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Dia do Índio – pouco para celebrar, muito para refletir

Dia do Índio – pouco para celebrar, muito para refletir

Thiago Dias – Fala! Anhembi

No dia 19 de abril comemora-se no Brasil o dia do índio – e se não há tanto assim para celebrar, há muito para refletir sobre os valores culturais dos povos indígenas e a importância da sua preservação e respeito.

Em 22 de abril de 1500, o território que viria a ser o Brasil foi invadido por exploradores portugueses. Estima-se que cerca de 2 milhões de indígenas habitavam a região nessa época. Mas não se engane: a maior parte da população brasileira atual entende a ‘descoberta’ do Brasil através de uma carta enviada por Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal.

“Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.” CAMINHA, Pero de Vaz.

Festa do Moqueado Tembé – Aldeia Itapuyr (Pará, Brasil)
Foto: Mídia NINJA

É costume acreditar que o início da história do Brasil como país se deu através da colonização. Mas os povos que aqui habitavam continham – e contêm – uma sabedoria milenar, que hoje é esquecida pelo nosso povo. Os colonizadores dizimaram os indígenas e apagaram sua história, e a prova disso é que nenhum brasileiro médio conhece qualquer coisa sobre os povos do “Brasil” pré-colônia portuguesa. E não é exatamente culpa deles, afinal, como deveriam saber se nada disso é ensinado nas escolas?

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Vivemos em um país em que a população vê o homem branco como o salvador que traz o desenvolvimento. Dia 19 de abril é o dia do índio porque foi a data em que em 1940, no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, os líderes indígenas de toda América Latina convidados para o evento decidiram aparecer, receosos que estavam de ser mais uma armadilha do homem branco. De lá para cá, costumou-se nessa data realizar “homenagens” aos índios, que costumam se resumir em pessoas brancas vestindo os símbolos da cultura indígena como “fantasia” e pouca ou nenhuma discussão sobre a existência e resistência dessas culturas nos dias atuais. Não se fala, por exemplo, que temos uma luta séria de demarcação de terras indígenas contra grandes empresas exploradoras de recursos naturais. Dizimar populações e culturas inteiras em nome do dinheiro? Por que não?

Foto: Mídia NINJA

Mas várias conquistas e movimentos sociais estão surgindo com o desenvolvimento da consciência de que precisamos proteger esses povos. Um bom exemplo é o Fórum Alternativo Mundial da Água, que discute a importância dos ribeirinhos e os cuidados dos quilombos com a água, além dos impactos do desastre em Mariana.

As iniciativas a favor da causa ainda sofrem com diversas dificuldades. Em 1986, o antropólogo e cineasta Vincent Carelli criou o “Vídeo nas Aldeias”, um projeto na área de produção e formação audiovisual com comunidades indígenas, que dá voz aos índios e os transformam em protagonistas. Mas em Novembro de 2016, a atriz Rita Carelli compartilhou em suas redes sociais o fim do projeto por falta de recursos. “A Noruega está cancelando esse programa amplo de apoio aos indígenas. Então ficamos sem uma base institucional”, declarou Carelli em entrevista ao Nexo.

Mas em 2018, algumas novidades começam a surgir no horizonte, inclusive na representação política: a indígena Sônia Guajajara é pré-candidata à Presidência da República. Sônia é uma líder indígena formada em Letras e Enfermagem, especialista em Educação Especial pela Universidade Estadual do Maranhão. Atualmente é coordenadora executiva da APIB (Articulação dos povos indígenas no Brasil), sendo uma das lideranças indígenas mais importantes da América Latina.

FOTO: Mídia Ninja

Já na UNB temos um pioneiro vestibular Indígena, sendo um acordo de cooperação técnica entre a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Universidade de Brasília (UNB). A Unicamp apresentou uma proposta de adoção do Vestibular Indígena na instituição a partir de 2019. A cada 500 universitários da rede pública, apenas 1 é indígena, segundo pesquisa.

Entretanto, ainda existem situações como a de São Sebastião, Salesópolis e Bertioga, que juntos possuem uma área de 948 alqueires, composto por 600 indígenas da etnia tupi-guarani, sendo cerca de 280 crianças. Os índios que habitam a região moram em pequenas casas construídas em pau-a-pique cobertas por palha. A Aldeia possui uma escola para atender as crianças indígenas, e os nativos também produzem artesanatos.

No ano passado a cidade recebeu a exposição Mbaemõ Txauka-a, realizada pela Prefeitura de São Sebastião com parceria da Fundação Educacional e Cultural de São Sebastião Deodato Sant’Anna (FUNDASS) e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECTUR). A Exposição visava mostrar a cultura indígena, e assim valorizar o respeito à diversidade. Quem sabe com a continuação da luta pela #DemarcaçãoJá, e o ensino da história pré-colonial, alcançaremos o respeito e a preservação da história do povo indígena?

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