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O Grafite e a Cidade Linda

O Grafite e a Cidade Linda

Por: Julia Castello Goulart – Fala! PUC

 

Desde o início da gestão do prefeito João Doria, houve em São Paulo protestos e polêmicas em relação a utilização do espaço público pela própria população, que até antes possuía pouca evidência nas discussões da sociedade brasileira. Seja em relação a mudança de levar o evento anual da Virada Cultural para bairros longe dos centros, seja a intenção da prefeitura de limitar os bloquinhos de carnaval pela cidade de São Paulo.

Neste ano de 2017, o sucesso dos bloquinhos pelo público, na maioria jovem, mostrou a resistência de muitos às modificações e limitações do espaço público. Além disso, está em alta as discussões em relação ao Minhocão e ao fechamento da Avenida Paulista nos finais de semana. Contudo, uma das mais polêmicas discussões do ano foi em relação ao projeto “Cidade Linda”, que apagou grafites em vários locais importantes da cidade de São Paulo, como a Avenida 23 de maio.

Divulgação/Um dos muros da Avenida 23 de Maio, após as ações do Projeto “Cidade Linda”
Divulgação/Um dos muros da Avenida 23 de Maio, após as ações do Projeto “Cidade Linda”

 

Percebe-se o surgimento de um questionamento cada vez mais polemizado: existe limite entre espaço público e espaço privado? O grafite como arte e meio cultural está cada vez mais relacionado com a importância da utilização do espaço público, como meio de transmitir, mais democraticamente, a cultura e a arte.

Divulgação/Beco do Batman, nas redes sociais
Divulgação/Beco do Batman, nas redes sociais

 

Grafite contra o lixo é o nome de um projeto social que utiliza o grafite como forma de melhorar espaços públicos. Não só melhorar a estética do espaço, como transformar um espaço, antes totalmente ocupado pelo acúmulo do lixo, em um espaço útil, para a própria população local. O projeto foi desenvolvido em parceria entre três coletivos: Coletivo Cenário Urbano, o Coletivo É nóis e o Coletivo Clã.

Divulgação/Evento em Guanhanases-SP, Grafite contra o Lixo
Divulgação/Evento em Guanhanases-SP, Grafite contra o Lixo

 

O projeto teve seu início apenas com o investimento desses mesmos coletivos, que posteriormente, começaram a receber apoio da SOMA-Limpeza Urbana. Hoje, comemorando 3 anos da realização do projeto, eles são acionados diretamente pela prefeitura para realizar as ações sociais nas regiões consideradas por ela como “pontos viciados de lixo”. Para André da Silva França, um dos organizadores e participantes do Coletivo Cultural Cenário Urbano, a ideia surgiu quando percebeu que para fazer algo novo era preciso muito mais do que “ensinar a missa aos padres, e política aos políticos”. André também afirma:

“Eu fiquei pensando de que maneira eu poderia fazer a “Dona Maria”, que trabalha de empregada doméstica o dia todo, conhecer o grafite?!  Eles não sabem o que é grafite, bomber, pichação… Isso é conversa pra rapaziada. As pessoas que trabalham o dia inteiro, que estão aí cansados, que chega em casa e quer descansar, eles não têm acesso. Então pensei em pegar pessoas legais e juntar com um tema como o meio ambiente. Nossa ‘grafitagem’ possui sempre a mesma temática: criança e o meio ambiente”.

Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo
Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo

 

Os participantes do Projeto organizam um grande evento na região e fazem sua divulgação antes da data estabelecida. É durante o evento que eles grafitam o muro, levam poesia, literatura, hip hop, retiram o lixo, fazem brincadeiras no chão para as crianças e transformam uma área totalmente tomada pelo lixo, em uma área útil para a comunidade que ali vive.

André França conta que várias vezes chegou a certas regiões, e logo as pessoas vinham-lhe falar que eles não iam conseguir resolver o problema do lixo, que às vezes alguém limpava, e no outro dia estava sujo de novo. André conta que muito além da transformação e melhoria do espaço, é preciso conscientizar as pessoas para que elas cuidem de um espaço público que é delas:

“O lixo incomoda, o lixo traz doenças, entulho, vira lugar onde as pessoas não têm lugar para colocar seu lixo. E o que nós vamos fazer? Nós vamos dizer para elas que aquele espaço é delas, e que aquele ponto viciado de lixo, pode ser um ponto de cultura. Já fizemos em vários lugares como Itaim, Guanhanases, Ipiranga, São Miguel. Nós falamos para as pessoas, a gente não mora aqui, então com certeza a gente não vai conseguir resolver o problema desse lixo, mas vocês sim: ‘senhora, por favor cuide do seu espaço. Quando alguém trazer lixo para cá, chame os vizinhos, que juntos vocês são mais fortes, e falem que ali é um lugar de vocês, de cultura, onde as crianças brincam, e que ali não é lugar de lixo’ ”.

Divulgação/Evento em Guanhanases-SP, Grafite contra o Lixo
Divulgação/Evento em Guanhanases-SP, Grafite contra o Lixo

 

Posteriormente ao evento, o Projeto aciona a prefeitura, que fica responsável de fazer palestras para os idosos com jovens estagiários no local. Desse modo, é uma forma de manter o espaço sempre ocupado e com movimento:

“A gente sabe, que independente do lugar, se é no centro de São Paulo ou nas periferias, se o espaço ficar abandonado de novo, o lixo volta. Então, nossa ideia é colocar pessoas no espaço reformado e fazer com que elas usem aquele local. A gente não gosta do que a prefeitura faz, vai lá sem falar nada com ninguém, reforma uma quadra, reforma uma rua, o espaço, para falar que aquilo tá bonito e é pra comunidade – mas não educa as pessoas para cuidar daquilo que é delas. Não tem governo, não tem prefeito, não tem ninguém. Quem vai cuidar disso aqui é vocês, que moram aqui todo dia. A gente já viu pessoas da prefeitura conversando com moradores e não adianta. Tem que ser pessoas como elas, periferia com periferia para estar conversado diretamente uma com a outra”.

Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo
Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo

 

Questionado sobre a polêmica do Projeto “Cidade Linda”, André França afirma:

“Quem é grafiteiro ou faz piche que está na rua, falam que vários prefeitos já fizeram isso. Na verdade, o que o Doria fez, o Haddad já fez, o Maluf já fez, outros prefeitos já fizeram. Eles não sabem o que a gente tá passando, o que nós grafiteiros e pichadores estamos sentindo na pele. A cultura realmente tá em um momento bem terrível, porque no momento de falta de recursos, eles deixam de investir na cultura”.

Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo
Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo

 

Independente se for grafite ou pichação, para utilizar o espaço público é necessário pedir permissão à prefeitura e adquirir um documento. Mas mesmo com a autorização, será que ainda existe certo preconceito com essa arte, que ainda se concentra nas ruas e nos espaços públicos?  Para André França, o preconceito existe por parte de vários setores da sociedade brasileira, uma delas, a polícia:

“Nem os policiais, nem os taxistas, nem uma grande parte da sociedade não sabe ver o que é uma pichação, o que é o grafite, o que é o bomber, o que é o grafite autorizado. Eles só olham o menino lá grafitando a parede, e de repente para uma viatura e já vai enquadrando o moleque. A polícia é totalmente ignorante, ela é bruta, ela não tem discernimento do que é cidadão e o que é ladrão. Disseminou de certa parte, de colocar tudo no mesmo saco, e falar que são todos vagabundos”.

Divulgação/Grafite em São Miguel no Projeto Grafite contra o lixo
Divulgação/Grafite em São Miguel no Projeto Grafite contra o lixo

 

Parece quase irônico pensar que apesar de tanto preconceito, um dos principais pontos turísticos de São Paulo seja o Beco do Batman, famoso exatamente pelos grafites de diferentes artistas. O Beco possui esse nome devido a um dos primeiros grafites feito em sua parede, e que ficou muito conhecido nas redes sociais: um dos personagens mais famosos da DC Comics, o Batman.

Para o designer Bruno Biella, o Beco do Batman ficou famoso exatamente por se localizar na Vila Madalena e que, apesar disso, possui grande importância, por dar visibilidade ao grafite:

“A Vila Madalena, como bairro, tornou-se um ponto turístico da cidade mesmo sem os grafites. Isso facilita para a visitação do Beco do Batman. Provavelmente, se o Beco do Batman fosse dentro de alguma favela, ele não seria tão frequentado. Além da qualidade dos grafites que estão presentes ali, acredito que a internet seja um grande fator que contribuiu para que o local se tornasse famoso – as pessoas amam tirar fotos delas mesmas ali no Beco e postá-las nas redes sociais”.

Divulgação/Beco do Batman, nas redes sociais
Divulgação/Beco do Batman, nas redes sociais

                

O grafite e a pichação (que é a raiz do grafite) surgiram como meio de expressar as opiniões e as ideias dos moradores das periferias que eram, e ainda são, ignoradas pelo governo e pela população dos centros das cidades. Estamos falando de um tipo de arte que nasceu das periferias e que, por muito tempo, foi relacionada ao vandalismo e à criminalidade. Para o designer e grafiteiro Bruno Biella, o grafite mesmo sendo agora considerado arte, ainda mantém seu objetivo inicial de representar as periferias e as minorias:

“Acredito que o grafite ainda desempenha seu objetivo inicial. Na realidade, a partir do momento que não desempenhar mais esse papel, não será mais grafite. Mas, atualmente, ele também possui outras funções, como por exemplo ser usado em peças publicitárias. Não acho que o grafite, ao entrar dentro de um museu, perca a sua função – ele somente sai do lugar tradicional”.

Divulgação/Evento em Guanhanases, Grafite contra o lixo
Divulgação/Evento em Guanhanases, Grafite contra o lixo

 

Sobre o futuro do grafite, Bruno critica a falta de incentivo do governo brasileiro:

“Acho que o grafite vai continuar como é hoje, porém com cada vez mais aceitação das pessoas. Espero que tenham mais iniciativas para ensinar crianças e jovens de periferia a grafitar, pois isso pode servir como ferramenta de ascensão social, como foi o caso de inúmeros grafiteiros, entre eles o Kobra e Os Gêmeos. A mídia tem um grande papel em divulgação e informação sobre o grafite. Mas a melhor maneira para inserir o grafite no dia a dia dos brasileiros é tendo cada vez mais grafites nos muros da cidade. Existem diversas maneiras. É possível incentivar com workshops, oficinas, ações sociais”.

Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo
Divulgação/Evento em São Miguel, Grafite contra o lixo

 

Na contramão ao que Bruno e muitos brasileiros esperam, André relata a dificuldade cada vez maior de trabalhar com o grafite atualmente:

“Os coletivos, e o nosso projeto, continuam fazendo grafites nas ruas, mas, hoje o que estão passando para nós, que temos contato com algumas prefeituras, é que até o menor evento que a gente queira fazer, tudo que a gente queira fazer em muro público, eles estão deixando de autorizar. Porque tudo tem que passar pelo Doria, mas é claro que o prefeito não quer se complicar, então, eles não estão deixando grafitar. Os eventos de grafites que estão acontecendo ainda estão limitados aos muros de empresas, muros de escola… Porque são muros particulares, as pessoas autorizam. Agora, eventos grandes pela prefeitura, não estou vendo acontecer não.  No governo do Doria, não só para o grafite, mas para a cultura em geral, complicou muito mais.  Está aberto para todos verem que a prefeitura está cortando dinheiro da cultura”.

Divulgação/Grafite dos artistas Gêmeos na 23 de maio
Divulgação/Grafite dos artistas Gêmeos na 23 de maio

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