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Todas estamos sujeitas – Casos de assédio nos Jogos Universitários

Todas estamos sujeitas – Casos de assédio nos Jogos Universitários

Por Beatriz Abrantes – Fala!MACK

 

A edição 2018 dos Jogos Universitários de Comunicação e Arte (JUCA) aconteceu há pouco menos de um mês, 28 de abril, em São Carlos, no interior de São Paulo. As festas trouxeram grandes temas, incluindo diversidade, com show de drags, banheiros neutros e pontos de apoio contra o assédio para todo o tipo de combate.

A representante da Atlética do Mackenzie, Tuba, conta pra gente como foi a organização deste último ano: 

“Esse ano a divulgação do projeto do JUCA da Diversidade foi muito maior! Falando sobre o Mackenzie, eu senti e vi que a atlética inteira, não só quem estava na comissão anti-opressão, estava muito mais preparada em ajudar quem precisava do nosso apoio. Esse ano a LAACA confeccionou coletes rosas indicando quem de cada atlética fazia parte da liga anti-opressão, isso também ajudou muito as pessoas virem relatar os casos pra gente!”. 

Foi o que sentiu a Priscila Palumbo, de 20 anos, que sofreu assédio por parte de um segurança, na festa do meio:

“Chegou um segurança e falou assim para mim: ‘Então, abaixa essa blusa’. E eu fiquei pensando: ‘Nossa, será que não pode ficar com a barriga de fora, com blusa para cima?’. Aí ele falou ‘Abaixa a blusa, que seu físico ta muito bom, ta muito bonita’. Dez segundos depois, alguns alunos já acionaram alguém da atlética, que já apareceram lá. Uma menina da atlética chegou e me perguntou se tava tudo bem, o que tinha acontecido. Aí o presidente da atlética chegou, me deu total apoio, já tinham removido o cara de lá, me disseram que ele não iria mais em outras festas, o que me deixou bem mais tranquila. O apoio da atlética, eu queria até exaltar, porque foi super inesperado. Naquele momento eu não tava vendo ninguém da atlética lá, e eu pensei que talvez eles não estariam lá, mas estavam”.

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Contudo, mesmo com a maior presença das ligas anti-opressão, não foram todas que se sentiram acolhidas e seguras nos Jogos. Catarina Naomi, de apenas 19 anos de idade, já se decidiu: irá se hospedar em algum hotel caso vá de novo ao JUCA. Quando saía da festa do meio, às seis horas da manhã, Catarina estava acompanhada de mais duas amigas que dormiriam na barraca ao lado da sua. Foi quando um homem colocou uma caixa de som entre as suas barracas que tudo começou:

“A minha amiga começou a falar pra ele ‘Meu, você não vão colocar essa caixinha de som aqui né?’. Aí ele ‘Ah não, eu vou colocar. Eu coloco onde eu quiser’. E eu falei pra minha amiga ‘Miga, qualquer coisa me chama. Aí ele também ouviu. Ele começou a perguntar se eu tava sozinha, se eu tava bem, perguntando se eu queria que ele dormisse comigo. Eu falei que eu não tava sozinha. Ele falou assim: ‘Deixa eu entrar então pra ver se é verdade’.

O agressor abriu a primeira porta da barraca, e a segunda estava entreaberta. Catarina colocou uma roupa correndo, já que estava se trocando, e fechou a segunda porta. Assim que teve a oportunidade, saiu correndo para acordar uma amiga que fazia parte da atlética. “Eu nem sabia pra onde eu tava indo direito, eu só saí andando porque eu queria sair dali”. Foram chamados os seguranças e a atlética para resolver o caso. “Os seguranças do alojamento também foram muito escrotos, tipo perguntando se eu tinha certeza e eles ficaram: ‘Você tem certeza do que aconteceu? Porque isso é uma acusação muito grave’.”

Mas foi a atlética que orientou ela a abrir o processo contra o agressor. “Eles fizeram uma reunião lá e falaram que tipo, se eles expulsassem o cara sem eu abrir o boletim, o cara poderia processar a atlética depois, pelo que eu entendi”. Por fim, Catarina decidiu não formalizar a agressão, pois aquele era o último dia dos Jogos e não queria ser desacreditada de novo.

“No fim das contas foi muito conflitante andar pelo alojamento e ver o cara lá de braços cruzados, com os amigos dele, como se nada tivesse acontecido. Eu queria muito que ele tivesse saído de lá, mas não queria passar por tudo aquilo, de ir até a delegacia e ter que ouvir os policiais duvidando do mesmo jeito que os seguranças duvidaram”.

São histórias como essas, somadas ao longo dos anos, que explicam a motivação nas campanhas e atividades contra o assédio nos Jogos por parte da Liga organizadora do JUCA, a LAACA, e das próprias atléticas envolvidas. Aconteceu em 2016, no JUCA em Sorocaba, em que um caso de estupro, na festa da ECAtlética, alcançou as grandes mídias. O estudante foi expulso da festa e um boletim de ocorrência foi aberto contra o agressor.

“As autoridades disseram que não poderiam fazer nada, pois não tinham provas. Os organizadores disseram que foi fora da programação do JUCA e a Universidade também não fez nada, porque não interfere em festas fora do campus. E eu li alguns comentários dizendo que não foi realmente um estupro, que estando no lugar em que estava sabia que isso podia acontecer. Sempre culpando a vítima. Disseram também que o problema é que elas vão dar liberdade e depois dizer que foi abusada”, conta a aluna de letras, Sophie Pletz, 20.

Na época, a ECAtlética fez uma nota nas redes sociais em repúdio ao crime. Hoje, não foi possível contatar a atlética para mais respostas sobre o assunto.

Depois do ocorrido, a LAACA se empenhou em fazer eventos e projetos que combatessem o assédio nos Jogos. “O que eu senti depois disso foi uma iniciativa da Liga pra trazer esses assuntos, então eles começaram a trazer palestras abertas. Infelizmente, foi preciso alguns desses casos para abrirem mais os olhos sobre a falta de respeito dentro do evento”, relata Mariana Neves, 22, formada em Publicidade e Propaganda.

A Atlética da Cásper Líbero, Homem Pássaro, põe bastante ênfase nos eventos e nas palestras abertas ao público, com temas como “precisamos falar sobre assédio”, organizados pela frente feminista casperiana e compartilhado pela página Oficial do JUCA.

Porém, apesar do combate e conscientização por parte das atléticas, relatos e reclamações sobre assédio ainda são as principais queixas das frequentadoras.:

“Eu sou cheerleader e nosso uniforme é bem curto. Então sempre tem uns caras que ficam mexendo conosco e falando coisas bem desnecessárias. Várias pessoas quando passávamos nos chamavam de vadia, puta… entre outros nomes. Isso sem contar quando passam a mão e tentam puxar pelo braço. Eu fico mega irritada”, disse Mariana.

Formada em Jornalismo, Larissa Mika Kato frequenta o JUCA desde 2014 e acredita que o assédio seja uma humilhação para a mulher, afinal, seu “não” não significa nada:

“Lembro de uma das festas da Liga em que um cara tentou ficar com uma amiga minha e ela já havia negado no mínimo umas três vezes. Ele vinha, tentava, saía e depois voltava para tentar de novo. Lá pela quarta ou quinta vez, ele já estava bem alterado e segurou no pulso dela. Daí outra amiga minha se colocou no meio e começou a discutir com ele pra parar”, conta Larissa.

O assédio é um assunto levado muito a sério dentro das atléticas. Contudo, quando o assunto é estupro, a situação é bem diferente. “O assunto é tratado com seriedade não somente na PUC como na Liga e em todas as atléticas. Estupro é diferente de abuso, embora ambos os casos sejam lamentáveis. O único caso de estupro que temos conhecimento aconteceu há muito tempo em um alojamento que não era o nosso”, conta o representante da Atlética da PUC-SP, Pucão, referindo-se ao estupro de 2016.

Apesar de essa Comissão estar presente desde o ano passado, a Atlética do Mackenzie explica que 2017 foi o primeiro ano em que o projeto JUCA Diversidade foi colocado em prática e que, de fato, houve falhas na comunicação com o público. “Eu sinto que como no ano passado o projeto ainda estava em processo de formação, as coisas não estavam muito claras pra todo mundo, mas foi em 2018 que as coisas fluíram melhor, até por já ter tido a experiência de 2017!”.

Além do caso de estupro registrado formalmente em 2016, relatos confirmam uma situação similar ano passado. Quem conta é Giovana Norcia, 20, estudante de publicidade:

“O que aconteceu foi num dia de festa, ela estava bem bêbada sim. E ele eu não sei como estava, mas eles dormiram juntos na barraca, e quando ela acordou, ele não estava mais lá. Ela não se lembrava de nada e tinha umas partes roxas no corpo. Ela conversou com a gente lá mesmo, mas ela meio que não tem certeza do que aconteceu”.

Vitória Itália, 19, estudante de publicidade, compartilha um outro episódio parecido:

“Eu e algumas meninas fomos acordar uma amiga nossa e ela estava extremamente louca. Parecia que ela tinha tomado um doce/bala, estava muito mal, de verdade. Ela não conseguia nem abrir o olho. Depois, mais tarde, naquele dia, a gente foi ver se ela estava bem de novo. Aí ela hesitou em falar, mas ela disse que estava muito doida, foi ficar com um cara na barraca dele e que ela não lembrava mais de nada. E começou a chorar muito”.

Ana Beatriz Dragonetti, 20, estudante de publicidade:

 “Foi com uma amiga da minha irmã. Drogaram ela, levaram ela pra uma barraca. Ela acordou sem roupa, em um lugar x. Isso faz dois anos. Ou seja, todos estamos sujeitos”.

Apesar dos incentivos contra o assédio, a Liga deixou claro que não gostaria de se defender sobre o assunto. “Preferimos não falar com o Fala! sobre questão de assédio, é uma opção que fizemos como LAACA”.

A violação do corpo de uma mulher é um caso grave e que merece atenção urgente, independente de sua roupa, estado de consciência, e lugar. Uma súplica é feita. Um desejo é pedido. Apenas uma necessidade: respeito.

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2 Comentários

  1. Vinny
    11 meses ago

    E realmente uma materia que ficou muito boa expondo a verdade de muitas mulheres, adorei o fato do escritora nao ter medo de mostra a verdade. Com certeza e algo que todos deveriam ler e também deveria ver a 2° temporada de 13 reasons why que seria um encaixe perfeito pra entender a situação. Mas se você olha para tudo isso e ainda acha que os homens estão certos, eu tenho uma triste notícia para você… sua linha de pensamento esta errada, melhor mudar

  2. Sarah
    11 meses ago

    Esses assuntos precisam ser mais explorados, principalmente pelo jornalismo jovem. Todos sabemos que essa é a realidade do JUCA e de quase todos os jogos universitários. As mulheres sofrem SIM, e não vamos nos calar.