Einstein, Hawking e Netflix: a ciência presente na série 'Dark'
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Einstein, Hawking e Netflix: a ciência presente na série ‘Dark’

Einstein, Hawking e Netflix: a ciência presente na série ‘Dark’

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No dia 27 de junho, foi lançada a última temporada – ou melhor, último ciclo – da série Dark. Produção original Netflix, a série é alemã e trata de uma série de mistérios nada usuais que acontecem na cidade de Winden, envolvendo o sumiço de um garoto e uma complexa conexão entre gerações de quatro famílias: Nielsen, Tiedemann, Doppler e Kahnwald. 

final de Dark explicado
Jonas Kahnwald, um dos personagens principais da série. | Foto: IMDb.

Em três temporadas com oito ou dez episódios cada, Dark combina suspense e ficção científica, tratando de viagens no tempo e outros conceitos que não são apenas fruto da imaginação dos roteiristas: muito do que é mostrado na série foi baseado em teorias e estudos reais do universo da Física e outras áreas da ciência.

Confira, abaixo, alguns desses elementos científicos presentes na série que lhe trarão ainda mais reflexões sobre o espaço-tempo e os fenômenos do universo.

(Alerta de Spoiler! Contém informações das temporadas 1 e 2.)

A Teoria da Relatividade 

Finalizada em 1915 por Albert Einstein, a revolucionária Teoria da Relatividade baseia-se na percepção de que as dimensões do espaço e o tempo são relativos e interligados, diferentes faces de uma mesma entidade que podem ser percebidos de maneira diferente por cada indivíduo. Com essa ideia, é gerada a hipótese de que os inumeráveis pontos do espaço existem em todos os instantes.

Uma referência a essa teoria é o que inicia o primeiro episódio da primeira temporada de Dark, por meio de uma frase de 1955 do próprio Einstein em sua abertura: 

A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão.

Na série, tal ideia se mostra presente praticamente a todo instante, atrelada sempre à viagem no tempo possibilitada pelos chamados “buracos de minhoca”. Ao mesmo tempo em que algo acontece na Winden de 1953, por exemplo, outro instante também já está em andamento na Winden de 2019, assim como na de 1986. Assim, passado, presente e futuro não são essencialmente lineares, mas coexistem entre si.

Buracos de Minhoca

Durante o desenrolar dos acontecimentos, uma caverna no meio da floresta torna-se figura recorrente na série. Por mais que possa parecer um mero ícone da paisagem, ela também revela-se um meio de viagem no tempo, mais especificamente, um buraco de minhoca. Este transporta Jonas, Mikkel e outros personagens para ciclos diferentes, 33 anos antes ou depois do tempo em que vivem originalmente.

Atrelados também à Teoria da Relatividade Geral em uma colaboração teórica entre Albert Einstein e Nathan Rosen, os “wormholes” ou Pontes de Einstein-Rosen são uma espécie de dobra no espaço-tempo, gerada pela deformação provocada por um corpo. Ao dobrar esse tecido a ponto de que se formem duas extremidades, existiria então um atalho entre elas, conectando distintas partes do tempo. 

Mesmo que operante na série, esse conceito não possui uma aplicação efetiva na realidade. Para permitir a passagem de seres humanos por esse portal, por exemplo, seria necessário algo como uma matéria com massa negativa, que possa até mesmo nem existir.

A ideia dos buracos de minhoca relaciona-se também aos estudos do físico Stephen Hawking sobre as dinâmicas dos famosos buracos negros. Em uma palestra da BBC Retith Lectures transmitida em 2016, Hawking pondera sobre a possibilidade de que esse buraco talvez não seja tão “negro” assim, e seria, na verdade, possível sair de um deles por meio de uma espécie de viagem – talvez até para outro universo diferente do que conhecemos.

ciclos de Dark
Triquetra representando os três ciclos de Dark, destinos do buraco de minhoca. | Foto: IMDb.

A “Partícula de Deus”: Bóson de Higgs

Logo nos primeiros episódios da segunda temporada, uma grande massa escura é introduzida na história. Apresentada a Jonas como  “Partícula de Deus”, ou simplesmente “Matéria Escura”, ela  viabiliza uma espécie de portal para as viagens no tempo. Manter as partículas subatômicas estáveis são essenciais para a obtenção desse portal, e, por mais que não seja possível na vida real, isso é alcançado no enredo de Dark.

O fato é que essa matéria escura faz referência a uma partícula elementar estudada pelo físico britânico Peter Higgs, na década de 1960. Nomeada como “Bóson de Higgs” em homenagem ao pesquisador, ela consiste numa partícula subatômica que forneceria massa a partículas elementares, ou seja, aquelas que já não podem ser divididas em unidades menores. Sua existência teria sido essencial para a formação do Universo e dos próprios átomos.

Mesmo com a dificuldade de observação, detectores do Grande Colisor de Hádrons identificaram sinais da existência do bóson e do campo de Higgs cinquenta anos depois da formulação da teoria, conferindo a Peter Higgs e ao cientista François Englert um Prêmio Nobel de Física.

"Partícula de Deus" em Dark
A “Partícula de Deus” em Dark.  |  Foto: IMDb.

O Paradoxo de Bootstrap

Pautado na ideia de viagem ao passado, o Paradoxo de Bootstrap foge da noção usual de tempo linear e consiste na teoria de que informações e objetos podem existir mesmo sem terem sido criados, presos em um looping infinito de origem indeterminada. Ele é apenas uma hipótese, já que não possui comprovações e desafia outras leis da Física, mas pôde ser amplamente inserido em Dark.

Em vários momentos, a série o explora, como no caso do livro de H.G Tannhaus: o jovem relojoeiro recebe uma cópia de sua obra Uma Jornada Através do Tempo das mãos da personagem Claudia Tiedemann, antes mesmo de o ter escrito. Ele então publica alguns exemplares e, anos depois, um deles chega às mãos de Claudia, que, por meio de uma viagem no tempo, o entrega a Tannhaus ainda jovem. Isso gera uma espécie de ciclo, no qual o livro existe, mas não foi efetivamente escrito ou pensado por alguém. 

Outra das grandes revelações da segunda temporada gira em torno de Charlotte Doppler e sua conexão com a filha Elisabeth, responsável por dar um grande na mente dos fãs da série.

Charlotte é criada por um avô adotivo e cresce sem saber quem são seus pais, e, quando adulta, tem duas filhas: Elisabeth e Franziska. Elisabeth cresce e, no futuro pós-apocalíptico da série, tem uma filha chamada Charlotte. A bebê é tirada dela e levada para o passado, no qual é adotada. Assim, cria-se um ciclo paradoxal na própria existência de Charlotte, que é ao mesmo tempo mãe e filha de Elisabeth. Não se sabe, por fim, qual delas veio primeiro.

Elisabeth e Charlotte em Dark. | Foto: Netflix/Divulgação.

Para mais informações sobre a série, o guia oficial oferece uma experiência interativa ao longo dos episódios, explicando “quem, quando e onde” do desenrolar dessa narrativa fantasiosa, mas ainda cheia de ciência. E se o começo é o fim e o fim é o começo como dito em Dark, o final desse texto pode ser apenas o início da sua experiência com a interessante complexidade do universo da série – inteiramente disponível na Netflix.

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Por Isadora Noronha Pereira – Fala! Cásper

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