#BrequeDosAPPs: Reflexão sobre a greve e a uberização de trabalhadores
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#BrequeDosAPPs: Reflexão sobre a greve e a uberização de trabalhadores

#BrequeDosAPPs: Reflexão sobre a greve e a uberização de trabalhadores

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A greve dos entregadores de aplicativos, conhecida como #BrequeDosAPPs, é uma paralisação nacional dos trabalhadores dos serviços de entrega. A mobilização, que ocorre nesta quarta-feira (01), traz uma discussão que está nas entrelinhas da uberização há alguns anos. Flexibilização ou exploração da mão de obra trabalhista? 

greve dos entregadores de aplicativos
#BrequeDosAPPs, a greve dos entregadores de aplicativos. | Foto: Izabela Schaus – (Instagram/Reprodução/raw_speech).

A mobilização está prevista para ocorrer nos principais estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e tem como intuito trazer reivindicações desse setor autônomo que, durante a pandemia do coronavírus, intensificou-se o trabalho.

[…] É um movimento dos trabalhadores para quebrar com o lucro dos empresários que tanto nos exploram e expropriam de nossa mão de obra para ficar lucrando, para ficar dentro de casa com a pandemia, com todas as regalias e a gente aí na rua se ferrando.

Reflete a entregadora Tirza Gabriela, que trabalha nas plataformas de entregas.

Entre as reivindicações propostas pelo movimento dos entregadores encontra-se o aumento do valor por quilômetros rodados, o aumento de uma taxa mínima para realizar a entrega, fim dos bloqueios e desligamentos de motoristas feitos pelos próprios aplicativos, garantias de segurança trabalhistas (em casos de acidentes e furtos) e, com a pandemia do Covid-19, os motoristas também pedem “auxílio pandemia” que conta com equipamentos de segurança. Os aplicativos que possuem o serviço de entrega, como Uber Eats, Rappi, iFood, são uns dos principais alvos da mobilização.

Fui bloqueado na Uber […] eles não me ligaram, não falou nada comigo, só me bloqueou e nisso eu mandei mensagem explicando o que tinha acontecido e não me deram retorno. Então, eles precisam ouvir mais o motoboy antes de estar bloqueando.

Relembra o motoboy Fabricio Silva.
Motoboy Fabricio mobilizando os entregadores para aderirem à greve do #BrequeDosAPPS. | Foto: Arquivo pessoal/Instagram/pezaobh).

O perfil do Instagram (@tretanotrampo) foi uma das páginas que se mobilizou para divulgar as pautas e reivindicações da greve nacional dos entregadores. Posts informativos, locais de encontro, divulgação da opinião de motoboys podem ser vistas ao acessar o perfil.

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.⠀⠀⠀⠀⠀ 🗣️ Entregadores em todo o Brasil estão se mobilizando pro #BrequeDosAPPs, que vai acontecer no dia 1º de Julho, a partir das 9h da manhã em todo Brasil. . ⚠As pautas da PARALISAÇÃO NACIONAL são: . ➡️ 1. AUMENTO DO VALOR POR KM Com a pandemia e o desemprego, os aplicativos estão ganhando como nunca. Em vez de repassarem o valor pra gente que tá na linha de frente, correndo risco de acidente e de pegar Covid, eles jogaram as taxas de entrega lá embaixo. ➡️ 2. AUMENTO DO VALOR MÍNIMO Se não tiver taxa mínima que compense ligar a moto ou subir na bike não dá pra trabalhar. ➡️ 3. FIM DOS BLOQUEIOS INDEVIDOS Chega de bloqueio e desligamento sem motivo! E tem que colocar todo mundo que foi bloqueado indevidamente até agora de volta. . ➕ RAPPI: FIM DA PONTUAÇÃO E RESTRIÇÃO DE LOCAL Com o sistema de pontuação da Rappi, estamos sendo obrigados a trabalhar no fim de semana pra conseguir juntar os pontos pra trabalhar no resto da semana. A gente tem que poder escolher quando quer ligar o aplicativo e trabalhar! ➕ SEGURO DE ROUBO, ACIDENTE E VIDA Enquanto o aplicativo tá ligado, a gente tá trabalhando pra empresa, e os Apps precisam se comprometer com a nossa segurança caso a gente se acidente. ➕AUXÍLIO PANDEMIA (EPIs E LICENÇA) Os apps precisam pagar os custos dos equipamentos de proteção, e caso alguém pegue Covid-19 precisam pagar um auxíliodoença pra poder se recuperar em casa. . . 📲 Bota o capacete e a máscara e manda pra nós o seu salve: 1195872-2568. Se organize com os entregadores da sua cidade, grave um vídeo convocando a paralisação na sua cidade e vamo pra cima dos APP’s! . . #tretanotrampo #motoboyprofissaoperigo #cachorroloko #motoboyseentregadores #entregadores #motoboys #puxoucortouraspou #vrauu #Cicloentrega #BrequeDosAPPs

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Foto: Reprodução Instagram/tretanotrampo.

A uberização e suas facetas

Aos 21 anos, a estudante de Pedagogia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Tirza Gabriela, observou no serviço de entregas pelos aplicativos uma forma de gerar renda durante a pandemia do Covid-19. “Não houve a renovação das bolsas dentro da universidade, das bolsas administrativas dentro da UFRGS. Então, era menos dinheiro na renda e, além disso, minha mãe ficou desempregada”, recorda a estudante. Todo esse cenário contribuiu para que sua nova forma de obter dinheiro fosse através da denominada uberização.

A uberização ganhou consistência com o surgimento do aplicativo Uber e propõe um novo modelo de flexibilização trabalhista. Com uma mão de obra autônoma e disponível, resultante da taxa de desemprego no Brasil, o serviço uberizado obteve abertura nesse cenário para colocar em prática seu modelo trabalhista.

A ideia de ser chefe de si mesmo e trabalhar sob demanda são algumas das características que estão presentes nesse novo formato flexibilizado. Por outro lado, a exclusão de direitos trabalhistas, previstos na CLT e a responsabilidade pelos meios de trabalho ilustram a precarização.

Você não consegue olhar para frente e ver na pessoa, que está com um caixote nas costas entregando uma coisa para você, um ser humano que faz parte do processo de consumo.

Em uma coluna no site PassaPalavra, a doutora em Ciências Sociais, Ludmila Costhek, afirma que “a uberização consolida a passagem do estatuto de trabalhador para o de um nanoempresário-de-si permanentemente disponível ao trabalho; retira-lhe garantias mínimas ao mesmo tempo que mantém sua subordinação; ainda, se apropria, de modo administrado e produtivo, de uma perda de formas publicamente estabelecidas e reguladas do trabalho”. 

O retorno imediato salarial e a flexibilidade da jornada de trabalho atraem colaboradores ao passo que cria-se a imagem de empreendedor. Contudo, há a exclusão de garantias trabalhistas – pois o prestador de serviço não possui vínculo empregatício com o aplicativo – e, além disso, o trabalhador uberizado é responsável por qualquer dano que acontecer consigo mesmo e com seu meio de trabalho (carro, moto, bicicleta). 

Com horários diferenciados e por serem trabalhadores Just In Time, os trabalhadores uberizados apenas recebem seu pagamento quando são “acionados” pelos usuários dos aplicativos. Seguindo essa lógica, para que o prestador de serviço consiga aumentar seu salário, é necessário o aumento das horas trabalhadas. 

uberização
Uber. | Foto: Uber Brasil.

Às sete horas da manhã, o despertador toca para mostrar que a rotina é não ter rotina. O entregador Fabricio Silva, 41, toma seu café da manhã, coloca seu relógio e pega sua moto para mais um dia de entregas com a expectativa de ser um dia produtivo.

“São praticamente 12 horas que fico na rua, no corre, tentando levantar um dinheiro”, reforça ele. Apesar de ser um dos trabalhadores “parceiros” – nome usado pelos aplicativos – Silva conta com a ajuda de um trabalho extra como entregador de lanchonete na parte da noite para complementar sua renda. “Quando eu trabalhava [apenas com o aplicativo], nosso Deus! Não dava não, tem que trabalhar o dia todo…12 horas e o pau quebra mesmo.”.

Se o cara quer ganhar dinheiro, quer levar alguma coisa para casa, ele tem que trabalhar muito para conseguir até mesmo uma flexibilidade do trabalho […] Ou o cara trabalha todo dia sem folga para conseguir ter o mínimo dentro de casa ou ele tem um outro emprego, uma outra empresa.

Para a pesquisadora e doutora em Ciências Sociais, Ludmila Costhek, o gerenciamento feito pelas empresas-plataforma faz com que o trabalhador continue subordinado e isso se deve pela junção das “ameaças da concorrência e do desemprego. O fato é que a passagem do relógio de ponto para o relógio de pulso mostrou-se extremamente eficaz na intensificação do trabalho e na extensão do tempo de trabalho”.

Independência, porém…

A independência, relacionada com a questão de flexibilização, é um ponto característico desse modelo, entretanto, ela possui diversas facetas implícitas. Uma delas é o algoritmo presente na plataforma dos aplicativos através das avaliações, por exemplo. Neste sentido, a uberização concretiza a transição do monitoramento feito pelo chefe para os usuários dos aplicativos.

Após cada entrega realizada, os consumidores possuem uma espécie de avaliação do seu pedido e do serviço prestado pelo trabalhador, assim o algoritmo do aplicativo pode ranquear, de forma negativa ou positiva, a entrega. Por fim, a classificação dada pelo usuário acaba por influenciar se o trabalhador “parceiro” terá acessos à mais recomendações e pedidos.

Em realidade, o controle sobre o trabalho é transferido para a multidão de consumidores, que avaliam os profissionais a cada serviço demandado. Essa avaliação fica visível para cada usuário que for acessar o serviço com aquele trabalhador.

Conclui Costhek.

No site da empresa Uber, eles afirmam que as avaliações de entrega são feitas a partir da “média de avaliações recebidas para suas últimas 500 entregas nominais, ou todas as entregas que você completou se ainda não fez 500. Cada cidade tem sua própria avaliação mínima. Se a sua avaliação começar a atingir este mínimo, iremos contactar com dicas e informações úteis para o ajudar a tomar medidas para aumentar a satisfação das pessoas com as suas entregas”.

Em época de pandemia, esse cenário de avaliações ganhou uma outra narrativa. “Com a entrada de pessoas na entrega durante a pandemia, todo mundo saiu perdendo, porque quem entrou não tem pedido para fazer pontos para ficar mais acima do ranking e, quem já estava lá em cima, está recebendo menos pedidos. Todo mundo saiu perdendo e a culpa não é de quem entrou ou de quem já estava, a culpa não é do trabalhador – a culpa é justamente de um sistema que explora tanto a gente”, desabafa a entregadora e estudante Tirza.

Para Silva, a verdade sobre o ranqueamento, algoritmos e o sistema das plataformas de entregas continua sendo algo oculto, “Ninguém sabe qual é a verdade do negócio, não é? A gente sabe que alguns chamam mais do que os outros”.

No artigo Uberização do trabalho e acumulação capitalista, os pesquisadores David Silva e Deise Luiza afirmam que o trabalhador pode ser autônomo, mas a empresa é quem define uma meta e o pune caso não a alcance. Por fim, essa condição não sustenta o discurso de que o trabalhador uberizado pode ser seu próprio chefe.

Entregadores de aplicativos fazem greve
Entregadores de aplicativos fazem greve nesta quarta (1). | Foto: Reprodução.

Das entregas ao social

O #BrequeDosAPPs é a ponta do iceberg que perpassa somente as questões econômicas e trabalhistas. A questão social  é algo presente no dia a dia dos trabalhadores “parceiros”.

O entregador Fabricio Silva relembra que os motoboys e entregadores de aplicativos são discriminados e maltratados. “Já vi gente sendo humilhada e não podemos falar nada, porque eles [clientes e restaurantes] têm a razão, se eles falarem algo…eles te bloqueiam e você não tem o direito de resposta a esse bloqueio. Isso não é coerente com a situação, pois tem muitas coisas que eles falam que não possui um pingo de verdade”, enfatiza ele.

A discussão entre empatia e alteridade ganha velocidade em cada entrega. Enquanto alguns usuários dos aplicativos dão classificações positivas, outros não querem saber sobre a condição do prestador de serviço.

Um dos grande problemas que temos na sociedade é a forma alienada do consumo, isso quer dizer: a gente não faz ideia de onde as coisas vêm, para onde as coisas vão, como as coisas foram feitas. Só se (sic) importamos, de fato, como as coisas vão chegar em nossas mãos […] Você não consegue olhar para frente e ver na pessoa, que está com um caixote nas costas entregando uma coisa para você, um ser humano que faz parte do processo de consumo.

Reforça Tirza.

A uberização, flexibilização, exclusão de direitos trabalhistas escancaram as corridas entre a independência e a exploração por parte dos prestadores de serviços das plataformas digitais. A reflexão sobre esses dois aspectos é válida, a partir do momento que nos colocamos no lugar do outro.

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Por Bianca Dias – Fala! Anhembi

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