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DO MACRO AO MICRO: A CULTURA ATRAVÉS DO OLHAR JORNALÍSTICO

DO MACRO AO MICRO: A CULTURA ATRAVÉS DO OLHAR JORNALÍSTICO

“A velha Taylor morreu”, afirma a letra de Look What You Made Me Do, single da cantora americana Taylor Swift. Além de promover seu álbum, a artista aproveitou o lançamento do clipe para anunciar sua nova turnê. E assim foi “dada a largada” para a venda de ingressos. Rádios no mundo todo começaram a divulgar. Jovem Pan, 25 de agosto, é notícia:

Taylor Swift
Show Taylor Swift

Aqui a rádio paulista enaltece o trabalho da cantora e cita o sucesso das vendas no site Ticketmaster. Mas o que essa manchete oculta são as várias críticas que a campanha de marketing recebeu. Só procurando na internet que você vai conseguir entender essa polêmica. NexoJornal, 04 de setembro, é notícia:

cantora taylor swift
Show Taylor Swift

O artigo expõe as estratégias do Ticketmaster para afastar cambistas, mas aponta também que essas estratégias beneficia os fãs que podem gastar mais. Comparado com a magnitude desse debate, a informação transmitida pela Jovem Pan parece até insignificante. Isso prova: nas grandes emissoras ou nos grandes portais se encontra pouca contextualização. Isso quem faz com excelência é a mídia alternativa.

“[…] Jornais mais corporativistas não têm tanto interesse em cultura por cultura”

Originalmente, a imprensa alternativa surge para oferecer pontos de vista diferentes e opostos aos valores vigentes. Durante a década de 60, com o estabelecimento da Ditadura Militar, os primeiros veículos alternativos surgiram apresentando uma agressiva propaganda contra o governo ditatorial. Em tempos de censura, periódicos como O Pasquim, Opinião e Versus – que possuíam críticas mais sutis – ainda conseguiam se manter “aos trancos e barrancos”, enquanto muitos jornais temporários apareciam por um curto prazo, mas logo sumiam das ruas.

ditadura militar
Cartoon Ditadura Militar

Na arte, esses canais de comunicação foram responsáveis pela propagação de filmes, livros e canções consideradas subversivas pelo Governo Militar. Se consagraram grandes nomes desse período Glauber Rocha no cinema, Nelson Rodrigues na literatura e Chico Buarque na música.

Com a redemocratização do país, a imprensa tradicional se tornou mais flexível. Hoje são poucos os veículos declaradamente alternativos. Podemos mencionar o Nexo Jornal, a revista Antro Positivo, o Mídia Ninja e o Jornalistas Livres. Além disso, temos também os blogs especializados, que se popularizaram a partir da década de 2000. Um exemplo é o Sociedade Jedi, um dos sites mais visitados no Brasil dedicado a Star Wars (Guerra nas Estrelas). Vebis Júnior, Mestre em Cinema e grande conhecedor do universo de Star Wars, fundou o site em março de 2015, junto com amigos que também são fãs da saga. Apaixonado por filmes, ele decidiu mergulhar na pauta escrita e na análise cinematográfica. Essa parece ser a tendência de muitos blogueiros da sétima arte.

Vebis também é jurado do CineFantasy, um festival de cinema de horror fantástico e ficção cientifica. Eventos como esse normalmente não recebem um incentivo. “A gente entrega no Catraca Livre e eles ajudam a divulgar, mas a Folha nunca falou, o Estadão nunca falou. Então esses jornais mais corporativistas não têm tanto interesse em cultura por cultura. Eles querem estar sempre coligados de alguma maneira. ” – aponta Vebis.

O Catraca Livre é um ótimo exemplo de mídia independente que utiliza de sua articulação para divulgar eventos culturais, na sua maioria gratuitos e acessíveis para a comunidade. Deborah Camargo, coordenadora do curso de teatro da Universidade Anhembi Morumbi, cita o papel do site na disseminação de peças teatrais e musicais. “Muitos espetáculos são de graça por causa de leis de incentivo do governo, e às vezes as pessoas não sabem. Elas têm vontade de ir, mas não sabem onde ocorrem essas peças. E o Catraca Livre é um dos meios que divulga peças gratuitas. ” – ressalta a educadora. Podemos acrescentar nesse mesmo segmento o Guia da Semana e o Guia OFF.

Através do alcance do Catraca Livre, a cultura é disseminada e cenários educativos são estimulados.

Leitora do Mídia Ninja e da revista Antro Positivismo, Deborah lamenta o estreitamente sofrido pelas mídias de cultura. “A gente perdeu muito espaço. Tínhamos vários jornais, algumas revistas eletrônicas em artes. E assim foram terminando. Aos domingos o espaço é até maior do que nos outros dias, mas nós perdemos muito espaço sim. E não temos outras alternativas possíveis.” – aponta Deborah.

“[…] Um olhar mais diagonal da coisa”

Outra grande variação e, talvez a mais importante, é o modo de abordagem. A mídia alternativa é muita mais aprofundada e ambientada. Camilo Rocha é um jornalista especializado em cultura e tecnologia. Nos seus 25 anos de carreira, ele já trabalhou em grandes jornais como o Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo e O Globo, mas atualmente compõe a equipe do Nexo Jornal como repórter especial. Com experiência tanto no macro quanto no micro, ele avalia como mídias tão divergentes abordam o mesmo assunto.

“Por exemplo, quando estrou Alita: Anjo de Combate, saiu matéria no Caderno Dois do Estadão e na Ilustrada da Folha falando do lançamento do filme, entrevista com o diretor, etc. O Nexo não faz isso. Nesse caso, ele pode falar sobre o cyberpunk – movimento literário que gerou a obra -, ou sobre adaptações de mangás em Hollywood. Enfim, vai ter um olhar mais diagonal da coisa.” – exemplifica Camilo.

Redação do Nexo, um jornal digital criado em novembro de 2015 com a proposta de trazer contextualização para as notícias.

Vebis Júnior, gerenciador do Sociedade Jedi, confirma esse estilo. Ele percebe uma dissonância muito evidente quando outros sites citam os filmes da saga Star Wars (Guerra nas Estrelas). “Os grandes blogs de cultura pop, como Jovem Nerd e Omelete, não fazem um trabalho limpo. Quando eles vão falar de Star Wars, eles dão um tiro no pé, acabam fazendo quase uma antipropaganda. Vai falar de um filme que vai lançar, mas reclama do outro antigo. Quer dizer, o fã de Star Wars, que conhece a grande mídia de cultura pop, já lê descreditado, porque não existe um pensamento crítico.” – desabafa Vebis.

Ele acrescenta ainda sobre a falta de profissionalismo hoje nas grandes redações.

“São pessoas sem propriedade. Estão apenas transmitindo notícias. Eles não vão porque gostam daquilo. E isso acontece de modo geral. Você tem a visão de mercado e tem a visão de autor, seja no jornalismo, seja num blog especializado.” – prossegue Vebis.

É quase um fato consumado que hoje a cultura tem seu lugar muito mais valorizado numa mídia pequena. O maior objetivo, nesse momento, é alcançar não só o público que aprecia o mundo da cultura, mas também as pessoas que não acompanham frequentemente o caderno cultural, conferindo um olhar mais diagonal da coisa e aproximando o público geral dos ambientes culturais. É um caminho a ser conquistado.

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Matheus Menezes – Fala! Anhembi

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