Home / Colunas / A descriminalização do aborto e seus tabus

A descriminalização do aborto e seus tabus

Por Daniel Fabra – Fala! Mack

 

A descriminalização do aborto e seus tabus

As perspectivas ideológicas e os desafios para ultrapassar a proibição no Brasil

 

Obra de Frida Kahlo, Henry Ford Hospital (The Flying Bed), que retrata o aborto espontâneo que sofreu.

Inspirado na votação argentina acerca da descriminalização do aborto, o grupo feminista “Colectivo Feminista de Argentinxs”, em união com outros coletivos, organizou um protesto na frente do consulado argentino, na Avenida Paulista. O coletivo reivindica uma abordagem mais segura em relação à interrupção da gravidez.

 

Manifestantes se reuniram no consulado argentino em prol da descriminalização do aborto. Foto: Daniel Fabra


Ativistas

“O aborto já é uma prática que existe dentro do cotidiano da mulher brasileira”, diz Laura Bimbato, 28, anos, ativista da causa. Laura acredita que a sociedade deve garantir que “essas mulheres tenham acesso à saúde, a um acompanhamento digno, além de não terem suas vidas colocadas em risco por uma gravidez indesejada”.

“A opinião não pode ser confundida com o conhecimento”

Em relação ao posicionamento religioso contra a descriminalização, Laura afirma que “não estamos falando de meras opiniões, estamos falando de políticas públicas”. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2016, o Brasil registrou uma média de 4 mortes por dia de mulheres que enfrentaram complicações em clínicas de aborto clandestinas. 

“Ninguém, em lugar nenhum, é a favor do aborto”

Militante da causa, o deputado federal Ivan Valente (PSOL), compartilhou com o Fala! suas perspectivas sobre as adversidades políticas que os ativistas enfrentam para a descriminalização: “Desde 1989, o estado é laico. Mas muitos religiosos não acreditam nisso”. “No debate da legalização, a liberdade religiosa se mistura com a intervenção punitiva em cima das mulheres”.

Ivan Valente. Foto: Daniel Fabra

“A mulher é punida, não só em sua saúde física, mas psicológica também”, complementa. “É preciso acompanhar o que já aconteceu em países mais desenvolvidos, descriminalizando o aborto, não só em casos previstos em lei, que são muito restritivos”, comenta.

No Brasil, existem três circunstâncias nas quais o aborto é permitido, sendo elas:

  • Quando a gravidez representa risco de vida para a gestante.
  • Quando a gravidez é o resultado de um estupro.
  • Quando o feto for anencefálico, ou seja, não possuir cérebro.

“As mulheres pobres e excluídas são as mais penalizadas, pois elas não têm acesso à um tratamento de qualidade. Ou seja, elas sofrem, não só do ponto de vista da dor, mas também no ponto de vista criminal”, ressalta. Para o deputado, a classe média ou alta, terá muitos meios para resolver o problema “de uma forma menos traumática, porque isso, de qualquer forma, vai ser”.

“O aborto é um mercado ilegal, mas altamente lucrativo”

Flávia Biscain, 33 anos, socióloga e professora na rede estadual, acredita que o aborto é um dos maiores fatores de feminicídio do Brasil: “Existe uma diferença muito grande entre as mulheres ricas, que conseguem pagar, e as mulheres pobres, que morrem ou ficam com sequelas, além de uma eventual prisão”. Ela ainda afirma que “essa é uma campanha pela vida, contra uma das causas que mais matam mulheres no Brasil e no mundo.

“As mulheres devem decidir se querem ser mães ou não”

Marília Rocha, gestante e ativista. Foto: Daniel Fabra


Grávida
de cinco meses, Marília Rocha, 34 anos, acredita que as mulheres devem ter seus direitos garantidos por lei. Entre eles, o aborto seguro e legal. “Existem muitos interesses por trás da criminalização, da própria igreja brasileira, que mantém uma relação intrincada com o estado”. A gestante acredita que as mulheres são julgadas pela esfera religiosa pois eles “obrigam você a acreditar naquela doutrina, impedindo a realização das suas próprias escolhas”.

Vítimas 

“Às vezes, a sociedade não considera o marido ou namorado abusivo que força relação sexual como estupro”

Miriam Amaral, 21 anos, compartilha sua história de vida, como meio de reivindicação da causa: “Eu era casada e acabei engravidando, mesmo tomando anticoncepcional, devido a um tratamento com antibióticos. Infelizmente, eu tive um aborto espontâneo com 12 semanas de gestação. Ninguém se importou. Meu corpo ficou fraco. As hemorragias não paravam e decidi ir ao Hospital da Mulher no Campo Limpo. A igreja não se importou. Meu marido não se importou. Disseram: Ainda bem que o aborto veio, né? Você não tinha condições financeiras para cuidar desse filho”, relata.

“Quando cheguei no hospital público, depois de algumas horas na fila, o ginecologista me receitou Diclofenaco (medicamento que alivia dores de inflamação) e me mandou para casa. Minha depressão se agravou, perdi o meu emprego e, por falta de dinheiro, as dívidas com médico particular se elevaram, levando o meu marido a me bater”, diz.

Amaral acredita que “se houvesse uma equipe completa de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais nas clínicas, teríamos uma diminuição significativa dos abortos clandestinos”. “Se tivessem alguém para ouvi-las, elas se sentiriam amparadas e, em alguns casos, poderiam até se arrepender. Entretanto, somos ignoradas. Não é algo que as instituições levem a sério”.

Depois do divórcio com seu marido, Miriam começou a namorar um amigo que conhecia há 10 anos. O namorado se transformou em “Ex” de uma maneira rápida. Amaral relata que “ele (ex-namorado) me forçou a fazer relação sexual sem camisinhas por duas vezes”. Ela acredita que o movimento pró-vida é hipócrita, pois “não se importam com a vida do bebê, mas em cuidar da vida dos outros. Miriam compartilha que “ninguém deu apoio, ou qualquer tipo de orientação sobre os procedimentos cabíveis”

“Eu também era contra o aborto. Até precisar fazer um”

“Há alguns anos atrás eu abortei por recomendações até médicas por que infelizmente o feto não ia resistir”, diz Zi Fernandes, 29 anos. “Eu visitei quatro grandes médicos para confirmar, procurei as melhores clínicas e foi pago um dinheiro que não podem acreditar”. Ela afirma que “foi a pior sensação da minha vida”.

“Por dois anos eu não conseguia ver uma criança. Eu chorava! Me sentia culpada, mas o tempo (muita terapia e ajuda espiritual) me ajudaram a superar e hoje sei que foi o melhor a ser feito”, relata. “Se eu tivesse procurado a clandestinidade talvez eu não mais estivesse aqui”, afirma.

“Pude conhecer tantas clínicas clandestinas que era de chorar! Vi pessoalmente mulheres arriscando suas vidas e a entregando para ‘profissionais’ sem maior qualificação”, ressalta. “Os médicos com suas equipes cobram o que querem. E nós mulheres não temos garantia de nada. Vivemos em um mundo onde é difícil ser mãe e pai”, diz. “Você pode me dizer: por que não esperou o filho morrer? Eu lhe digo: e se fosse você no meu lugar? Não podemos julgar as pessoas. Se é contra o aborto, não o faça! Mas não seja a pessoa que quer decidir sobre a vida dos outros”, completa.

O pensamento da Igreja (e seus dissidentes)

Uma das fundadoras do grupo “Católicas pelo direito de Decidir”, Maria José Rosado-Nunes é professora da PUC-SP (Foto: CDD)


“O aborto é uma lei satânica”

Mário Leite, 63 anos, pastor de uma igreja pentecostal, acredita que, além do aspecto criminal, a interrupção de uma gravidez indesejada pode ser considerada como uma irresponsabilidade por parte materna: “Você vai matar um inocente? Isso é crime”. “Se ela recebeu, ela tem que garantir”, ressalta. Para o pastor, “Já que ela aceitou, ela tem que resistir até o fim”.

A opinião de que o aborto é um crime, não só em sentido legislativo, mas também à vida, é frequentemente relacionada à grupos religiosos cristãos. Um dos líderes da Assembleia de Deus, o pastor Silas Malafaia, compartilha suas visões sobre o tema: “Desde a concepção já existe vida, então abortar é matar um ser humano. O bebê não é um prolongamento do corpo da mãe. Ele é o agente ativo da gestação, e a mãe é o passivo” Ele afirma, em seu twitter que o aborto “é o massacre dos poderosos contra os indefesos que queriam nascer, porque vivos já estavam. Verdadeiros assassinos impiedosos”.

Para ele, o aborto não é uma questão política, filosófica, sociológica ou meramente opinativa. O pastor acredita que o aborto envolve uma temática puramente científica. “É o bebê que torna a placenta habitável. É ele que faz a interferência de nutrientes. É ele que diz a hora do parto. É ele que está protegido por uma capsula, pois se não era expulso como um corpo estranho”, afirma.

“Ninguém tem o poder de vida ou morte”

Enzo Perondini, 55 anos, é pastor e teólogo acredita que: “a partir do momento em que a célula se divide, já existe uma alma vivente”. Para ele, “a maneira que Deus criou o homem e a mulher foi para praticar sexo dentro do casamento”. “Para acomodar a situação, seria muito mais razoável a pessoa usar um preservativo ou algum método contraceptivo”, diz.

O Teólogo acredita que o aborto não se difere dos sacrifícios da antiguidade, onde “crianças eram mortas em nome da entidade ‘Moloque’. “O principal problema é a ignorância de não se precaver, além da desobediência na palavra do senhor”, diz.

Enzo acredita que cristãos que se dizem a favor da descriminalização do aborto “estão fazendo algo reprovável diante de Deus”. Para ele, “pessoas que defendem essa ideologia, porque isso é uma ideologia, acreditam que o feto pertence ao corpo da mulher e que ela tem esse direito. Mas isso é uma mentira”. Ele afirma que: “o feto é um ser espiritualmente e biologicamente independente, não fazendo parte do corpo da mulher”. “Ou seja, ela não tem o direito de interferir em sua concepção”, afirma.

Curiosamente, um dos maiores líderes cristãos do Brasil, é a favor da descriminalização. O Bispo Edir Macedo, em seu blog, afirma que “parece que o engano está na compreensão da totalidade do significado do termo “matar”. Ele continua: “Diversas manifestações sociais, políticas e religiosas condenam a legalização do aborto, em nome da ‘defesa da vida’, mas parecem ignorar ou não dar o mesmo valor à vida de crianças que nasceram indesejadas ou em famílias sem a menor condição de criá-las, e que andam por aí, revirando lixo para se alimentar, expostas a todo tipo de doença e violência nas ruas”, diz.

Enzo relata uma história que passou em sua vida pastoral: “Uma pessoa estava grávida e a criança estava com problema. Ela entrou em um dilema pois o médico queria que ela tirasse, pois a criança não iria aguentar. Ela não queria tirar e eu disse: ‘se for para abortar, Deus vai tirar a criança, você não precisa decidir sobre a vida da criança. Se a criança nascer, ela vai nascer saudável. Se ela não nascer, Deus vai fazer o aborto de maneira natural’. Nós oramos e ela perdeu a criança”.

Estatísticas

Segundo um levantamento do Ministério da Saúde, entre 2007 e 2018, foram provocados entre 9 e 12 milhões de abortos no Brasil.

O SUS gastou cerca de R$ 486 milhões com internações por aborto

Em 2016, 224 mulheres perderam a vida por causa de procedimentos clandestinos.

As mulheres que abortam são, em geral, casadas e com filhos. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA), realizada pela Anis – Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB), 88% das mulheres que abortam se declaram católicas, evangélicas, protestantes ou espíritas.

Confira também

Famosos com Tatuagens Feias

Se você acredita que dinheiro e fama podem livrar as pessoas das atitudes mais estúpidas, ...

Um comentário

  1. COMO É TRISTE UMA MÃE NÃO TER CONHECIDO SEU FILHO CRESCENDO, E QUE ALEGRIA FOI A MÃE DE CRISTIANO RONALDO QUANDO DESISTIU DE ABORTAR SEU FILHO, ELA VIU SEU FILHO CRESCER.

    PARABÉNS AS MÃES QUE SOUBERAM AMAR SEUS FILHOS.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *