São Paulo: Liberdade além das lanternas
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São Paulo: Liberdade além das lanternas

São Paulo: Liberdade além das lanternas

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Por Beatriz Gil, Gabriel Balog, Gabriela Junqueira, Luana Pellizzer, Pedro Tadeu e Victoria Martinelli – Fala!Cásper

Andar pelas ruas cheias do bairro da Liberdade é pisar no chão onde a História passou. Rica em construções orientais por todos os lados, essa parte do centro de São Paulo abriga a cultura de imigrantes japoneses que, desde o século XIX, encontraram no Brasil um lugar para chamar de lar. Escondidos no coração do bairro, abrigam-se também tesouros: histórias de pessoas que fazem parte do visual da Liberdade e completam individualmente o perfil da região.

Ao sair do metrô lotado, na estação Liberdade/Japão, já se nota a incidência asiática do bairro.  Além disso, o barulho é alto, devido à força do comércio na região. É comum ver placas escritas com o alfabeto do Japão, bem como escutar descendentes falando a língua. E tem mais: muitos dos trabalhadores e habitantes sequer falam português.

(Foto: reprodução / Catraca Livre)

A Liberdade era, anteriormente, chamada de Bairro da Pólvora, por causa da Casa da Pólvora ali construída em 1754. O distrito recebeu o nome de Liberdade só em 1891.

E como tudo na Liberdade tem um significado, as pessoas também têm. Alguns descendentes de japoneses relatam o sofrimento das famílias que vieram ao Brasil como refugiadas de guerras. Outros falam, com orgulho, de como a cultura do país de origem ainda faz parte do dia a dia deles. Existem ainda os que não têm nada a ver com o oriente, mas encontraram na Liberdade uma simpatia única. A verdade é que só quem vive lá sabe os segredos que esse pedacinho paulistano do Japão esconde.

Com a finalidade de mostrar esses segredos escondidos pelo bairro, reunimos aqui algumas histórias que nele se escondem.

Tire uma foto com a Geisha

Em meio ao caos de letras e escritos espalhados por todos os lados, se enxerga ao longe uma pequena placa vermelha escrita a mão: “Tire uma foto com a Geisha. Contribuição voluntária”.

Tal caligrafia veio das mãos de Nasli. A colombiana de 28 anos, faça chuva ou sol ela, passa seu dia sobre o Viaduto Cidade de Osaka, na ponte da Rua Galvão Bueno, coração do bairro oriental. “Às vezes, geisha — representação milenar da mulher na cultura japonesa — , às vezes, catrina-mulher vestida e maquiada para o feriado mexicano Dia dos Mortos”, conta ela com seu forte sotaque. Afinal, se mudou da Colômbia há pouco mais de oito meses. Todos os dias lá está ela, fantasiada com roupas belas e cheias de vida, maquiagens feitas com cuidado e atenção e uma postura impecável ao papel, tirando fotos e chamando olhares curiosos dos que passam.

“Eu vim por necessidade, a situação estava muito difícil no meu país”, confessa Nasli. Quando chegou a São Paulo, ficou maravilhada ao ver quantas culturas podia encontrar aqui e, ao conhecer a Liberdade, viu sua chance de recomeçar. De acordo com ela, essa região tão particular da grande metrópole foi a mais acolhedora. Antiga admiradora da alegria brasileira e do respeito oriental, ela fala como o bairro é capaz de “unir pessoas boas com gente que nem eu ”. Mesmo dizendo que não teve a oportunidade de escolher o seu trabalho, Nasli repete o quão grata é pela oportunidade que tem de viver melhor.

A origem do Sushi no Brasil

O bairro da Liberdade quando a família Yassu chegou em 1970 (Foto: Kelly Yassu)

É impossível pensar na cultura do Japão sem se lembrar da culinária. Muito menos passar pela Liberdade sem fazer alguma refeição em um dos restaurantes tradicionais que são facilmente encontrados por lá.  Mas o que a maioria não sabe é que foi a família do senhor Ya-San que trouxe a gastronomia nipônica para o Brasil.

Na década de 70, Yassukazu veio do Japão para São Paulo para trabalhar com agricultura. Ele e a família se mudaram para uma casa no bairro da Liberdade. E nesse mesmo endereço está localizado, até os dias de hoje, o “Sushi Yassu”. O restaurante, inaugurado em 1976, foi um dos primeiros estabelecimentos a vender sushis em São Paulo. A comida servida é tradicional, sem as famosas “abrasileirações”. Ou seja: nada de goiabada, cream cheese, geleias de frutas, misturas com doces e chocolates, entre outros. “Os pratos que meu avô trouxe para o Brasil não tinham nada assim…estranho”, diz Kelly se referindo ao sushi tradicional, ou seja, apenas o salmão ou o atum cru, a alga, a sopa missoshiro, e também o macarrão lámen com ovos, verduras e lombo de porco.


Família Yassu na década de 1970 (Foto: Kelly Yassu)

Kelly Yassu, neta do fundador, é a atual dona do negócio e responsável por garantir a permanência dos costumes, passados de geração em geração. Ela conta sobre o cuidado para manter a identidade oriental do estabelecimento: “Sempre foi nesse mesmo local, tudo que a gente tinha aqui eram as salas, tanto que as salinhas ainda tão aqui desde aquela época, só com reformas muito pequenas, e a expansão de mais uma casa, onde hoje é a cozinha e a entrada principal. A gente nunca fez muitas alterações, nem na arquitetura, nem no cardápio”.  É um espaço acolhedor que pode ser reservado previamente para uma refeição ainda mais tranquila.

As opções do cardápio são bem diversas, desde ovas de tainha defumada na entrada até combinados de sushis, sashimis e variados. Outros frutos do mar também estão presentes nos pratos, como o camarão e a lula. Kelly conta que as receitas e os pratos feitos são todos da autoria de seu avô, e mais, ainda diz: “Meu avô foi um dos pioneiros na gastronomia de restaurante japonês no bairro e em São Paulo”. O Sushi Yassu fica na rua Tomás Gonzaga, que é onde se concentra a maioria dos restaurantes tradicionais da Liberdade.


Salas para reserva do restaurante Sushi Yassu (Foto: Restorando)

A estrela do bairro

Ao entrar na famosa Livraria Sol, localizada no número 153, em frente à estação de Metrô Japão-Liberdade, é fácil encontrar Mitiê Urayama entre as estantes verdes, que são coloridas por diversas revistas orientais e nacionais. Ela é descendente de japoneses, nascida no Rio de Janeiro, e trabalha na Livraria Sol há mais de 25 anos. A maioria dos funcionários que trabalham no estabelecimento não falam português, sendo Mitiê uma das poucas pessoas a falar bem o idioma no estabelecimento. Além disso, é casada com Roberto Ossamu Fujita, filho de Yoshiro Fujita, que fundou a livraria em 1949, quatro anos após a Segunda Guerra Mundial.

Mitiê conta que o sogro, Yoshiro, chegou ao Brasil quando tinha aproximadamente 10 anos e se fixou com a família no Paraná, onde ficou até os 18 anos, quando se mudou sozinho para São Paulo. Ela disse que, durante o período da Segunda Guerra Mundial, especificamente em 1940, os japoneses, que sempre tiveram um grande interesse pela leitura, não podiam sequer ter um livro escrito em seu idioma, já que todas as publicações em japonês tiveram a circulação proibida. “Muita gente, inclusive meus avós, escondiam livros, enterravam no meio do mato para não serem confiscados. Eles passaram por cada dificuldade, cada coisa”, conta Mitiê.

Após a guerra, o sogro de Mitiê entrou em contato com o pai de um amigo que morava no interior e possuía muitos livros guardados. A pequena coleção foi doada a Yoshiro, que bateu de porta em porta na casa de japoneses tentando vender os livros. Surpreendido com a enorme quantidade comprada, percebeu a sede de leitura que os japoneses tinham e assim decidiu criar a Livraria Sol: a primeira livraria registrada do bairro.

Atualmente a livraria é tocada por seu marido, Roberto Fujita, sua enteada, Tatiana Fujita, e pela própria Mitiê. A respeito da mercadoria que a Sol vende atualmente, a senhora Urayama diz que “tem que ir mudando pouco a pouco, porque a primeira geração já morreu ou está com a idade muito avançada. Muita gente já não sabe ler japonês”. Hoje em dia, a maior parcela do público frequentador da livraria é composta por brasileiros. Geralmente eles procuram livros didáticos, mangás em português ou japonês, como os lançamentos de One Piece, Naruto e Bleach. Entre as revistas de moda japonesa vendidas na livraria estão nomes como Elle, Vogue, Non-no, Ray Spring, Cuite e Egg. “A gente não pode ficar só nisso esperando que o cliente venha”, disse Mitiê, completando que a livraria também começou a vender produtos de papelaria. A loja ainda recebe encomendas de pessoas de todos os cantos do país através de seu site ou pelo endereço físico.

Nem só de Japão vive a Liberdade


Fachada da Igreja das Almas

Quem chega ao bairro pela estação de metrô   não imagina que aquele local, cercado por lanternas japonesas e arquiteturas orientais, também já foi casa e símbolo de resistência do movimento negro.

É difícil encontrar alguém que perceba, à primeira vista, a igreja localizada ao lado da Praça Liberdade, de aparência sombria e cercada por pombas. O local parece pouco convidativo aos que passam pela frente, mas a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados faz parte de um conjunto de três capelas que carregam consigo uma história pouco conhecida que, inclusive, deu origem ao nome do bairro.

Francisco José Chagas, conhecido popularmente por Chaguinhas, foi um militar negro que liderou uma revolta em Santos e foi punido com a pena de morte. No dia de seu enforcamento, a corda arrebentou três vezes, levando a população que assistia à execução a acreditar que ele possuía algum poder sobrenatural. O povo gritou por liberdade. Este desejo não foi atendido pelo Estado, mas tornou-se o nome do bairro. Hoje, Chaguinhas é tido como um santo popular. Ele não foi canonizado, mas a população que frequenta as missas nas capelas e, principalmente, a comunidade negra mantém grande veneração por ele.

O enforcamento aconteceu em frente à igreja, no local que hoje abriga a estação de metrô Liberdade/Japão. Os negros marchavam para a morte, porém, antes disso, havia um momento de súplica intensa na qual eles pediam para serem perdoados. Justamente para contemplar essa dor, foi criada a Capela dos Aflitos. Na mesma época, surgiu na Liberdade o Cemitério dos Aflitos, onde eram enterrados os “indigentes”, ou seja, os negros condenados à forca e moradores de rua. Além da Capela Nossa Senhora dos Aflitos, os negros escravos foram responsáveis pela construção de outras duas igrejas que fazem parte do turismo do bairro, são elas a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.

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