Crônica: Apesar de você, sigo com coragem
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Crônica: Apesar de você, sigo com coragem

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– “Qual é o seu ponto fraco?” – perguntou o repórter.

– “Ver coragem e beleza no homem.” – respondeu Hilda Hilst.

Nos último seis meses eu tenho trabalhado em um ousado projeto de escrever 150 verbetes biográficos. Dentre as distintas personalidades, está uma das maiores poetas brasileiras do século XX, Hilda Hilst. Conforme o andamento das pesquisas, um árduo garimpo em acervos históricos de diferentes instituições culturais e até empresariais, que ficou ainda mais desafiador por causa da pandemia, me deparei com uma entrevista da bela e jovem “Hildinha”, aos 27 anos.

A entrevista estava num jornal do Correio Paulistano, em 31 de março de 1957. Ao me deparar com a resposta desesperançosa – “ver coragem e beleza no homem” – fiquei curiosa. O que será que ela queria dizer? Será que a frustração era com o ser humano, em geral, na infinita ignorância do homem em se achar superior ao planeta, a Lua e, se bobear, até ao cosmos ou no indivíduo masculino? Meu palpite, ela se referia às duas coisas. Se referia a uma junção de angústia, desesperança sobre o futuro e coração partido.

Ao longo da vida, Hilda Hilst lutou para ser aceita no rol de literatos, depois para ser chamada de “poeta”, assim como os homens, e depois para ver suas obras caírem no gosto da exigência do mercado. Ressaltada constantemente pela mídia como uma mulher belíssima, com as madeixas loiras e dona de sedutores olhos esmeraldas. Não que isso seja positivo, mas ela desejava algo mais profundo. Queria ser notada pelo seu talento, pelos seus pensamentos complexos e capacitada para ser dona de sua própria trajetória e projetos. No jornal Brasil Urgente, de 1983, seu ar destemido foi confundido por arrogância e traçado como “alienada e fora da realidade”.

Talvez a poeta esteja correta. É mais sábio se poupar e não criar expectativas na coragem e beleza do homem. Afinal, grandes desafios, como esse momento de pandemia e isolamento social, requerem mais do que palavras bonitas e demagógicas. É necessário ter um mínimo de humanidade, compromisso sanitário e responsabilidade social. Mas, para alguns, infelizmente, o negacionismo é o caminho mais fácil. Covarde, eu sei.

– “E a felicidade?” – continuou o repórter.

– “A felicidade é você ter o que quer. O problema é que se quer sempre e, às vezes, também não se sabe o que se quer.” – disse Hilda Hilst.

A resposta pode parecer vaga a princípio, mas não é. De fato, quando li, me questionei: eu sei o que eu quero? Não é incomum ter dúvidas. O momento de escolher o curso de Ensino Superior é angustiante para muitos jovens. São tantas opções, mas nem tantas oportunidades. Se queremos muito, corremos o risco de não ter ou saber nada. Se esperamos pouco, nos entregamos às migalhas da vida, conformados com pouco ou quase nada. Pior, se acha que resolve depois na faculdade, engano seu. As dúvidas persistem.

Para quem se formou em 2019, por exemplo, a pandemia tomou as expectativas do emprego dos sonhos, bem como do futuro da profissão. Entretanto, essa frustração é pequena demais se comparada ao número de vidas perdidas pela Covid-19. Quando questionada sobre o que há de errado na vida, Hilda Hilst responde: “a morte”.

Calma! Há esperança. Olhe para o que já foi conquistado, relembre e admire o caminho percorrido até aqui, sinta o amor e resista. “Amanhã há de ser outro dia”, disse Chico Buarque. E eu, acredito.

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Por Louise Diório – Fala! Mack

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