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Ciclovias: Uma alternativa para o trânsito

Por Vanessa Lino – Fala!PUC

 

Para fugir do trânsito das cidades, uma opção alternativa e sustentável é a bicicleta. Só em São Paulo 300 mil ciclistas transitam pela cidade diariamente, de acordo com a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonelas, Bicicletas e Similares). Apesar do aumento, esses ciclistas ainda encontram muita dificuldade para andar nas ruas da cidade, seja pela falta de estrutura das ciclovias/ciclofaixas/ciclorrotas, pela falta de bicicletários nos estabelecimentos ou por conta da imprudência e negligência dos motoristas que dirigem embriagados e, como consequência, acabam tirando a vida de outras pessoas.

Petterson Queiroz criou gosto pelos pedais desde criança e sempre foi adepto aos esportes. Vivendo na região de Parelheiros/Grajaú, onde há áreas de mananciais e áreas cercadas pela Proteção Ambiental da Serra do Mar, diz: “isso é um dos prazeres da vida, daí surgiu unir o útil ao agradável, andar de bicicleta, cuidar da saúde e aproveitar a natureza da região”.

Outra vantagem das bicicletas é o seu estacionamento: além de ser mais acessível e econômico comparado aos estacionamentos para carros, não existem filas enormes ao deixarem seus meios de locomoção, embora alguns estabelecimentos ainda não tenham bicicletários, o que é parte fundamental e segura para a locomoção.

Outra opção acessível é praticar a intermodalidade, que é deixar a bicicleta em um ponto e prosseguir de transporte público. Em algumas estações e terminais de ônibus é possível realizar um deslocamento intermodal. Alguns estabelecimentos estão investindo em estacionamento para bicicletas, pois além de ser uma atitude muito positiva, seja para os clientes, seja para a qualidade de vida de funcionários de empresas, também é lei municipal. São 3 leis que garantem a implantação de bicicletários em novas edificações ou construções reformadas: Lei n° 13.995, de 10 de junho de 2005, Lei n° 14.266, de 6 de fevereiro de 2007 e a Lei n° 16.402, 22 de março de 2016 (Lei de Zoneamento). Ainda assim, os números de bicicletários são ainda muito baixos, sendo necessário conferir nos locais de destino se possuí espaço para estacionar suas bikes. Outra opção ainda são os paraciclos, que são alças metálicas em formato de U invertido, chumbados no chão das calçadas. Existem cerca de 8 mil espalhados pelas ruas da cidade. Segundo Paulo Alves de 31 anos, editor do Bike Zona Sul – coletivo de ciclistas voltado ao tema mobilidade e acesso das bicicletas na cidade: “Essas estruturas são o modelo ideal, pois permitem trancar a bicicleta através do próprio quadro, ao invés de pendurar em ganchos suspensos, algo que não é fácil para quem anda com bicicletas carregadas ou idosos e crianças, por exemplo. Também não é indicado aqueles suportes no chão que encaixam somente as rodas, pois qualquer esbarrão pode entortá-las. Lembrando que é sempre importante investir em um bom cadeado, especialmente as travas U-locks, evitando cabos de aço ou correntes, pois mesmo sendo grossas, podem ser facilmente abertas por terceiros”.

As ciclovias, que são utilizadas para o transporte diário, e as ciclofaixas, que são uteis para o lazer, precisam de reparos frequentes, visto que muitas não têm suas devidas manutenções realizadas. Petterson também comenta sobre a estrutura cicloviária: “há pouca estrutura na cidade, e a maioria dela está concentrada nas áreas nobres. Elas são extremamente importantes para a prática do ciclismo, visto que não temos espaço na cidade voltado para o mesmo, além do perigo que é andar de bicicleta entre o mega trânsito da cidade de São Paulo”.

Assim, as ciclovias são parte de uma solução para a mobilidade: além de promover a segurança, ter um espaço exclusivo para que se possa ir e vir com mais tranquilidade preserva vidas. Essas ciclovias são mais caras, e no entanto são a opção mais segura em vias de grande movimento, já que as ciclofaixas se tornam opções mais viáveis, sendo mais econômicas, rápidas, e que demandam maior cuidado e manutenção. Há também as ciclorrotas, que são vias sinalizadas em ruas mais tranquilas, porém sem nenhuma segregação entre carros e bicicletas, onde placas e pictogramas de bicicletas no asfalto sinalizam um determinado percurso. Paulo Alves completa: “acreditamos que todas as formas são viáveis, mas os investimentos devem ser ampliados a cada gestão com uma política de mobilidade, conectando cada vez mais uma rede cicloviária permanente, ligando  os bairros mais distantes ao centro da cidade, protegendo desde o cidadão, que já usa bicicleta em avenidas, e também pessoas que ainda estão começando. Ciclovias salvam vidas”.

Em consequência da má gestão do poder público, surgiu o Ghost-Bikes, grupo que já existia fora do Brasil e veio para cá como forma de lembrar de pessoas que, infelizmente, perderam suas vidas por conta da imprudência de alguns motoristas. São bicicletas pintadas de branco e penduradas em poste no local do acidente, como uma forma de protesto por mais segurança nas vias. Paulo diz “no Ghost-Bikes, todos doam materiais como tinta branca, faixas e uma bicicleta bem usada para servir de símbolo, sendo pintada e fixada em um espaço visível no local do ocorrido.” 

“É preciso fazer mais. Está comprovado que o ciclismo, além de melhorar a qualidade física das pessoas, pode também melhorar o trânsito e a poluição das cidades. Portanto, as pessoas que morreram tentando melhorar a vida delas e de outras pessoas não podem ser esquecidas tão facilmente”, completa Petterson Queiroz.

Portanto, para melhorar o tráfego pelas ruas e a qualidade de CO2 (dióxido de carbono) emitidos no meio ambiente, uma boa opção é a substituição dos automóveis pelas bikes. Mas para isso, ainda há muito o que ser melhorado. Petterson comenta “falta muito para as pessoas começarem a andar de bike e largarem seus carros. Primeiro que a estrutura não oferece condições para isso, falta ciclovias e falta segurança. Além disso, ainda tem a cultura de que as pessoas não têm o hábito de fazer atividade física, portanto para mudarem o hábito, as pessoas precisam se sentir seguras e confortáveis, e isso ainda vai demorar muito para acontecer”.

É essencial termos mais estruturas cicloviárias e bicicletários e menos Ghost-Bikes, ou seja, num contexto geral, além de mais investimentos na bicicleta como modal de transporte, estruturas de apoio ao ciclista, é fundamental o acalmamento do tráfego e reduzir as velocidades nas vias urbanas”, comenta Paulo Alves do Bike Zona Sul.

Outra boa medida são as bicicletas públicas compartilhadas, que aos poucos estão se expandindo, mas precisam chegar em toda a cidade, especialmente nos extremos da periferia.

Os investimentos na bicicleta como meio de transporte são uma forma de prevenção na saúde pública, que economizariam cerca de 34,4 milhões no SUS (Sistema Único de Saúde) ao ano apenas em São Paulo, segundo o CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), estudo que também contabilizou 623 milhões de economia em transporte público e 18,7 milhões em viagens de carros. É evidente que não é possível substituir todos os meios de transporte, mas reduzir o uso do automóvel particular e o governo inverter investimentos rodoviários para uma combinação de vários modais como transporte ativo, ferroviário e fluvial, já permitiriam uma economia de milhões de reais nos cofres públicos. E Paulo finaliza, “a bicicleta traz inúmeros benefícios, menos tempo no deslocamento, liberdade e praticidade, e a longo prazo é algo que beneficia a todos”.

 

Entrevista com Renata Falzoni 

“Comecei a pedalar muito cedo na minha vida, com 5 ou 6 anos. Quando eu estava na faculdade de arquitetura, comecei a pedalar como meio de transporte, em 1976. A partir daí comecei a ver uma cidade diferente, e com a visão de arquiteta, comecei a entender e propor mudanças na cidade.

O Bike é Legal é um portal que começou com texto e foto na internet, mas devido o foco maior sempre ter sido vídeo e com o amadurecimento das mídias terem voltados mais para o vídeo, hoje nós estamos com muito peso e energia no YouTube, então temos o site, mas a nossa energia vai pro YouTube. São colocados 3 vídeos por semana focados em transporte, esporte e lazer e o advocacy, que é a legalidade da bike. Bike é legal, é bacana e bike está na lei. Esse é um desafio nosso, é crescer conseguir falar de tudo, os interesses do público não são tão diversos quanto o nosso.

Acabamos de colocar um filme no ar chamado Elo Perdido, um filme de meia hora, ele dá sete exemplos de resiliência do uso da bicicleta”.


Bicicletário
 

“Hoje em dia tem bicicletário, antigamente não tinha e quando não tinha eu falava para me arrumarem, então passava a ter, eu sempre fiz uso da minha característica para abrir espaço para outros.

Um exemplo é a TV Gazeta, não tinha bicicletário e eu fui contratada lá na Copa do Mundo em 2014, eu falei que precisava de um bicicletário e até hoje o bicicletário que está lá é provisório e é meu. E quando eu chego está lotado de bicicleta.

Se for falar em infraestrutura de bicicleta compartilhada, no Largo da Batata, em São Paulo, na saída da estação do metrô da linha amarela, estão injetando mais ou menos mil bicicletas por dia, porque as pessoas saindo do metrô faziam uma baldeação, pegavam um ônibus e iriam para seus trabalhos, e eles entendem que se forem de bicicleta é mais barato e muito mais rápido. Então o que se gastava 40 min., agora gasta-se 20 min. e ainda vão pedalando, se divertindo. Aquilo mostra o quanto a infraestrutura não é só bicicletário, é também a falta de bicicletas compartilhadas, é também ter um espaço compartilhado nas ruas sem ser atropelado, tudo isso faz parte de um sistema, isso atrai novos ciclistas.

O filme Elo Perdido, mostra bem o Largo da Batata, em São Paulo nós temos dois exemplos: um na zona norte, sem estrutura nenhuma, que é o ciclista de periferia que pedala, que somando com aquele ciclista que também é de periferia, que chega de transporte público ou um cara de classe média que é CEO de Companhia e que usa aquela estrutura igual, então é um lugar onde você tem inclusão social, pela demanda e pela inteligência do local”.


Estabelecimentos

“Os estabelecimentos de chuveiro e bicicletários estão tentando suprir uma infraestrutura que os grandes edifícios agora estão dando, com muito pouco investimento e com importante desafogo do uso de carros individuais nas suas garagens”.


Ciclovias na periferia
 

“É muito importante a gente ter ativistas de periferia gritando, porque eu que sou de classe média aqui do Centro não consigo gritar por eles.

Hoje nós estamos nas vésperas de um momento decisivo no qual o novo secretário de transportes vai apresentar um novo planejamento cicloviário. Já ouvimos falar que ele vai iniciar a retirada de várias ciclovias “inúteis” e “ desconectadas”. Ciclovia desconectada não se deve retirar, é preciso conectar e estão todas na periferia. Não adianta eu ficar gritando por eles lá, é muito importante que aquela turma grite para a gente ajudar.

No filme Elo Perdido, um dos personagens é um cara que inventou a #CICLOVIANAPERIFERIA, ele está na zona norte, estamos lá ajudando, eles estão conseguindo manter a ciclovia lá. Já na zona leste, se o pessoal de lá não gritar vão ser retirados, pois são ciclovias que não foram conectadas, porque a conexão vai interferir sim no leito viário e vai ter de diminuir sim espaços de carros, e isso é um tabu.

Se tirar a ciclovia e botar uma calçada eu vou me sentir menos ofendida do que se voltar para a situação de carros, isso é acenar que está dando prioridade à mobilidade ativa e ao transporte público, como reza o próprio Plano Nacional de Mobilidade Urbana que é lei de 2012, no qual inverte a pirâmide até então, que a prioridade é do carro e nas cabeças dos gestores ainda a prioridade são dos carros, portanto se vier esse plano retirando ciclovias “ociosas” e devolver esse espaço para a circulação de carros, nós estamos mais uma vez andando km para trás e as pessoas tem que gritar mesmo.

A comunidade deve conversar com quem é contra, conversar com o eventual comerciante que é contra, conversar com o outro cara que é dono daquela escola e é contra, tem que convencer essas pessoas, agora não sou eu quem vai convencer, é o pessoal local apoiado por nós, mas tem que ter a comunidade local ajudando”.


Substituição dos carros pelas bicicletas
 

“Tem que mobilizar o uso das ruas, elas não são somente para máquinas motorizadas, então deve-se começar a preparar independente da estrutura cicloviárias ou não. Tem que mudar a conversa, ao invés de falar “Acelera São Paulo”, o que induz o motorista a acelerar em cima de pedestre e ciclista. Tanto que aumentou o número de pedestres e ciclistas na cidade desde essa mudança, muito impulsionada pelo refrão que induz uma intolerância com as pessoas nas ruas. Tem que propor o acalmamento, o correto é redesenhar as ruas, fazer com que os desenhos das ruas promovam uma redução de velocidade, promova respeito entre as pessoas. Isso é o mais importante, são necessárias ciclovias também, mas isso é tão importante quanto um cicloviário. Quando um ciclista está na ciclovia e tem que sair de um lugar para o outro e não ter ciclovia nesse espaço, você não pode morrer atropelado por conta do outro ser intolerante, então tem que ter a regra de que compartilhamento da rua é uma necessidade, independente da ciclovia. O que é respeito entre as pessoas, também é prioritário, e isso é uma coisa que faz falta, pois dentro da cabeça das pessoas que comandam o trânsito, a fluidez é mais importante do que a segurança dos pedestres e dos ciclistas que são maiores vítimas.

É notável que nós tivemos uma redução dos números totais de mortes em 2017, mas aumentou o número de mortes entre pedestres e ciclistas, sendo ciclistas mais de 40% e pedestres mais de 20%, é de se entender que os cuidados foram para uma minoria que está em carros e motos, mas é inaceitável ter aumento de mortes de pedestres e ciclistas, se vai diminuir, tem que diminuir de todos, em especial dos que mais morrem. Os motociclistas também, mas até mortes de moto eles conseguiram diminuir, o que é louvável. Para fazer isso eles tiveram de tirar, ao invés de domesticar. O correto teria sido permitir o motociclista e todos em uma velocidade que não fosse perigosa, mas os gestores mascararam a maneira de fazer.

Então, mesmo os números apontando para aquilo que é favorável, nós sempre temos de entender o que há por trás desses números. No caso da diminuição de mortes de motociclistas, que é louvável, teve a proibição do trânsito deles na Marginal. É aquele negócio, – nesta esquina estupra-se mulheres, então vamos proibir mulheres nessa esquina – resolve o problema? Em vez de domesticar e torná-la boas para todos, porque se é bom para a mulher, também é para as crianças e para os idosos, então a gente sempre tem que tomar cuidado com as estatísticas e a forma que elas foram obtidas”.


Ghost-Bikes
 

“Ghost-Bikes é internacional, é uma homenagem, é um movimento que chama a mídia, que homenageia a vida de uma pessoa, mas eu preferiria tanto que não precisasse ter Ghost-Bikes. A última que foi implantada, foi de um menino de 15 anos, ele foi assassinado por um motorista em altíssima velocidade, na Av. Atlântica, o que é questionável, além de aplaudir uma Ghost-Bike. Como pode a Av. Atlântica permitir altas velocidades? Como pode ela ser desenhada para promover alta velocidade? Não poderia. Como pode vender bebida alcoólica durante à noite ao longo dessa avenida? É questionável. Vamos começar a pensar de fato em mudar essas leis”.

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