As consequências de um ano em isolamento na vida do universitário
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As consequências de um ano em isolamento na vida do universitário

As consequências de um ano em isolamento na vida do universitário

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A pandemia de Covid-19 não está sendo um momento fácil para ninguém, nem mesmo para o universitário. Em mais de um ano de isolamento social, acumulam-se as perdas pessoais, econômicas e sociais dos brasileiros. No tocante à educação, 2020 foi o ano do ensino remoto e das aulas a distância.

O isolamento e o ensino remoto causaram consequências na vida do universitário.
O isolamento e o ensino remoto causaram consequências na vida do universitário. | Foto: Reprodução.

Essa nova rotina acadêmica afetou grandemente a vida do universitário brasileiro. Segundo o levantamento “Global Student Survey”, divulgado em fevereiro deste ano, o Brasil foi o país onde mais alunos do ensino superior reclamaram da saúde mental.

Este é apenas um dos dados levantados pela pesquisa da Chegg.org, organização sem fins lucrativos ligada à empresa de tecnologia Chegg. O “Global Student Survey” ouviu universitários de 21 países (incluindo o Brasil) acerca de expectativas e medos por conta da pandemia.

As informações colhidas ajudam na construção de um panorama dos impactos sofridos pelos graduandos no último ano. Para ampliar essa discussão, conversamos com estudantes universitários de diversas regiões do país que nos contaram um pouco da sua experiência acadêmica diante do novo coronavírus.

O ensino remoto: impactos na forma de aprender e estudar do universitário

Em março do ano passado a pandemia ainda não havia tomado as proporções surreais que adquiriu ao longo dos meses aqui no Brasil. Naquele momento, o universitário estava voltando das férias e iniciando um novo ano letivo.

A propagação do novo vírus na Itália, Espanha, Estados Unidos e, posteriormente, em nosso país representou um empecilho na tão esperada volta às aulas e no reencontro com os colegas. Já em 17 de março, o Ministro da Educação publicou a portaria nº 343 de 17 de março de 2020.

Em conformidade com recomendações sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), a portaria do Ministério da Educação autorizava as instituições públicas e privadas de Ensino superior brasileiras a substituírem as disciplinas presenciais por aulas em meios digitais.

Adaptação às tecnologias

Só o fato de ter aulas online já significou uma mudança imensa na vivência acadêmica dos estudantes universitários. Foi necessário se adaptar a novas tecnologias e buscar maneiras de tornar a interação virtual mais humanizada a ponto de facilitar o aprendizado.

Para a maioria dos estudantes que ouvimos, o uso de novas tecnologias não foi um ponto de tanta preocupação. A estudante recifense de Psicologia, Heloysa Moura, afirma ter tido alguma dificuldade no começo, embora tenha pego rapidamente o “jeito” destas plataformas.

Já no caso de Ervelton Lessa, estudante de Administração do estado do Rio de Janeiro, o uso de plataformas digitais de ensino não foi uma novidade. Ele, que está no segundo período da graduação, já vivenciou o EaD durante o Ensino Médio por conta da pandemia.

Clauber Matheus, estudante pernambucano do curso de Pedagogia, considera que o processo de adoção de novas tecnologias foi um tanto traumático, embora ele perceba uma oportunidade. “Nós acabamos conhecendo novos métodos e ferramentas que podem ser utilizadas na educação”, afirma, “Espero que esse conhecimento acumulado possa ser reaproveitado em situações futuras”.

Desigualdade no acesso

Não podemos ignorar também as dificuldades geradas pela desigualdade estrutural no acesso a essas tecnologias. Estudar de maneira remota implica invariavelmente na necessidade de uma boa conexão com a internet e de um dispositivo compatível com as plataformas utilizadas pelos professores.

Nesse ponto, as universidades buscaram estratégias diversas para auxiliar os alunos. No caso da UFPB, instituição em que Matheus Willham cursa Ciências Atuariais, foram oferecidos auxílios econômicos para a compra de dispositivos tecnológicos, algo que também existiu em outras instituições públicas.

Entre os estudantes das universidades privadas que foram entrevistados por nós, muitos não souberam informar se existiram auxílios, quais foram eles e a quem se dirigiu. Contudo, Heloysa afirmou que a instituição em que estuda, a UNIBRA, em Recife, não reajustou os valores da mensalidade em alguns períodos.

A continuidade do EaD

Um dado interessante apresentado pelo levantamento da Chegg foi o de que 35% dos universitários brasileiros gostariam de que a sua universidade incorpore mais atividades remotas após a pandemia. Contudo, 51% dos brasileiros rejeitam a ideia. Essa é a segunda maior taxa de rejeição dentre os 21 países do estudo, atrás somente da Indonésia.

Entre os estudantes que ouvimos há quase uma unanimidade sobre o papel do ensino remoto após o controle da pandemia de Covid-19. Elaine Lima, estudante de Psicologia de Camaragibe (PE), acredita que um modelo híbrido funcionaria muito bem e caso seja aplicado após a pandemia ela seria adepta.

Um pouco mais moderado, Ervelton acredita que algumas atividades podem continuar EaD no pós-pandemia e que o ideal seria uma volta gradual ao modelo presencial de ensino. “Precisamos voltar com calma, mudanças boas são aquelas feitas de uma forma que não balancem estruturas”, declarou o estudante.

O ambiente e o horário de estudo

As aulas remotas implicam também em um novo espaço para o estudo. Anteriormente, o estudante contava com toda a estrutura de sua universidade para desenvolver suas atividades acadêmicas de maneira adequada. Com a pandemia, tudo passou a ser realizado em casa.

Entre os estudantes que ouvimos, a maioria afirmou estudar no seu próprio quarto, nenhum afirma ter um cômodo específico reservado somente para o estudo. Alguns reclamam da falta de compreensão dos demais moradores da casa com o seu momento de aprendizado.

Segundo os dados da Chegg, os estudantes brasileiros dedicaram 18 horas semanais para os estudos durante o lockdown. Porém, o mais preocupante, é que 47% dos brasileiros disseram que dedicaram menos horas aos estudos do que antes da pandemia.

A sobrecarga de atividades: impactos no autocuidado do universitário

A saúde mental do universitário pode estar abalada após um ano de isolamento.
A saúde mental do universitário pode estar abalada após um ano de isolamento. | Foto; Reprodução.

A pandemia afetou a dinâmica das famílias e dos lares, o que significa que surgiram novas demandas e responsabilidades. Da mesma forma, muitos brasileiros perderam os empregos e os jovens sentiram a necessidade de adentrar o mercado de trabalho para auxiliar nas contas de casa.

Não que a combinação trabalho e estudo seja exclusiva da pandemia, mas por conta de toda a situação atual acaba por exigir muito mais do estudante. Dessa forma, fica muito mais complicado para os estudantes conseguirem relaxar e cuidarem de si mesmos.

“Me sinto destruída a maior parte do tempo, por não conseguir fazer algumas coisas que almejo neste momento”, diz Elaine, “às vezes não sobra tempo pra cuidar de mim e nem de fazer o que gosto.” Essa é uma colocação que resume muito bem a percepção de outros entrevistados.

As tarefas acadêmicas

Ao longo da pandemia, muitos estudantes usaram as redes sociais para expor suas insatisfações com as atividades acadêmicas. Para muitos deles, as cobranças haviam sido aumentadas em decorrência do ensino remoto.

Dentre os estudantes que ouvimos, há uma evidente divisão entre as opiniões. Os estudantes que já adentraram o Ensino Superior no modelo EaD não sabem como eram as atividades anteriores, mas afirmam que estão conseguindo lidar bem com as atividades.

Por parte daqueles que tiveram a oportunidade de vivenciar a experiência acadêmica de maneira presencial, a percepção é outra. Eles, por sua vez, percebem uma cobrança maior em relação às atividades e as leituras obrigatórias.

Saúde mental: impactos no bem estar do universitário

A categoria de dados sobre os estudantes brasileiros no “Global Student Survey” que mais chamou a atenção foi a saúde mental. Para se ter uma ideia, o Brasil ficou no topo da lista de países em que mais universitários afirmaram ter sofrido com a saúde mental ao longo de 2020.

Segundo os dados do levantamento, 76% dos estudantes brasileiros sentiram sua saúde mental ser afetada durante o período pandêmico. O Brasil ficou em primeiro lugar acima dos Estados Unidos e do Canadá, ambos respectivamente com porcentagens de 75% e 73%.

Esse desgaste da saúde mental foi evidenciado através de outras nuances. 87% dos entrevistados brasileiros alegaram aumento no estresse e na ansiedade, 17% tiveram pensamentos suicidas e somente 21% buscou ajuda profissional durante o período.

Entre os universitários que ouvimos a saúde mental também foi uma queixa relatada. Eles constatam uma visível piora em sua saúde mental, alguns afirmando aumento na frequência e na duração de crises de ansiedade e estresse.

“O fato de estarmos em uma pandemia em que as coisas não dependem unicamente de nós para se resolver, cria uma sensação de não haver respostas ou perspectivas de melhora”, diz Ervelton, “Isso aumenta e muito os sentimentos de ansiedade e estresse.”

No grupo de estudantes ouvidos por nós, somente dois relataram a busca por ajuda especializada no tocante à saúde mental, ainda que todos tenham afirmado estarem mais estressados durante o período da pandemia.

Esperança no pós-pandemia: vacinação e a retomada presencial

Por fim, um dos dados expostos no levantamento da Chegg foi o percentual de otimismo entre os estudantes universitários dos 21 países analisados. No caso brasileiro uma parcela significativa dos estudantes universitários se diz otimista, 51% dos entrevistados.

Esse otimismo também foi sentido nos universitários que conversaram conosco, todos estão ansiosos para uma possível volta às aulas presenciais. “Estou esperançosa depois de tanto caos”, diz Elaine, “Eu espero coisas boas para todos nós que lutamos contra esse vírus”.

No dia das entrevistas, alguns universitários já haviam completado o esquema vacinal e estavam totalmente imunizados. Entre os que ainda não haviam recebido as doses, existia a expectativa de que com a vacinação eles possam enfim voltar à interação presencial.

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Por Jefferson Ricardo – Fala! UFPE

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