Conheça as bruxas da noite, o pesadelo do exército nazista
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Conheça as bruxas da noite, o pesadelo do exército nazista

Conheça as bruxas da noite, o pesadelo do exército nazista

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As bruxas da noite, diferente do que alguns supõem, nada têm a ver com um conto de terror que foge da realidade. Pelo contrário, o medo tinha rostos e objetivos bastante reais, para a infelicidade das tropas nazistas. Inclusive, chega a ser irônico se referir às bruxas como pesadelos, visto que muitos sequer dormiam por temerem sua chegada.

bruxas da noite
As bruxas da noite. | Foto: Divulgação/UOL.

Afinal, quem eram as bruxas da noite da Segunda Guerra Mundial?

Para acabar com o suspense e instigar ainda mais a curiosidade, já é hora de revelar a quem se devia tal apelido mitológico. Mulheres jovens, movidas pela paixão de defender sua pátria, e pela sede de, finalmente, dar algum sentido às promessas de igualdade de gênero difundidas pela URSS. Essas eram as bruxas, que apareciam na calada da noite, bombardeavam os acampamentos das tropas nazistas e desapareciam no céu, como verdadeiras feiticeiras.

O apelido foi dado pela própria Wehrmacht, forças armadas da Alemanha Nazista, por conta de seus ataques à noite e do barulho que seus pequenos aviões faziam ao riscar o céu, que era descrito como o de uma vassoura de bruxa. Apesar de conter certo teor pejorativo, as mulheres gostaram do apelido e acabaram o adotando, preferiam pensar que o nome foi lhes dado porque o exército inimigo era incapaz de derrubá-las.

Sobre elas, em uma carta anos mais tarde, o Capitão Johannes Steinhoff, comandante da unidade mais bem-sucedida da Luftwaffe na segunda guerra mundial, chamada Jagdgeschwader 52, declarou: “Nós simplesmente não podíamos compreender que os aviadores soviéticos que nos causavam os maiores problemas eram, na verdade, mulheres. Essas mulheres não temiam nada”.

Voos precisos e perigosos

Os voos tinham que ser precisos. Elas pilotavam biplanos de madeira e lona, chamados Polikarpov, projetados no final dos anos 1920 e utilizados, até então, para pulverizar áreas agrícolas com produtos químicos. Os pequenos aviões pareciam, e eram, bastante frágeis, além de lentos, porém, compensavam em sua leveza, o que possibilitava manobras ágeis e fácil camuflagem. Se fossem pilotados por mãos hábeis, podiam chegar, atacar e fugir, sem ao menos serem percebidos.  

biplanos
Biplanos utilizados pelas Bruxas na Segunda Guerra Mundial. | Foto: Incrível História.

No pequeno avião cabiam apenas a pilota, que guiava o transporte, e a navegadora, que, munida de um mapa e uma bússola, ditava o caminho. O biplano era conduzido até certa altura, os motores eram desligados e, às vezes, apagavam as luzes, como medida adicional para não serem percebidas.

A navegadora lançava tochas para iluminar seu alvo, então, em questão de segundos, puxava a corda que soltava as bombas do compartimento debaixo do avião. Por fim, a pilota tinha de ser rápida e habilidosa para sair dali sem ser percebida.

Elas tinham que ser ágeis, frias, corajosas e inteligentes, não tinha espaço para erros, um simples metro descido a mais poderia significar suas mortes. Se tudo desse certo, chegavam ao céu ilesas. Então, após finalmente pousarem, as garotas tinham pouco tempo para descansar, quando conseguiam, pois logo tinham que sair novamente, em um novo turno. E assim acontecia até o fim da noite.

As mulheres podem tudo, certo?

Na URSS, todos, homens e mulheres, receberam treinamentos pensando em uma possível guerra. Porém, quando o conflito chegou, apenas os homens foram mandados para as linhas de frente. E, apesar de a pátria socialista pregar a igualdade entre os gêneros, isso não acontecia muito bem na prática. As mulheres, apesar de ansiarem lutar por sua pátria, tiveram de ficar cuidando dos filhos, fábricas e colheitas.

A URSS estava quase perdendo a guerra, mas não podia aceitar a ideia de mandar garotas para o campo de batalha. Isso mudou após uma conversa de Marina Raskova, famosa e respeitada navegadora soviética, com Josef Stalin, líder da União Soviética entre 1924 e 1953. Não se sabe ao certo o que foi dito, mas alguns contam que a navegadora enfrentou Stalin, mostrou as dezenas de cartas enviadas pelas mulheres que desejavam estar na linha de frente e defendeu sua convicção até o fim.

Marina Raskova
Marina Raskova. | Foto: Reprodução/ Medium.

Então, ao ser questionada pela alegação de que um regimento conjunto de homens e mulheres não funcionaria, sugeriu a criação de regimentos exclusivamente femininos. Raskova não entendia porque as mulheres, que também participaram de todos os treinamentos, não podiam ocupar as linhas de frente da guerra. Ela tinha certeza em suas convicções, para ela, gênero não definia capacidade, e reforçava isso com seu lema: “Nós podemos fazer tudo”.

Foi assim que em 8 de outubro de 1941, alguns dias depois da reunião, a ordem 0099, que estabelecia a criação dos três regimentos femininos, entre eles o 588º de bombardeio noturno, foi promulgada. Era histórico, a criação de regimentos exclusivamente femininos era motivo de orgulho, e Irina Sebrova, última sobrevivente das bruxas, deixa isso claro no livro As bruxas da noite, escrito por Ritanna Armeni.

Escreveram que também havia homens no nosso regimento. Não é verdade, éramos todas mulheres e assim permanecemos até o final. Não deem ouvidos a quem diz o contrário.

Irina Sebrova, última sobrevivente das bruxas.

Ainda pela descrição de Armeni, é possível sentir a excitação e o orgulho que Irina possuía ao enfatizar que três dos principais regimentos na derrota dos nazistas eram compostos, exclusivamente, por mulheres, sem exceções.

Duzentas mulheres voarão nos Polikarpov à noite, todas as noites, bombardeando as linhas alemãs. São pilotas, navegadoras e, com elas, em terra, estão as armeiras e as mecânicas. São apenas mulheres, nenhum homem combaterá ao seu lado, a nenhum homem pedirão ajuda. É esse o seu pacto, a tácita promessa que se fazem.

Ritanna Armeni, em seu livro As bruxas da noite.

O que aconteceu com as bruxas depois da guerra?

Após a guerra, as heroínas foram negligenciadas. A visão conservadora que não desejava as mulheres no exército prevaleceu. No outono de 1945, logo após a guerra, muitas mulheres foram dispensadas. Ao invés de serem homenageadas pelo trabalho prestado à pátria, a maioria foi ignorada. Algumas, inclusive, passaram a esconder que participaram do conflito, por medo de não arrumar um marido, devido ao preconceito que sofriam.

Aqui vale lembrar a fala de Irina, onde ela alerta sobre as diversas histórias que inventaram a respeito dos regimentos femininos, algumas delas dizendo que homens também faziam parte. Essas mentiras diminuíam a importância de sua luta e tiravam delas o prestígio que tanto mereciam. Após a guerra, as imagens de mulheres combatentes foram substituídas por fotos de mães felizes segurando crianças.

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Regimento 588º, as Bruxas da Noite. | Foto: Reprodução/ Universo retrô.

Por isso, ainda hoje, a história não é amplamente conhecida. Mas isso não diminui a importância dessas garotas, que lutaram pela sua pátria e defenderam a igualdade na mais extrema das situações. As bruxas da noite foram parte essencial do exército que derrotou os nazistas, enfrentaram preconceitos, olhares soberbos e comentários maldosos. As jovens destemidas provaram que, assim como Marina Raskova diria, as mulheres podem tudo.

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Por Bianca Sousa – Fala! Faculdade Paulista de Comunicação

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