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Crônica: Pequeno, Velho e Feio

Crônica: Pequeno, Velho e Feio

Por Gabriel Bellemo Balog – Fala!Cásper

Acordo de manhã cedo, sem qualquer motivo aparente, no meu apartamento pequeno, velho e feio. Manhã calma e belamente nublada de terça-feira, uma destoante inegável ao meu nicho ecológico. Manhã aquela em que as pessoas seguem com suas vidas normalmente, indo aos seus empregos para depois voltar aos seus lares grandes, novos e lindos. Eu adoraria ser parte desse êxodo pendular trabalhista, mas, tendo um lar pequeno, velho e feio, não me vejo tentado a sair.

Levanto vagarosamente da minha cama pequena velha e feia, como se aquilo fosse de esforço desproporcional ao trabalho feito em si. Visto minhas roupas, não pequenas, mas inegavelmente velhas e feias, e adentro a solidão. Digo solidão de forma completamente poética, pois me refiro, na verdade, a uma sala pequena, velha e feia.

Caminho pesado ainda no limbo do sono e, sem perceber de início, me vejo na minha cozinha pequena, velha e feia, provavelmente ansiando aquele café sem sabor, que seria feito em uma chaleira pequena, velha e feia. Por que ansiar por algo que não traz o grande prazer do sabor da pura alimentação humana? Simples costume. Um costume feio, insignificante e absurdamente velho.

Preparo o café com determinação velha, feia, mas principalmente pequena, como se aquilo fosse uma tarefa que eu quisesse terminar logo para voltar a meus afazeres, os quais não passavam de grandes ilusões. Termino e preparo minha pequena mesa, que eu chamo de mesa, mas não passa de um peitoril pequeno, velho e feio de uma janela pequena, velha e feia.

Arranjo com cuidado impecável um produto sem salvação. Talharia velha e feia destinada a uma refeição pequena. Cuidado desnecessário, mas no mínimo tocante. Olho para o lado de fora de minha janela/mesa, já que comer sozinho observando uma parede seria deprimente em excesso, e observo atentamente as pessoas que pela rua caminham.

Rua pequena, velha e feia onde dificilmente se enxergaria um apartamento pequeno, velho e feio como o meu. Pessoas com suas vidas pequenas, problemas velhos e demônios feios. Únicas, porém caracterizadas por esses adjetivos que a toda alma perseguem.

Dia repetido, como qualquer outro. Dia pequeno, velho e feio. Mas… não. Pois eis a verdade dessa crônica por você lida, meu caro: a narrativa é fruto direto de ponto de vista. Um ponto de vista pequeno, velho e feio.

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