Como a masculinidade tóxica influencia nas taxas de suicídio?
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Como a masculinidade tóxica influencia nas taxas de suicídio?

Como a masculinidade tóxica influencia nas taxas de suicídio?

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No dicionário, másculo ou masculino aparecem como sinônimos de força, vigor e virilidade. Tal ideia, introduzida na estrutura social, influencia direta e indiretamente na construção do pensamento machista e, por conseguinte, na potencialização da desigualdade de gênero. Mas, afinal, como o fator masculinidade tóxica interfere e prejudica a saúde mental e física do homem?

O professor Caio César traz um debate importante sobre como os homens também são vítimas do que lhes é ensinado há séculos, avaliando diferentes métodos que incentivem o diálogo sobre a temática. 

masculinidade tóxica
Como a masculinidade tóxica influencia nas taxas de suicídio? | Foto: Reprodução.

O que é masculinidade tóxica?

Homens também são vítimas do conceito estereotipado da masculinidade. Ao produzirem e reproduzirem violência contra si e contra outros corpos, refletem a expectativa social construída sobre a imagem masculina. 

Assim como mulheres sofrem a constante pressão do sistema de padronização feminino, o estereótipo patriarcal ensina e incentiva homens a também cumprirem com determinados contratos comportamentais. O norteamento do que denominamos masculinidade tóxica induz à potencialização de uma conduta prejudicial a todos, baseada na ideia do ‘típico de homem’. 

Estruturalmente, os mandamentos do homem ‘masculino’ exigem uma determinada série de requisitos que são, implícita ou explicitamente, tradicionalmente ensinados e constantemente relembrados por toda a vida: homens não choram, não demonstram seus sentimentos e fraquezas, e muito menos buscam por ajuda. Devem ser os provedores da família e demonstrar gosto apenas por atividades ‘tipicamente masculinas’. A ideia de virilidade e desejo sexual frequente também lhes é expressivamente atribuída. 

Impor um modelo de conduta ao homem estimula uma série de reações problemáticas que repercutem em diferentes momentos. A reprodução do machismo e a menor procura de ajuda em relação à própria saúde física e mental são exemplos de como a ideia atribuída à masculinidade interfere sistematicamente no porte individual e em sociedade.

Protagonismo

Homens desempenham o protagonismo da violência no Brasil. Representam o maior número de homicidas, de mortos e de suicídios. Pelo menos quatro deles atentam à própria vida a cada uma mulher, e a influência da masculinidade tóxica é destaque entre as relações casuais. 

Do total de mortes registradas por suicídios no Brasil, de acordo com relatório recente da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), representante das Américas da Organização Mundial da Saúde (OMS), 76% são homens. Concomitantemente, no continente americano, a expectativa de vida do grupo mencionado é 5,8 anos menor que o número das mulheres. Ao relacionarmos as taxas com o impacto da pressão estrutural, percebemos como as expectativas sociais acabam por contribuir com a adoção de comportamentos de risco. 

suicídio
Homens sentem dificuldade em demonstrar suas fraquezas. | Foto: Imagineedesenhe/Ilustração.

Ignorar a problemática das normas de gênero socialmente impostas aos homens é reforçar a carência de autocuidado e a displicência em sua própria saúde física e mental. Quando desencorajados na busca por ajuda e na exteriorização de seus problemas e fraquezas, o trancafiamento de suas emoções propicia o surgimento de conduta de risco, violenta e pouco tolerável. Somadas, prejudicam o indivíduo e a sociedade como um todo.

Esse conceito de masculinidade impulsiona o risco de mulheres e crianças na forma de violência, DSTs e na falta de responsabilidade compartilhada dentro de casa. Além disso, representa risco para outros homens e para si mesmos, considerando que estão mais sujeitos a acidentes, homicídios, alcoolismo e outros vícios, e, como mostram os dados, ao suicídio.

Pensar na saúde física e mental dos homens sugere pensar nas diretrizes que guiam o comportamento masculino atualmente. Repensar o exercício de quem produz essas violências é garantir uma sociedade mais saudável e igualitária em questão de gênero. 

Justificativa para o machismo?

O debate sobre masculinidades vem também, além da discussão sobre a problemática individual, como forma de avaliar a maneira com que homens se colocam na sociedade e perpetuam comportamentos danosos às pessoas ao seu redor. A reprodução da violência acarreta em atitudes como racismo, homofobia e machismo. 

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O debate a respeito do tema é dever social. | Foto: Campanha governamental/Jornal da Metrópole, Salvador.

O juízo sobre a masculinidade tóxica não deve ser entendido como uma crítica aos homens, mas sim, como um questionamento às ideias atribuídas ao que consideramos masculino. Discutir a temática não é uma forma de justificar o machismo e outros comportamentos contestáveis, e, sim, uma maneira de explicar e entender a origem de determinados pensamentos, com a intenção de não mais reproduzi-los. 

Você é homem demais para pedir ajuda?

É entendido, portanto, que a socialização dos homens leva a um amplo leque de problemas de saúde que só podem ser resolvidos através de políticas, serviços e programas receptivos que atendam às suas necessidades individuais. 

De acordo com a pesquisa Precisamos falar com os homens?, produzida pela ONU Mulheres e pelo portal PapodeHomem; 45,5% dos homens gostariam de se expressar de modo menos rígido ou agressivo, mas não sabem como; 43,5% gostariam de ter mais cuidado com a aparência sem se sentirem julgados por isso; e 66,5% deles não falam com amigos sobre medos e sentimentos.

Idealizando a construção de homens mais saudáveis que possam exercer o que de fato são, e não as expectativas sociais, o geógrafo e estudante das masculinidades, Caio César dos Santos, utiliza de rodas de conversa e das redes sociais para disseminar conhecimento e reflexões sobre o tema. 

Sua decisão de aprofundar-se no campo de estudo das masculinidades veio a partir da leitura de Frantz Fanon. “Me interessei pelo tema inicialmente através da perspectiva dos homens negros, mas sempre tive muito contato com os movimentos de mulheres e todas as reivindicações que eram colocadas”, conta.

Para o geógrafo, o assunto deve ser abordado de forma plural, pois dentro do recorte de gênero, diversas experiências se unem. A problemática é distinta entre homens héteros e gays, negros e brancos, cis e trans; mas as questões sintonizam-se em certo ponto. 

Por acreditar que a luta contra o enquadramento da masculinidade é um processo constante, Caio propõe e promove rodas de conversa, com o intuito de incentivar o homem à reflexão sobre a maneira que ele age consigo, com o outro, e com a sociedade em geral.

Uma das questões mais comuns da construção da masculinidade é a ‘não possibilidade’ de demonstrar fraqueza. Isso dificulta os homens a buscar ajuda em relação à saúde física e, principalmente, mental. E a consequência é o fato dos homens serem 80% das vítimas de suicídio no Brasil. 

Reflete.
problemas da masculinidade tóxica
Oficina ‘Entendendo as Masculinidades’, guiada por Caio, na Casa Narra, RJ. | Foto: Edson Jonathan/Divulgação.

As reflexões do professor a respeito do comportamento masculino na sociedade, tendo em vista os reflexos na violência, já o levaram inclusive à Tunísia, diretamente para o Fórum Internacional de Igualdade de Gênero, a convite da Organização das Nações Unidas (ONU). A experiência de Caio foi extremamente importante para que seu projeto ganhasse ainda mais força, auxiliando homens no exercício da capacidade de ouvir, e na desestigmatização de certos comportamentos. 

Para maior alcance e engajamento de seu conteúdo, espaços digitais como o Instagram (@geocaio) são seus grandes alicerces. No ambiente multimidiático, o geógrafo compartilha, em diferentes formatos, reflexões dentro do amplo debate das masculinidades.

É extremamente necessária a criação de espaços de diálogo e responsabilização para homens nesse sentido. As redes sociais podem ajudar na disseminação do assunto, mas esses espaços precisam existir fisicamente e em grande escala.

Afirma. 

Com o objetivo de garantir a prevenção do impacto de masculinidades tóxicas, Caio almeja expandir as rodas de conversa por todo o território brasileiro. 

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Por Gabriella Capuano – Fala! Cásper

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