Anhembi

 

“Os grupos marginalizados sempre tiveram voz, porém nunca os demos ouvidos.”

A imprensa alternativa é sempre um marco histórico em tempos nos quais a democracia grita por ajuda. Hoje em dia, não é diferente- e o que não faltam são causas sociais.

 

“Vamos mandar dois jornalistas para a Venezuela; um repórter e um fotógrafo”, foi a frase que abriu a reunião de pauta dos Jornalistas Livres. Éramos quatro. Perdemo-nos numa esquina da Avenida Paulista, em São Paulo, e chegamos dez minutos atrasados na sede que hospeda as reuniões, às oito e quarenta da noite. Quem atendeu o interfone tinha o apelido de Terremoto. Ele fumava um cigarro – o que era normal dentro da sala onde os jornalistas livres faziam suas reuniões de pauta, lembrando filmes dos anos noventa pré-campanhas de combate ao tabagismo em lugares fechados. O lugar era informal e descontraído, tão alternativo quanto o portal em si – paredes de tijolo, almofadas e tapetes espalhados pelo chão numa roda. Lá estava Laura Capriglione, uma das principais repórteres do veículo e da mídia alternativa atual.

“Nós cobrimos o outro lado, aquilo que eles não cobrem.” Dizia Laura, “Só o fato de a gente ser uma mídia contra hegemônica faz com que a gente já assuma o lado dos pobres e oprimidos, aqueles que são invisíveis para a mídia tradicional.”

Na reunião, predominava a presença feminina – o que não deveria ser uma surpresa. Uma pesquisa publicada no Observatório da Imprensa em março de 2013 apontou que, entre 1986 e 2004, jornalistas do sexo feminino ocupavam 35% dos empregos de comunicação institucional – ou seja, a cada 6 homens jornalistas haviam cerca de 3 mulheres. Já em 2007, a presença feminina nas redações ultrapassou o número de 53% (Dados retirados da edição 737, texto por Chico SantAnna).

Veículos como os Jornalistas Livres fazem parte da imprensa alternativa, aquela que narra as notícias que são negligenciadas pela grande mídia. Geralmente possuem ideologias de esquerda, e são associadas ao terceiro setor (entidades filantrópicas, ONGS, etc.) Surgiu no século XVIII e tende a ressurgir em momentos críticos da democracia, como na Ditadura Militar. Hoje em dia, esses veículos são os que dão visibilidade às causas vinculadas ao feminismo, LGBTQ+, movimento negro, quilombolas, indígenas, etc. “Eles não dão o mesmo apoio que a gente dá” disse Joana Brasileiro, redatora, designer gráfica e jornalista livre, “A grande mídia é pressionada pelas redes sociais e, por essa visibilidade, dá atenção. Para nós é uma obrigação, para eles é saia justa.” Explica ela.

Nos anos 70 e 80, diversas revistas alternativas surgiram, e em sua maioria sofreram com a censura do DOPS. As revistas Nós Mulheres e Brasil Mulheres abordavam temáticas que incluíam o universo feminino. Direito a procriação, casamento, divórcio: temas que incomodavam no sentido da moral e dos bons costumes mais do que na política. Embora tenham sofrido com a censura, nunca foram o foco de preocupação dos militares – tendo mais sorte comparadas à outras revistas, como O Pasquim:  “Se o aparelho repressor não vai dar conta de tudo, eles preferiam atacar Millôr ou Paulo Francis, que davam mais dor de cabeça para os militares, do que veículos como estes que acabavam tendo uma atuação muito restrita”. Inspirando-se nas iniciativas do século passado, sites com o único objetivo de dar visibilidade para a causa feminista não param de aparecer. Por exemplo, o Nós Mulheres da Periferia empresta o nome da antiga revista da época da repressão e adere também a visibilidade da população mais pobre.

O termo “conferir visibilidade” é, para Mayara Luma Lobato, professora e coordenadora do curso de jornalismo na FMU e FIAM, o termo mais correto para se usar quando se referindo aos veículos que “dão voz” às causas marginalizadas “Existem populações marginalizadas que sempre tiveram voz, porém nunca demos ouvidos.” De acordo com ela, a imprensa alternativa incentiva as pessoas a prestar atenção às ideias, forçando-nos a dar ouvidos para os que nunca foram escutados. As mulheres são parte deste grupo. Historicamente, no Século XIX, textos assinados por mulheres não tinham credibilidade. Muitas trabalhavam com jornalismo na imprensa e assinavam seu texto com um pseudônimo masculino. Apesar do espaço para as mulheres nas redações atuais ter sido conquistado, isso não significa que a maneira como elas são vistas é igualitária – e nem seu salário.

Na luta por reconhecimento no mercado de trabalho, é muito discutido o quesito de “lugar de fala”. Esta expressão é usada para discutir situações na qual a pessoa que fala a favor de algo nunca teve experiência própria com a causa, por exemplo: brancos falando sobre racismo, homens falando sobre feminismo, heterossexuais falando sobre homofobia. Somente mulheres podem falar sobre feminismo? A abordagem de um sexo para o outro varia muito? Segundo a professora e doutora, uma segregação no assunto não é o caminho certo a ser seguido, porém há dois lados. O aspecto positivo seria a sensibilização do homem no assunto, e o aspecto negativo é que alguém do sexo masculino nunca esteve exposto e vulnerável a agressões ou preconceito de gênero. Neste caso, a abordagem resulta em textos diferentes.  Joana Brasileiro, se referindo aos recentes casos de abuso sexual em transportes públicos, concorda que a abordagem feminina é essencial “É necessário lidar com a sensibilidade que as questões têm tomado, sendo melhor com que você dê a voz para as mulheres, e é o que a maioria das mídias alternativas fazem. O mais relevante é que estejam denunciando,” diz a designer, “Existe um reforço da possibilidade que as pessoas possam denunciar e reagir. O maior medo é o silencio. Para a grande mídia, a abordagem é o escândalo.”

Alguns veículos também preferem não usar o rótulo de alternativos. Paulo Lima, editor da revista Trip e TPM- uma segmentação feminista da Trip, diz que nunca quis vestir a armadura de marginal, descolado “Não sei se somos alternativos, depende da sua definição da palavra” explicou Lima, “Nós queremos ser mainstream. Temos anunciantes, bancos, major league. Porém nós temos uma postura ousada e original, o que não é comum.”

O futuro da imprensa alternativa é incerto. Os veículos passam por necessidades financeiras e dependem de doações e crowdfunding, como a Agência Pública. O problema é que muitos blogs podem ser criados e não alcançar tanto público quanto uma revista financiada por uma grande editora. Há dez anos, achava-se que o computador escreveria a notícia, seguindo o formato no qual as informações mais relevantes ficam inseridas num único parágrafo, e que as leríamos no Orkut – site que deixou de existir em 2013. As tendências atuais mostram-se diferentes do que era esperado. Textos autorais e opinativos tendem a ter mais credibilidade do que notícias “quadradas”, no formato lead, que podem ser facilmente falsificadas por segundos “Eu acredito que hoje passamos por uma transformação tímida no jornalismo” diz Mayara Lobato “Acostumamo-nos com o jornalismo informativo, e supostamente imparcial. Imparcialidade é algo que nós sabemos que não existe. O jornalismo está lentamente em curso de se tornar mais interpretativo, opinativo” conclui a professora com uma previsão – otimista ou pessimista, a critério do leitor.

 

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