Elena Ferrante e sua literatura-espelho: Resenha da série napolitana
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Elena Ferrante e sua literatura-espelho: Resenha da série napolitana

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A experiência de se ler nas mulheres da tetralogia napolitana, de Elena Ferrante

Depois de anos de livros abandonados pela metade, decidi fazer as pazes com a ficção. Desde o princípio, sabia que leria mulheres, não só para conhecer mais autoras, mas como parte de meu processo de autoconhecimento. Dentre muitas leituras maravilhosas, a que julgo responsável por selar, de fato, meu novo encanto com a literatura é a tetralogia napolitana, de Elena Ferrante.

Elena Ferrante
Edição brasileira da série napolitana, de Elena Ferrante. | Foto: Reprodução.

Para alguém que não conseguía se lembrar de muitos romances começados e terminados, depois das sagas fantásticas best sellers da pré-adolescência, foi um prazer surpreendente o magnetismo com que fui arrebatada pelas mais de 1500 páginas da obra.

Apesar de apresentar um mundo desprovido de magia, pelo contrário, extremamente palpável e muitas vezes cruel, a autora me conquistou e me fez torcer por suas personagens, da mesma forma que torci por Harry Potter e Percy Jackson quando mais nova.

Elena Ferrante

Elena Ferrante é uma escritora italiana cuja identidade é um segredo desde 1992, quando começou a publicar. Mesmo após o sucesso mundial advindo dos quatro romances que constituem a série napolitana, lançados entre 2011 e 2014, e adaptados para a televisão em 2018 pela HBO, a autora prefere se manter reclusa, já que acredita que um bom texto deve ser capaz de se sustentar por si só.

Há diversas especulações sobre sua identidade, inclusive seu gênero, porém, tendo a concordar, como boa parte das mulheres que a leram, que a verdade que expõe no que escreve só poderia ser alcançada por alguém que se identifica como mulher.

Literatura feminina

Se as capas de A amiga genial e seus consecutivos parecem reproduzir o estereótipo do que se convencionou chamar literatura feminina, em seu texto, a autora subverte esse conceito, explorando, com personagens redondas, vivências femininas sinceras e diversas.

Aborda a maternidade, as relações afetivas, as amizades, o trabalho, a sexualidade e o envelhecimento de forma não idealizada, nem estereotipada. Trazendo mulheres imperfeitas de sentimentos conflituosos, Ferrante realiza a proeza de, por meio da ficção, descrever o real de forma não panfletária, mas certamente feminista.

série napolitana
Edição original. Há quem acredite que o estilo das capas seja uma estratégia para enfatizar a subversão. | Foto: Reprodução.

Histórias da série napolitana

O primeiro volume da série tem início quando Elena Greco (conhecida como Lenu), uma senhora de 66 anos, descobre que sua amiga de infância, Rafaella Cerullo (tratada como Lina por todos e Lila por Lenu) está desaparecida.

Assim, num ato de vingança, Lenu escreve um retrospecto detalhado de suas vidas, que se desdobra em História do Novo SobrenomeHistória de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida, impedindo que a amiga realize plenamente seu objetivo antigo de apagar-se sem deixar vestígios.

Centrada na relação intensa, simbiótica e ambígua entre essas duas mulheres, nascidas num bairro periférico da Nápoles pós-guerra, a narrativa explora as dificuldades de ser mulher em meio à violência, ao machismo e à escassez material, de oportunidades e de afetos. Apresenta e discute criticamente a situação política caótica da Itália da segunda metade do século XX, com suas máfias fascistas e brigadas comunistas, entrelaçando esses dilemas nas vidas das personagens.

As duas amigas, melhores alunas da escola primária e leitoras ávidas, selam sua amizade em torno de um desejo comum de transgredir à realidade a elas imposta. No decorrer dos anos, seguem caminhos diferentes, se afastam e se aproximam, se machucam e se protegem.

A narradora Lenu, racional e conciliadora, faz um ótimo contraponto com Lila, que tende para a impulsividade e a rebeldia por natureza. Tão complementares quanto divergentes, são demasiadamente humanas em sua complexidade, de forma que, mesmo ao suscitar julgamentos, provocam empatia.

Talvez resida exatamente aí o fantástico na literatura da italiana. Por meio de sua escrita assertiva e crua, Ferrante enlaça o leitor não só por meio do estilo folhetinesco e das viradas narrativas, mas especialmente por explorar temas e situações mundanas de forma extremamente sensível e incomodamente honesta.

Ao nos colocar diante de pessoas tão imperfeitas — a começar pela própria narradora — a autora transcreve o indizível da experiência humana e nos faz enxergar o que em nós muitas vezes não conseguimos acessar ou mesmo admitir que nos habita.

Resenha da coleção

Em suas páginas, a italiana apresenta homens brutos, espancadores e abusadores, em contraponto com homens cultos, que, por baixo de sua intelectualidade, também reificam e manipulam as mulheres com as quais convivem.

De forma constantemente metonímica, essa oposição — e confluência — se expande por toda a obra: Lenu e Lila, a cidade e o bairro, o norte e o sul, o italiano culto e o dialeto. Todos são ora uma parte, ora o todo de uma relação ambivalente entre a ordem e o caos, que, como a autora não cessa de provar, tem momentos de atração e de repulsa, de oposição completa e de espelhamento.

E hoje eu vejo assim: não é o bairro que está doente, não é Nápoles, é o globo terrestre, é o universo, ou os universos. E a habilidade consiste em ocultar e esconder para si o real estado das coisas.

Nós, leitoras, nos deparamos com nosso passado e possível futuro, nossos próprios questionamentos, inseguranças e desejos mais intrínsecos. Durante a leitura, me questionei várias vezes se era eu quem lia os livros ou eles que liam a mim. As mulheres de Ferrante, mesmo em suas desavenças e conflitos, estão sempre intimamente ligadas por sua condição de ser mulher — com todas as suas especificidades. Assim, da mesma forma que na história todas sentem certa compaixão umas pelas outras, é impossível não sentir o mesmo por elas.

A boa literatura é, afinal, aquela capaz de nos fazer reconhecer nossa própria humanidade comum, como demonstra a autora. Em dado ponto da história, uma das personagens publica um romance, lido por várias outras mulheres da trama, que reconhecem em suas linhas algo de si que muitas vezes nunca conseguiriam expressar nem mesmo na solidão de suas mentes. “São segredos que só se sabe quando se é mulher”, aponta uma dessas personagens leitoras, descrevendo uma sensação que nós, que lemos Ferrante, conhecemos bem.

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Por Carolina Torres – Fala! UFRJ

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