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Crônica: Comida de Bolsa

Crônica: Comida de Bolsa


Por Anna Carvalho – Fala!Cásper

Todos os dias, de segunda a sexta, o mesmo caminho, para o mesmo destino, no mesmo horário. Faça chuva ou faça sol, aqui estamos nós na CPTM. Mas, hoje é sexta-feira. Mesmo após uma semana complicada e densa, a sexta já nasce animada e com um estado de espírito um pouco mais positivo.

Ainda dentro da normalidade “CPTMêmica”, um homem entra no trem com sua filha. Alice tem 3 anos, usa vestido rosa, havaianas das princesas e não solta a mão do querido pai. Alexandre está desempregado há três meses. Trabalhava no centro e ganhava 920 reais, além de 2 vales-transporte por dia. Com isso, conseguia sustentar Alice, Miguel, seu filho mais novo e sua esposa. Não, não precisei entrevistar Alexandre para saber disso, ele abriu sua vida a todos que estavam no trem.

No entanto, Alexandre não relatava sua vida à toa. O pai de família, como se intitulou, buscava a comoção das almas vazias que estavam na Linha 9 Esmeralda da CPTM. Com medo dos guardas entrarem e agirem violentamente, ele e sua filha pediam qualquer coisa que pudesse auxiliá-los: comida fechada ou aberta, fruta, leite, alimentos perecíveis, nota, moeda, qualquer coisa que tirasse essa aflição brusca do seu peito.

Prevendo julgamentos, Alexandre se defendeu: “não se preocupem, estou procurando emprego, entregando currículo em todos os cantos de São Paulo e Deus há de me ajudar”. Um diz “amém!”, outro ajuda com uma moedinha. E agora, José?

Quarta-feira, mais cedo na semana, uma aula magna de jornalismo com um profissional que foi correspondente da Globo em Nova Iorque me confirmou que eu estava no caminho jornalístico certo no que se diz respeito a o que levar na bolsa. Sim, a comida era um dos itens da mochila de sobrevivência.

Maçã e bolacha de cacau começada compunham minha comida de bolsa do dia. Quando Alexandre e Alice passaram por mim, entreguei os alimentos a eles aguardando um obrigada, assim como diziam a todos que contribuíram. No entanto, os olhos de Alice brilharam e ela apertou a mão do pai com entusiasmo enquanto dizia: “Papai, é bolacha de chocolate, papai! Eu quero! Eu quero! Posso comer, papai?”. Alexandre guardou a maçã e deu a bolacha para Alice enquanto me agradecia. Como se não bastasse seu “obrigado, moça. Deus te abençoe!”, Alice resolveu se pronunciar “muito obrigada pela bolacha, tia. Vou comer tudinho!”

Poxa, Alice, você fez a tia pensar tanto! Não sabia se ficava alegre pela euforia da menina ao se deparar com meio pacote de bolacha ou se ficava triste pela mesma euforia da criança. Caramba, por que essa tia reclama tanto da vida?

Estar no caminho certo não é sobre ter comida na bolsa, é sobre saber ressignificar o sentido do alimento, o destino dele e a palavra obrigada. Alice, obrigada pelo aprendizado e pelo obrigada mais sincero da semana!

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