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Resenha: Ex-pajé – uma história de etnocídio

Resenha: Ex-pajé – uma história de etnocídio

Por Beatriz Abrantes – Fala!MACK

O documentário brasileiro Ex-pajé, estreado nas telas culturais de São Paulo na quinta-feira do dia 26, discute os temas de aculturação e etnocídio. O filme conta a história da tribo Pater Saruí, que vive em uma reserva indígena da Amazônia, mostrando como as tradições e crenças originais da tribo se perderam ao longo dos anos, quando em contato com o homem branco. O foco da trama está no personagem Perpera Suruí, um antigo pajé nos tempos tradicionais da tribo.

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De maneira geral, a trama se desenrola quando a mãe de uma família indígena é picada por uma cobra. Seu risco de morte chega a ser tanto que o resto da família passa a tomar medidas ritualísticas na esperança de ajudá-la a melhorar. Para isso, pedem a Perpera alternativas e ritos que trariam bons espíritos para ela. O caso vai confrontar alguns valores da igreja evangélica e trazer sentimentos das raízes indígenas de volta para o povo.

Contudo, não se engane. Apesar da temática polêmica e bastante discutida hoje em dia, o documentário possui um estilo próprio bastante lento e denso, também com o intuito de relacionar a vida pacata do índio com a falta de personalidade e identidade de seu modo de vida atual. O diretor do longa, Luiz Bolognesi, também vai revelar a perseguição religiosa contra os índios, um fato que, em fevereiro, quando o longa foi exibido em Berlim, 30 organizações e líderes indígenas assinaram um manifesto contra a perseguição religiosa.

No início do documentário, imagens tremidas, com sons de má qualidade, mostram vídeos caseiros da tribo quando viviam tradicionalmente em terras pouco habitadas e modificadas. Cenas de índios nus, enfeitados com alargadores pelo rosto e pelo corpo, com pinturas tribais e enfeites feitos de folhas, marcam os tempos originais de vida indígena. Todo esse tema raiz é interrompido com o barulho de uma motocicleta com um índio e cima, usando roupas comuns e com palavras em inglês, revelando a tribo do século XXI.

É interessante ressaltar a presença da igreja evangélica nas terras indígenas, que é responsável por trazer os medicamentos das cidades para a tribo. Além disso, os indígenas também vão todas as manhãs para o culto, liderada por um pastor velho, branco e dos olhos azuis. Como ele só fala português, um índio traduz para o tupi, para que a tribo possa entender. O documentário mostra como muitos índios dormem durante a missa, além do coral, formado por indígenas que leem o que cantam, pois nitidamente não entendem o que estão dizendo.

O ex-pajé Perpera Suruí, protagonista do documentário, é o responsável por abrir as portas da igreja todos os dias de manhã para o culto. O que acaba sendo muito marcante nessas cenas são suas vestimentas sociais, usando calças e uma camisa social nitidamente maior que seu tamanho, dando a entender a falta de ajuste entre a religião, as normas cristãs do homem branco, e o próprio índio. Este personagem, sereno e metódico, conta a outro índio como era ser pajé nos tempos tradicionais, como somente ele tinha contato com os espíritos da natureza e em como estes espíritos deixaram de falar com ele após o cristianismo.

O documentário também mostra outros integrantes, com foco em uma família da tribo e em como as tecnologias também dominaram suas vidas. Um deles possui uma câmera fotográfica, outro uma Pick-up. Já as crianças jogam em celulares e tablets, deixando de prestar atenção na cultura do povo indígena. Chega a ser lamentável cenas como essas que, apesar de serem extremamente comuns nas cidades, o telespectador se choca ao ver que esse costume pode ser tão alastrado a ponto de uma preciosidade como a cultura indígena também possa ser consumida pelo hábito de alienar-se.

Para quem gosta de cultura, é possível encontrar o longa nos cinemas: Cine Reserva Cultural Paulista, Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, Espaço Itaú de Cinema Augusta, CineSesc e Cinespaço Santos. Não perca, você vai se surpreender!

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