Entrevista com Eduardo Lyra - Um Transformador Social Com Visão no Futuro da Periferia
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Entrevista com Eduardo Lyra – Um Transformador Social Com Visão no Futuro da Periferia

Entrevista com Eduardo Lyra – Um Transformador Social Com Visão no Futuro da Periferia

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Eduardo Lyra tinha tudo para ser só mais um jovem em um barraco da periferia de Guarulhos. O pai foi um criminoso e acabou na prisão.  Mesmo sem recursos financeiros e com a criminalidade fazendo parte de seu cotidiano, Edu não quis tornar-se mais uma vítima do sistema. Sua mãe sempre o inspirou a sonhar lhe dizendo “Não importa de onde você vem, mas sim, para onde você vai”.

Com muita esperança no futuro, Eduardo Lyra conseguiu formar-se em jornalismo, escreveu o livro Jovens Falcões e tornou-se um empreendedor social ao fundar a ONG Gerando Falcões, com projetos socioeducativos para jovens da periferia. Com menos de 30 anos, saiu na Lista da revista Forbes Brasil entre os 30 jovens mais influentes do país, e foi selecionado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo.

Durante um bate-papo, Edu compartilhou uma história que o Fala! tem prazer em contar. Confiram:

Fala!: Quando você pensou em cursar jornalismo, já foi com a intenção de ser um porta voz do jovem e da comunidade, ou isso foi algo que você descobriu durante o curso?

Edu: Acho que foi muito mais durante o processo, do que algo intencional. Eu queria ser jornalista porque meu pai foi um bandido e sonhava ser jornalista e não conseguiu. Eu queria muito virar o jogo da minha família. A minha família aparecia muito nas páginas policiais. Eu queria mudar a pauta pelo meu esforço e pelo meu trabalho. Essa coisa de ser jornalista me levou pra outros lugares e mundos. Me fez entender que eu vivia em uma periferia que tinha muita violência e parte dela era originalizada pela omissão do estado. Foi aí que eu percebi que a periferia precisava de empreendedores sociais, de pessoas que construíssem ferramentas de transformação. Foi nessa hora, a partir do meu crescimento pra ver que é possível vencer na vida, que eu decidi ser um porta voz da comunidade.

Fala!: Foi daí que você iniciou o movimento para criar a ONG Gerando Falcões?

Edu: Mais do que um porta voz, eu quis levar transformação social. Então, eu fundei o Gerando Falcões que hoje alcança uma média de cem mil jovens por ano em cima de três pilares: Cultura, Esporte e Renda. Nós temos vários projetos, como tênis, futsal, skate, boxe, teatro, pintura, jazz para centena de crianças, atendendo também as suas famílias com atendimento psicológico, assistência social… Fazendo a periferia tirar a autoestima do chão e colocar a periferia no lugar que ela merece.

Fala!: Um dos projetos da ONG é o “Recomeçar”, que investe em ex-presidiários. De onde surgiu a ideia? E pra você, qual é a importância da reinserção social?

Edu: Esse é um dos projetos que gera mais impacto no Gerando Falcões. Eu tive um pai presidiário. Eu vivi na pele a metáfora de que “o pau que está torto não está sentenciado a morrer torto”. Pode ter viradas e mudanças. Eu acredito que a segunda chance pode mudar paradigmas e padrões. Então, o Gerando Falcões recoloca homens que erraram no mercado de trabalho. A gente tem vinte homens empregados em menos de um ano. Têm de ex traficantes até ex participantes do PCC. São pessoas que batem na nossa porta o tempo todo querendo deixar o crime. O crime muitas vezes é a falta de opção. O cara olha pra esquerda e pra direita e não vê outro caminho. Embora esse cara seja visto só como criminoso, ele é também uma vítima. Quando ele vai pra uma prisão pagar uma pena, onde tem vinte, trinta pessoas em uma sela, e a comida é muito menos do que ele precisa, ele não tá só cumprindo sua pena, ele tá sofrendo uma tortura psicológica. Daí, quando ele sai, ele reproduz isso e esse é o momento pra alguém mostrar que existe futuro, perdoar e dizer “Cara, eu acredito em você. Sei que você não vai me roubar. Você é muito mais que isso.” Assim a gente muda a vida das pessoas, porque a gente resolveu amar. O modelo de questão disso é o amor.

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Fala!: O seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) foi o livro “Dialogando com lideranças”, em que você entrevistou grandes personalidades brasileiras. Como foi o processo e os desafios desse trabalho?

Edu: No meu primeiro dia de aula um professor leu o meu texto e disse que eu não tinha chance alguma de ser jornalista, que meu texto era muito ruim. E aí eu quis dar uma resposta pra esse professor e não deixar ele dilapidar meus sonhos. Daí, eu tive a ideia de fazer um grande TCC e pensei: “Pô, preciso fazer algo de expressividade.” Então eu viajei o Brasil, entrevistei o Oscar Niemayer, MV Bill, Marina Silva, o representante do Papa no Brasil e outras personalidades. Agora, como eu consegui foi um negócio de muita ousadia pra pensar “Por quê não?” Eu tenho essa mania. O professor disse “Não dá” e eu disse “Por quê não?” Porque quando a gente diz isso abre uma janela muito grande com vários SIM. O jovem tem que ser esse cara que diz “Por quê não?”, tem que aproveitar todo esse aparato de tecnologia e facilidades. Antigamente, você tinha que mandar fax e cartas. Hoje você manda um email, tem WhatsApp.

Fala!: Então o seu trabalho foi totalmente independente? Você conseguiu os contatos indo atrás por conta própria?

Edu: Eu viajei pra outros estados sem dinheiro. Chegava na sala e perguntava “Você tem parente que mora e Brasília?” “Tenho, minha tia.” “Então pede pra ela me receber”. Eu batia na porta das pessoas e dizia “Gente, eu tenho um sonho. Quero escrever um livro. Você pode me ajudar?” Então é isso, essa coisa de você ter um sonho, olhar pra esse sonho e dizer “Por quê não?” e a partir disso criar um plano e correr atrás. Eu sempre me achei muito rebelde. Mas lá fora a rebeldia é pegar numa arma, é cheirar cocaína. Mas pra mim a rebeldia sempre foi a de dizer “Vou realizar meus sonhos. Eu não vou ser vítima do sistema. Eu não vou pegar em armas. Eu não vou roubar.” Isso é ser rebelde. Pra mim rebeldia não é pixar um muro, é fazer um graffitti. O jovem tem que querer ser rebelde.

Fala!: Recentemente vocês criaram o Jornal Gerando Falcões. Como funciona o jornal?

Edu: O jornal foi criado com o objetivo de comunicar o que a gente faz pra comunidade. Para a comunidade ter maior compreensão do que é uma ONG, da importância dos trabalhos sociais, ter a compreensão de que a vida é dura mas tem como mudar. Eu sempre fui revoltado com essa história da minha comunidade só aparecer no Daneta quando o ônibus tá pegando fogo. Eu não gosto disso. Parece que é só isso, e na verdade não é só isso. Então, nesse jornal, eu criei o slogan “A periferia no lugar que ela merece”. Eu amo esse movimento da gente conseguir uma outra conversa sobre o lugar onde a gente mora. É uma outra forma de discutir o tema pela ação e engajamento.

Saiba mais sobre a Gerando Falcões: PÁGINA NO FACE / SITE.

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Por: Beatriz Mazzei – Fala! Anhembi

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