Compreenda como o racismo afeta o futebol
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Compreenda como o racismo afeta o futebol

Compreenda como o racismo afeta o futebol

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Nos últimos anos, diversos autores e autoras têm se debruçado nos estudos a respeito do racismo na sociedade brasileira. Temos como exemplo a filósofa Djamila Ribeiro, com o Pequeno Manual Antirracista (2019), e o advogado e filósofo Silvio Luiz de Almeida, no livro Racismo estrutural (2018).

Antes mesmo deles, tivemos Abdias do Nascimento, com a obra O Genocídio do Negro Brasileiro, publicada em 1978. Todos esses e outros estudiosos colocam que o racismo faz parte da estrutura social, e não se resume apenas a atitudes individuais das pessoas. Este pensamento se aplica a muitos fenômenos. Um deles é o futebol.

Mesmo que jogadores negros tenham feito parte de equipes vitoriosas ao longo do século XX, nem sempre foi assim. O esporte chegou ao Brasil em 1894, quando o estudante paulista Charles Miller, filho de ingleses, trouxe bolas e uniformes da Inglaterra e começou a propagar a prática do futebol, inicialmente destinado à elite branca.

Depois, negros começaram a entrar em campo no esporte amador, sem poderem circular pelos clubes em que jogavam e receber salários. Com o tempo, eles se tornaram protagonistas de grandes vitórias, como a do Vasco da Gama na primeira divisão do Campeonato Carioca, em 1923. O cruz-maltino foi o primeiro time a ser campeão com negros na equipe.

No ano seguinte, os times de elite do Rio de Janeiro fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), que impôs ao Vasco que doze de seus jogadores fossem excluídos; todos eram negros. Em resposta, José Augusto Prestes, então presidente do clube, escreveu uma carta – conhecida como A resposta histórica – à Associação, informando que o clube não faria mais parte dela, diante da absurda exigência. Essa é apenas uma das diversas manifestações racistas no futebol desde muito tempo.

racismo no futebol
Equipe do Vasco da Gama campeã em 1923. | Foto: Arquivo CRVG.

Casos de injúria racial aumentaram em 2019

O relatório anual do Observatório da Discriminação Racial no Futebol referente ao ano de 2019 ainda não foi lançado por conta da pandemia, mas o diretor-executivo, Marcelo Carvalho, conta que foram registrados 65 casos de injúria racial no ano passado, 47.72% a mais que em 2018.

Porém, ele alerta que o relatório não é um espelho da realidade, pois não há como atestar a veracidade de todos os relatos recebidos por eles nos vários campeonatos de futebol existentes no Brasil. Por isso, os casos divulgados pela mídia esportiva de modo geral são os que constam no documento.

A gente sabe que esses fatos [os que constam no Relatório] são apenas uma amostra da realidade. Eles não compõem a realidade, mas essa amostra já é suficiente para a gente conseguir chamar a atenção de todos.

Completa.

No fim de julho, o atacante Marinho, do Santos, foi vítima de uma ofensa racista do jornalista Fábio Benedetti, da Rádio Energia 97FM (São Paulo), na partida das quartas de final do Paulistão, contra a Ponte Preta. O jogador foi expulso aos 42 minutos do primeiro tempo e Benedetti, ao ser questionado sobre o que falaria ao jogador em um grupo de WhatsApp, disse: “Você é burro, você está na senzala, você vai sair do grupo uma semana para pensar sobre o que você fez”.

No dia seguinte, Marinho se manifestou em suas redes sociais e afirmou que perdoou o comentarista, mas que espera por mais atitudes diferentes da que sofreu. “Quero que você se retrate e que isso não se repita nunca mais, nem comigo nem com ninguém!”, escreveu. O Santos publicou uma nota de repúdio contra a atitude.

Em seguida, Benedetti publicou um vídeo pedindo desculpas pelo ocorrido. “Peço minhas sinceras desculpas pelo comentário proferido e estou completamente arrependido por ele. Nas próximas semanas estarei cedendo meu lugar de fala em minhas redes sociais para promover a discussão sobre assunto tão necessário e urgente na sociedade e no esporte.”. Quatro dias depois, o comentarista foi demitido da emissora. 

racismo
“Tenho orgulho da minha cor, orgulho de onde vim”, diz atacante Marinho em pronunciamento nas redes sociais. | Foto: Reprodução Instagram.

O sociólogo e jornalista Ronaldo Helal afirma que, se o ocorrido tivesse sido há trinta anos, as reações seriam completamente diferentes ou, até mesmo, não teriam expressividade.

Eu fico vendo coisas daquela época que passavam com certa indiferença e que, hoje, nós já avançamos para uma indignação. Nesse episódio específico que aconteceu com o Marinho, na mesma hora não passou em branco. Veio todo mundo em cima e ele [o comentarista] foi desligado. Fico imaginando se isso fosse há trinta anos, talvez fosse passar como uma coisa corriqueira.

Diz.

Nesse sentido, para Carvalho, o dinamismo das redes sociais é um dos principais fatores que ajudam o público a estar mais próximo dos emissores e contestar o que eles dizem.

As redes sociais nos aproximaram dessas pessoas [que cometem injúrias raciais] e de quem pensa parecido conosco. Conseguimos, então, fazer este trabalho de monitoramento das falas preconceituosas.

Expressa.

Racismo e injustiça no gramado

Antes de Marinho, inúmeros outros jogadores de futebol sofreram com o racismo dentro e fora de campo. O goleiro Barbosa é considerado por muitos como o mais injustiçado, pois carregou até a morte o fardo de não ter defendido o segundo gol do Uruguai na Copa de 1950, feito pelo ponta-direita Ghiggia.

Criou-se o estereótipo de que o goleiro não poderia ser negro – tanto que, depois, a Seleção Brasileira só teve goleiros negros titulares em 1966 (Manga) e 2006 (Dida). Jefferson, ídolo do Botafogo, foi titular após a Copa de 2014, sendo depois colocado para escanteio pelo técnico Dunga. Porém, em 2003, foi cortado da convocação para o Mundial Sub-20, nos Emirados Árabes Unidos, por ser negro. O maior de todos os tempos, Pelé, também sofreu com o racismo de forma aflorada, mas se engajou muito pouco com a causa.

Barbosa
Barbosa não defendeu o segundo gol do Uruguai na Copa de 1950 e criou-se o estereótipo de que goleiros negros eram inferiores aos brancos. | Foto: Fifa/Divulgação.

Também houve o caso de Aranha, ex-goleiro do Santos, xingado de “macaco” pela torcida do Grêmio no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil de 2014. Segundo ele, o episódio serviu para que ele pudesse falar sobre o racismo e demonstrar suas convicções desde muitos anos.

Eu sempre olhei a sociedade com os olhos da revolta, pela maneira que sempre fui tratado e por todas as situações vividas. Sem falar que, no futebol, as barreiras eram maiores. O fato de 2014 só me deu a oportunidade de falar sobre outro assunto que não fosse futebol e mostrar um pouco do meu conhecimento e posicionamento de mais de 20 anos.

Conta.
Goleiro Aranha
Goleiro Aranha protesta ao sofrer racismo por parte de torcedores do Grêmio em 2014. | Foto: Bruno Alencastro/Agência RBS/Estadão Conteúdo.

O jornalista Diego Moraes, da TV Globo, reitera que, diante da pauta antirracista, a imparcialidade dos profissionais de comunicação deve ser abandonada para haver prestação de serviço à sociedade.

Se eu, nesse momento, for imparcial na luta antirracista, de acordo com o que esse jornalista [Fábio Benedetti, no caso Marinho] falou, vai haver outras pessoas tendo a mesma atitude e a mesma opinião dele. E, para não haver, eu preciso continuar falando para que o jornalismo exerça algo que é muito importante dentro da sociedade: o serviço. Você opinar em alguns momentos faz parte do serviço à sociedade, para a construção de uma sociedade importante.

Diz.

Futebol como sonho de carreira

Embora o racismo seja recorrente no futebol, ser jogador ainda é um sonho de muitos jovens de periferias, por exemplo. Para muitos, é uma via de ascensão relativamente rápida e que, em pouco tempo, vai render milhões de reais – o que é exclusividade de poucos no esporte.

De acordo com Moraes, muitos rapazes veem o esporte como saída por conta de barreiras encontradas na estrutura da educação de base. Inicialmente, a preocupação é ter uma casa, ajudar a família e levar alimento para o lar. Só depois, no caso dos jovens negros, os pensamentos se voltam para outros pontos, como o racismo.

Talvez, até chegar na questão racial, esse jogador já tenha uns oito anos de carreira, até que comece a se posicionar. Ele já está mais ou menos estabilizado, quer alçar voos maiores e, neste momento, vai ver que não tem a mesma oportunidade que um coleguinha branco que ele tem.

Afirma.

Isso se deve à estrutura social baseada no racismo, que não inclui apenas injúrias raciais e casos de racismo no campo. O único clube com técnico negro na Série A do Campeonato Brasileiro é o Bahia (Roger Machado), e a Ponte Preta é o único time das Séries A, B e C com um presidente negro (Sebastião Arcanjo, conhecido como Tiãozinho), o primeiro do clube em 120 anos – justamente a Ponte, que reivindica o posto de ter sido o primeiro time a ter um jogador negro, Miguel do Carmo, em 1900.

A pouca quantidade negros em cargos de comando – técnico, dirigente, diretor de clube, entre outros – e a predominância de jogadores brancos em campanhas de marketing são exemplos de como os negros ainda não conquistaram totalmente o universo do futebol, o qual vai além do gramado.

racismo
Roger Machado, técnico do Bahia, e Marcão, então treinador do Fluminense, se cumprimentam em partida do Campeonato Brasileiro 2019. Ambos vestem camisetas do Observatório da Discriminação Racial no Futebol com a hashtag #ChegadePreconceito. | Foto: Thiago Ribeiro/AGIF.

Futebol e luta antirracista

Moraes afirma que os especialistas em racismo não são aqueles que estudam o tema, e, sim, os que praticam atos racistas. É por isso que as discussões a respeito do racismo se intensificam cada vez mais. A intenção é que as pessoas que detêm privilégios, antes de tudo, reconheçam o problema social e reflitam sobre como ele se dá. Após isso, vem a mobilização e a renúncia aos privilégios.

É importante as pessoas perceberem que a gente vai ter realmente uma melhora na sociedade quando quem tem privilégio abdicar dele e lutar junto com quem não tem.

Pontua.

O conceito de lugar de fala é importante de ser destacado, pois só quem foi vítima de racismo entende o que é passar por isso em diversos ambientes e situações sociais. No entanto, trazer pessoas brancas para o debate visa unir favorecidos e desfavorecidos socialmente. Helal, que é professor na Faculdade de Comunicação Social da Uerj, relembra o movimento pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, liderado pelo pastor Martin Luther King, em que negros e brancos se reuniram para lutar por algo maior.

Ele [Luther King] percebeu que o movimento só ia crescer a partir do momento em que se chamasse os brancos para ficarem do lado dele também, porque o racismo é muito ruim, é do opressor. Então, se eu sou branco e hétero, eu não posso falar de homofobia, racismo e nem feminicídio? Assim, a minha sociologia fica limitada. Eu acho que essas lutas têm que agrupar outras mentes que se solidarizem com a causa.

Diz.

Além disso, os debates sobre racismo ainda caminham a passos lentos em muitos clubes e instituições, como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e as Federações de Futebol, a nível estadual. “O debate está na Academia, em espaços coletivos, mas, lá dentro, provocando quem comanda o futebol e pode fazer algo para mudar, ele não está. Então, a gente precisa, de fato, entrar nesses espaços, sendo ouvidos e tendo voz para fazer acontecer”, coloca Carvalho.

Ainda segundo ele, é preciso que façamos valer o que está nas leis já existentes contra o racismo – não necessariamente criar novas – e fazer ajustes. “A maioria das pessoas que comete o crime de racismo [inafiançável] acaba conseguindo na Justiça colocar isso como injúria racial [afiançável]. E, aí, a gente não tem ninguém preso, por mais absurdo e violento que seja o ato. Então, precisamos valer o que está escrito e fazer ajustes e correções”, pondera.

Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e ativista na luta contra a segregação racial no país – o apartheid –, escreveu em sua autobiografia, publicada em 1995: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Dessa forma, a luta antirracista tem seu papel social, mas também individual, na formação do caráter de cada pessoa. Daí a importância de se investir em educação de qualidade, já que é ela que nos dá a possibilidade de conhecimento e reflexão.

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Por Mariene Lino – Fala! PUC – Rio

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