Home / Colunas / Construindo Atléticas Mais Feministas

Construindo Atléticas Mais Feministas

Por: Amanda Negri – Fala! USP

 

Desde cedo, há uma segregação na educação de meninos e meninas, tanto nos esportes como nas profissões. É possível observar pelas brincadeiras: meninos são incentivados a praticar esportes, e as meninas a cuidar da casa. As posições de poder em muitos espaços ainda são, em geral, ocupadas por homens, e isso significa, em muitos casos, o silenciamento de mulheres. E no esporte, a situação parece mais grave. Em alguns esportes, elas ainda são vistas como masculinizadas, ou então, têm seus corpos hiperssexualizados. Dessa forma (e de muitas outras), as mulheres são desvalorizadas e se sentem desestimuladas.

atletica5
5: Juca 2016. Créditos: Página ECAtlética.

 

O meio acadêmico e o esportivo ainda são dois universos nos quais se reproduz uma série de atitudes machistas. As mulheres vêm lutando para ocupar esses espaços e, principalmente, estão nas gestões das atléticas das universidades, onde esses dois meios se unem. “Primeiramente, as pessoas tendem a fazer uma distinção entre os alunxs que têm potencial acadêmico e xs que se aproximam do esporte”, afirma Cyndel Augusto, diretora geral de esportes da Atlética XV de Outubro, da Faculdade de Educação da USP, “como se as Atléticas não tivessem um caráter político e se preocupassem única e exclusivamente com festas e esporte”.

Há uma certa desvalorização das atléticas, e do esporte no geral, como um local também de luta política e feminista, principalmente. Dentro da USP, praticamente todas as atléticas possuem mulheres na gestão, algumas mais e outras menos, mas já há um tempo as uspianas estão mudando as regras. Pode-se observar a participação ativa delas nas reuniões da liga USP, local onde se reúnem todas as atléticas, e isso cria uma união entre as mulheres da universidade – a famosa sororidade.

Tanto para Cyndel Augusto, DGE da Atlética da EEFE, quanto para Maísa Girardi, presidente na Atlética da FFLCH, a principal mudança sentida com a participação de mulheres é a voz que elas ganham dentro desse espaço, e também um maior acolhimento de todas as alunas da universidade, fazendo com que o interesse pelo esporte cresça cada vez mais. “Não existe incentivo por parte do governo, este cenário se agrava ainda mais quando uma mulher tenta participar de uma modalidade, pois este lugar nunca foi destinado à nós” – afirma Cyndel.

atletica6
Rugby Feminino da FFLCH. Créditos: Página da Atlética FFLCH.

 

Nos últimos tempos, o rugby e o futebol, como exemplos de esportes considerados masculinos pela sociedade, têm sido muito procurados pelas meninas. A seleção USP de rugby feminino participa de competições oficiais, como o campeonato brasileiro. E no futsal, com um maior número de meninas jogando, nasceu a ideia da copa “Joga Que Nem Mina”, um campeonato de futsal feminino entre os diversos institutos da universidade. Essa troca entre as atletas é fundamental para o seu empoderamento.

Da mesma forma, as meninas (atletas ou não) também se sentem mais seguras para denunciar atitudes machistas e casos de assédios ou abusos dentro da faculdade, pois quando há mulheres dentro das instituições estudantis, as chances aumentam para que os agressores sejam punidos de alguma forma dentro daquele espaço. As punições variam conforme o caso, entre uma suspensão ou exclusão das atividades da atlética – há boicotes aos machistas nos espaços estudantis e até escrachos, como campanhas inspiradas no “Meu Amigo Secreto”, espalhadas pelos murais dos institutos.

atletica2
Juca 2016. Créditos: Revista Beat (Página do Juca).

 

Na Atlética Oswald de Andrade, da FFLCH, que há mais de 4 anos é presidida por uma mulher, só esse ano foram expulsos três agressores – “impedimos de toda forma que eles representem a atlética nos jogos e tentamos combatê-los em todos os âmbitos” – afirma a atual presidente.

“Somos adversárias só dentro de quadra, machismo não” – foi a frase escrita em uma faixa, estendida em todos os jogos femininos do BIFE 2015 (um dos eventos esportivos da USP), e isso simboliza exatamente essa união entre as meninas na universidade, contra atos opressivos. Hoje, as meninas já conseguiram, em todas as atléticas participantes, aderir uma lista de pessoas proibidas de irem ao evento e são impedidas de comprar o “kit BIFE”; no mesmo evento, as punições no caso de machismo, racismo e lgbtfobia agora são de 21 pontos, praticamente a diferença entre o primeiro e o quarto lugar da disputa.

atletica3
Bife 2015. Créditos: Luenne Albuquerque & Diego Silveira (Página Atlética FAU USP).

 

A maior dificuldade, de acordo com Maísa, ainda é o respeito ao lugar de fala. Ela afirma que o objetivo principal em construir a gestão da atlética é de que homens e mulheres sejam ouvidos da mesma forma e, também, que as modalidades masculinas e femininas sejam igualmente valorizadas. Assim, as mulheres lutam para deixarem de ser silenciadas em espaços que ainda tentam se mostrar hostis a elas, como muitas vezes é o esporte e a academia.

Confira também:

– Mulheres que trabalham com arte em São Paulo

– 10 fotos do ato cultural organizado pelo coletivo “Por Que a USP Não Tem Cotas?”

Confira também

Elenco e produção da Globo relembram sucessos de 2017 e anunciam novela de tema medieval para 2018

Por Tatiane Vieira de Melo – Fala! Universidades   A sexta-feira da CCXP17 lotou as ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *