Djumbai africano: Conheça a Literatura da Guiné-Bissau
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Djumbai africano: Conheça a Literatura da Guiné-Bissau

Djumbai africano: Conheça a Literatura da Guiné-Bissau

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Emílio Tavares Lima é um jovem promissor com o futuro pela frente, a nova literatura do país, a Literatura Guineense, certamente merece um destaque em todas as estantes.

Quem é o Emílio Tavares Lima?

O escritor, poeta e comunicólogo que responde pelo nome Emílio Tavares Lima é africano da Guiné-Bissau e que guarda ainda ótimas recordações dos seus tempos de criança, pois nasceu nos primórdios da independência, foi das crianças ninadas com promessas de um tempo novo, tempo de esperança, tempo da paz e de progresso. Foi uma das flores de setembro.

Nasceu de uma família numerosa, é filho do meio de 22 irmãos! Foi nesse ambiente familiar que muito cedo aprendeu a ser humilde, sonhador, dinâmico e persistente. Também foi do berço que desenvolveu os conceitos de solidariedade e fraternidade. Essas qualidades estão sempre presentes em tudo que ETL faz, quer no associativismo juvenil, no teatro, na literatura e outros, sempre fez questão de juntar pessoas de diferentes áreas de saber para um projeto comum, porque foi lhe ensinado que uma andorinha não faz a Primavera.

Mesmo a viver na diáspora, já há mais de duas décadas, ainda vive a nostalgia que reina no coração de qualquer criança africana que teve que deixar o seu país por razões alheias à sua vontade, dava tudo para novamente tomar um banho debaixo da chuva grossa do clima tropical.

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Emílio Tavares Lima compõe Literatura Guineense. | Foto: Reprodução.

Literatura Guineense: entrevista com Emílio Tavares Lima

Quando começou a escrever e quanto tempo levou para escrever o seu primeiro livro?

“Antes de começar a escrever, importa sublinhar que, ainda criança, revelei uma grande paixão pela oralidade como forma de expressão artístico-cultural comum na África. A convivialidade que nós chamamos de “djumbai”, o contar histórias nas noites de luar, ou simplesmente à volta da fogueira ou junto dos mais velhos.

No meu caso particular, herdei o gosto pela “oralitura” da minha avó, quando a conheci, já era cega, mas era uma exímia contadora de histórias e aprendi muito com ela. Ainda na escola primária, já declamava poesia, já no ensino básico e liceu, fui responsável pela biblioteca da missão católica em Canchungo – norte do país -, foi assim que começou essa transição natural e progressiva da oralitura para a literatura propriamente dita, preservando sempre a oralidade.

No entanto, já na adolescência, recebi uma máquina de escrever e passei a datilografar cartas, que enviava a um «outro eu» que vivia noutro país. E esse «outro eu» respondia-me sempre, sem falhas. Entretanto, levou mais de uma década até ver o meu primeiro livro de poesia editado em 2002 – A Esperança é a Última a Morrer – em Amsterdã, Holanda, sob o apoio da Fundação Bartolomeu Simões Pereira.

Quando comecei a escrever os meus primeiros poemas, tinha apenas 15 anos de idade e estava ainda a viver na Guiné, portanto, publicar um livro não estava propriamente ao meu alcance. Escrevia para exorcizar os meus males, eternizar as minhas quimeras, transportar para o papel os meus sonhos e divagações. Já com os livros subsequentes, tudo mudou, houve planificações com timing mais ou menos definidos para cada etapa, desde criação, revisão, contatos com as editoras para, depois, juntos, encontrarmos uma data ideal para lançamento do livro.”.

Como é ser escritor Guineense?

“Ser escritor Guineense, não deixa de ser, em parte, igual ao ser escritor de qualquer parte do mundo, pois, de modo geral, ser escritor guineense implica ter a capacidade de criar ou transpor para um livro ou outro formato, por exemplo, o digital, os próprios sentimentos ou de outros, angústias, ficções, desejos, anseios e receios de uma forma criativa.

Não é fácil ser escritor na Guiné-Bissau, há limitações de várias ordens, não há condições financeiras, nem materiais para produzir livros de qualidade na Guiné, isso porque os sucessivos governos têm negligenciado a cultura para último plano. Mesmo assim, o setor cultural tem tido grandes crescimentos, graças aos esforços individuais dos próprios escritores ou fazedores da cultura.

O livro é, sem dúvida, um objeto de luxo que não está ao alcance de todos na Guiné-Bissau. Seja pela falta de poder de compra da maioria da população ou pela falta de inclusão de obras de autores guineenses no sistema de ensino pelos sucessivos Governos. A gravidade dessa falta de sentido dos servidores públicos, faz com que os estudantes iniciem e terminem o ciclo acadêmico sem estudar os autores nacionais, mas, pelo contrário, são impostos os autores de outros países.

Na minha opinião, esta é uma forma de colonização e dominação de um povo. Podia ter deixado a minha resposta a essa pergunta por aqui, mas prefiro ir mais além e acrescentar outras perspectivas.

Por um lado, podia simplesmente sublinhar que a nobreza ancorada ao ofício do escrever ou ser escritor é igual, tanto na Guiné-Bissau ou na China, mas não, não posso fazer isso porque sei que as circunstâncias, as condições ou a falta delas e todo o meio envolvente acaba por influenciar, e de que maneira, a capacidade, o ritmo e a qualidade de produção e de projeção dos criadores.

Por outro lado, tenho a consciência de que o simples fato de ter nascido na Guiné, ter crescido lá e conhecer a nossa diversidade cultural, com mais de 30 grupos étnicos que falam e representam-se culturalmente de maneira totalmente diferente e, tudo que por lá tem acontecido seja no xadrez político, altamente corrupto, o que acaba por transbordar para a sociedade civil, espelhando como a nossa outrora pacata sociedade tem vindo a transformar-se e experimentar grandes inversões de valores.

Arriscaria dizer que a grande dificuldade, hoje, na Guiné é tentar perceber e distinguir a linha que separa a ficção da realidade. Como escritor, acredito que todo esse imbróglio faz do país uma das maiores fontes de inspiração do planeta Terra. É verdade que o problema da inversão de valores não é apenas da Guiné-Bissau, mas sim, tem acontecido um pouco por todo o mundo.

Tem-se vivido períodos extremamente conturbados, a saber, Covid-19 acaba por ser o epicentro de toda a atenção universal, mas não se pode esquecer outros problemas, tais como os refugiados de guerras, das alterações climáticas, a dependência das drogas e os seus efeitos e consequências naquela que é considerada a força motriz das sociedades, a juventude. Todos esses problemas tornam a sociedade atual cada vez mais agressiva, com mais criminalidade, ainda mais corrupta e menos solidária. Quero, com toda essa explanação, vincar que os escritores Guineenses têm muita matéria-prima por transformar e delapidar.”.

Como escritor, poeta e comunicólogo, qual das tuas histórias te define?

“Nunca tinha feito esse interessante exercício! Sou um sonhador nato, adoro criar a partir do nada, a chamada ficção pura. Mas, sem dúvida, que também consigo pôr muito de mim, as experiências vividas ou conhecidas, nas minhas criações. Diria até que em cada livro eu posso escolher uma mão cheia de histórias com que me identifico mais!

Em relação aos romances, identifico-me mais com Finhani – O Vagabundo Apaixonado, por ser um livro que tem conteúdo de humanismo, solidariedade, da ilusão associada à emigração, de frustração, de esperança, da autoconfiança e do amor ao próximo.

Quanto às prosas poéticas, identifico-me mais com os seguintes títulos: Não me Peçam Explicações, Promessa à Pátria Amada, Celebridade vs Vaidade, Traços no Tempo, Pedaço Teu e tantos outros.”.

Existe um movimento poéticos em Guiné-Bissau, a fim de fornecer bases para incentivar jovens que tenham sonhos de serem escritores?

“Relativamente a esta questão, posso afirmar que existe mais do que uma organização/movimento literário, mas permita-me falar do Movimento literário “Djorson Nobu” (Geração Nova), de que sou mentor. Nasceu em Portugal em 2010, e, dois meses depois, conseguimos criar uma célula em Bissau.

A publicação de Traços no Tempo – Antologia poética juvenil da Guiné-Bissau é precisamente o movimento que quebrou o silêncio que houve em termos de publicações de antologias poéticas na Guiné-Bissau. O 1º volume foi publicado em 2010, e contou com 23 jovens. Já no 2º volume, juntaram-se 46 jovens autores de ambos os sexos. Uns vivendo na diáspora, por força de uma formação acadêmica (Portugal, França, Londres, Dacar, EUA) e a maior parte residindo na Guiné.

A antologia tem mais de 410 páginas, com mais 225 poemas escritos em português e em crioulo. Resumidamente “Djorson Nobu” é a organização que tem por objetivo:

A) Unir, levar e impulsionar a expansão do espírito criativo com vista a fortalecer a união entre os jovens guineenses espalhados pelo mundo, com gosto pela escrita; b) Incentivar a camada juvenil a encarar a sua formação acadêmica ou profissional como um compromisso no sentido de sanar o desemprego, a delinquência, a dependência, a prostituição e a violência; c) Incutir na camada juvenil a vontade e a consciência de lutar e sacrificar para um futuro melhor, para o bem da nossa e das gerações vindouras; d) Promover ações acadêmicas/culturais para a inserção e divulgação da capacidade criativa dos jovens guineenses; e) Promover atividades culturais, recreativas, palestras, colóquios, seminários, debates, com vista a um desenvolvimento eficaz do bem-estar da juventude bem como a promoção da nossa identidade Cultural e fomentar o intercâmbio de cultura com outros países da língua oficial portuguesa e nos países onde existe uma expressiva comunidade Guineense.”.

O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?

“A mudança da imagem negativa que as pessoas tem da África vai acontecer gradualmente e tem que partir de nós, os africanos. Precisamos mudar a nossa mentalidade, racionalizar a exploração e gestão dos nossos recursos naturais de maneira que beneficie a nossa população. Necessitamos ser mais humanos, mais solidários uns com os outros, precisamos olhar e tratar o nosso continente, assim como o nosso povo com muito mais amor, mais respeito, pois, só assim, os outros poderão dar-nos o devido respeito.

Precisamos de novas lideranças, mais fortes que possam inspirar essa mudança coletiva da forma como tratamos o nosso continente. Os nossos recursos precisam ser transformados no nosso próprio continente, automaticamente estaremos a aumentar mais postos de emprego, travar o fluxo migratório e êxodo rural.

No entanto, o que eu gostaria que acontecesse é que os países africanos fossem capazes, mesmo sem grandes líderes, de ter uma ampla participação e de perceber que os fenômenos políticos implicam a construção de novas identidades; que envolve uma grande capacidade de tolerância, de integração e de produção de riqueza.

Agora, cabe a nós, esta geração mais nova é altamente responsável por isso. Penso que podemos buscar alto testemunho e energia à memória dos grandes líderes, como Amílcar Cabral, Nelson Mandela, mas cabe a nós reconstruir ou reparar a imagem negativa que as pessoas têm dos africanos. Aqui, todos somos poucos para percebermos que a construção dos Estados Africanos implica muito esforço, porque a nossa cultura, o nosso modo de vida e as nossas tradições estão pouco preparadas para o conceito de estado e modelo democrático aplicado no Ocidente.

Entretanto, se calhar a própria concepção do Estado vai mudando e poderá ser adaptada às concepções que nós, africanos, temos dele. De qualquer maneira, até lá, seria bom que nós, os jovens africanos, fôssemos capazes de perceber que só com grande esforço, tolerância e grande envolvimento poderemos construir um Estado realmente interessante para que todos possamos viver em paz, sossego, alegria e com os recursos mínimos, para que possamos ter uma vida com a qualidade que todos desejamos. Se tudo isso acontecer, a mudança da imagem negativa que as pessoas têm de nós irá naturalmente desvanecer.”.

Emílio Tavares Lima
Emílio Tavares Lima. | Foto: Reprodução.

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Por Benazira Djoco – Fala! Uniesp

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